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21 de mai. de 2012

Irina


No fim da semana passada, ou na noite do último sábado, para que a descrição seja exata desde a primeira linha, eu e meu irmão estávamos aos sempre indesejáveis cento e setenta quilômetros de distância, mas assistíamos ao mesmo filme, em televisores de voltagens, tecnologias e tamanhos diferentes.
Durante os intervalos comerciais, trocávamos impressões via SMS - através das quais, por norma, trocamos palavras de amor ou humor (que, como nós, nasceram do mesmo ventre), utilizando rimas e ritmos de cordel.
O filme - na verdade um telefilme, uma produção nacional realizada com o apoio das estranhas e incompreensíveis, mas sempre benvindas, políticas públicas - era uma crônica que, com muita poesia e delicadeza, abordava, entre outros temas que me são caros, a solidão. A personagem principal, apaixonada por literatura e por uma cidade que conheceu a partir da literatura, mostrava-se um grande espelho, daqueles nos quais, por parecer mais magra ou melhor iluminada, gosto de me ver.
Como se não bastasse o arrebatamento provocado por cada uma das frases e olhares, por todas as situações e pelo desespero que conheço tão bem, porque sei que o abandono habita a casa sombria ao lado da varanda e das janelas abertas da solidão; uma das últimas cenas do filme foi gravada em um dos poucos restaurantes paulistanos que costumo frequentar. Recebi a familiaridade como um abraço carinhoso, embora o desconforto provocado pela quase auto-observação à distância esteja dando o que pensar.
Logo depois da última cena, meu irmão respondeu ao meu "Lindeza!" com um menos breve "Puta mina deprê...".
Quase 48 horas depois, continuo apaixonada por ela.


Por mim.



O título do filme é Irina e foi transmitido pela TV Cultura. Não sei se será comercializado ou se será transmitido outra vez.