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17 de abr. de 2013
Deslugares
- Nós vamos ouvir músicas diferentes durante as aulas de dança.
- Músicas diferentes?
- É.
- Que tipo de músicas diferentes?
- Vocês precisam ouvir para conhecer.
- Músicas diferentes tipo... hinos?
- Hinos?
- É.
Parei de pensar para cantar mentalmente o Hino Nacional, o Hino à Bandeira, o Hino do Corpo de Bombeiros de SP, o Hino do Palmeir... e, finalmente, fui salva.
Ou quase.
- Hino de igreja, professora. Você não conhece hino de igreja?
- Não.
- Você não vai na igreja?
- Não.
- Você não é evangélica?
- Não.
- Católica?
- Não.
- Espírita?
- Não.
Eu e vinte crianças em silêncio absoluto.
- Se você não é evangélica, católica e nem espírita, o que você é, então?
...
- Se a professora não é evangélica, católica e nem espírita, ela é NORMAL!
27 de jan. de 2013
Deslugares
1.
Como eu, ele tinha poucos amigos e não era dotado de grandes habilidades sociais ou esportivas. Introvertidos, partilhávamos em silêncio o amor pelos livros e criávamos nossas histórias. Eu gostava de escrever e ele desenhava muito bem. O Rafael era o companheiro ideal para o isolamento na biblioteca. Naquela manhã nublada, pousei meus cadernos sobre a cadeira que era dele.
Tínhamos oito anos e, na última vez em que vi o Rafael, ele carregava entre os dedos a fita de cetim amarelo com uma medalha prateada, que ganhou no catecismo. Vestiram-no com a calça azul-marinho e a camisa branca que usava para ir à missa. Um anjo, diziam os religiosos. Eu já não acreditava em deus.
O Rafael não era como as outras crianças rosadas, mas parecia ainda mais pálido no cemitério, acomodado entre as paredes brancas do caixão.
Como eu, ele tinha poucos amigos e não era dotado de grandes habilidades sociais ou esportivas. Introvertidos, partilhávamos em silêncio o amor pelos livros e criávamos nossas histórias. Eu gostava de escrever e ele desenhava muito bem. O Rafael era o companheiro ideal para o isolamento na biblioteca. Naquela manhã nublada, pousei meus cadernos sobre a cadeira que era dele.
Tínhamos oito anos e, na última vez em que vi o Rafael, ele carregava entre os dedos a fita de cetim amarelo com uma medalha prateada, que ganhou no catecismo. Vestiram-no com a calça azul-marinho e a camisa branca que usava para ir à missa. Um anjo, diziam os religiosos. Eu já não acreditava em deus.
O Rafael não era como as outras crianças rosadas, mas parecia ainda mais pálido no cemitério, acomodado entre as paredes brancas do caixão.
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