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24 de nov. de 2013

A nossa biblioteca


O escritor português Afonso Cruz escreveu, no divertido livro Os livros que devoraram meu pai, que "... um homem é feito de histórias, não é de DNA e músculos e ossos. De histórias.". Aqui no Brasil, há muito tempo, o muito lido e controverso Monteiro Lobato afirmou, depois de uma temporada nos Estados Unidos, que "Um país se faz com homens e livros".

Frequentadora assídua de bibliotecas públicas desde a infância, é com imensa alegria que percebo o renascimento da Biblioteca Municipal de Itapetininga, que vem à luz a partir de um novo coração, repleto de energia pulsante. Os olhos das crianças e jovens, atentos durante as contações de histórias, e o crescente movimento de empréstimo de livros e revistas atestam: há uma nova vida entre as paredes onde moram os livros que abraçam a imensa onda colorida que, transformada em balcão, atravessa o ambiente claro e quase sempre silencioso.

Na semana em que um jornal da capital paulista anunciava, em uma reportagem, o abandono de algumas bibliotecas paulistanas, nas quais quase não há movimento ou visitação do público, a Biblioteca Municipal de Itapetininga reuniu cerca de 220 pessoas durante uma tarde de contação de histórias. É a realidade da cultura da cidade que já foi conhecida como "Terra das Escolas" transformada para muito melhor.

As mães e pais que levam seus filhos à Biblioteca certamente não esquecerão dos momentos de afeto e intimidade partilhados entre histórias e livros. O resultado das vivências que acontecem através das histórias contadas ou lidas em um livro se reflete na educação e, principalmente, nas relações interpessoais, tão pouco valorizadas nos dias que correm. Imergir nos livros, partilhar histórias e compartilhar momentos de afeto é exercitar o gesto de ver o outro - um exercício que o ser humano corre o risco de esquecer, se não praticar. Os jovens e adultos que se dispõem a desbravar o lugar tido como inacessível, ou para frequência exclusiva de intelectuais e eruditos, descobrem que a Biblioteca Municipal é de todos nós.

O espaço físico é excelente, mas limita o alcance das muitas histórias que os livros contam. Porque as histórias são infinitas e os livros existem além das paredes e prateleiras, a Biblioteca Municipal passeia pela cidade em projetos de incentivo à leitura como “Biblioteca, um espaço de leitura”; “Bordando a nossa história”; “Hora do conto”;” Tardes de história”; “Narração Itinerante, um convite à pratica de leitura” e “Cine livro”, nos quais acontecem a contação de histórias e conversas sobre livros e literatura nas escolas e também a recepção de grupos escolares no pequeno espaço em um anexo aconchegante da Biblioteca Municipal.

Não é possível prever  a dimensão das transformações que acontecerão entre os cidadãos itapetininganos a partir da nova vida gerada com o aumento de visitas à biblioteca e a facilidade de acesso aos livros, mas podemos afirmar que estamos diante do princípio de grandes mudanças que beneficiarão a todos.

Se um país se faz com homens e livros e somos feitos das nossas histórias, a Biblioteca Municipal de Itapetininga tem nos dado uma das mais valiosas possibilidades para criarmos histórias mais bonitas e construirmos novas realidades a partir do que os livros, e a nossa relação com a Biblioteca, dizem sobre a história da cidade que é feita por nós.


A Biblioteca Municipal de Itapetininga, ou Biblioteca Dr. Júlio Prestes de Albuquerque , fica à Rua Campos Sales, número  175, e tem as portas abertas de segunda a sexta das 8 às 22 horas, e aos sábados das 9 às 12 horas.
Ela tem a fachada feita de colunas de cores que, postas  aos pares, foram dispostas como livros na estante. Você já foi até lá?



Publicado na edição Nº6 do Jornal Bem Estar - Itapetininga

28 de jul. de 2013

Dois livros: Afonso Cruz


Os comentários feitos pela Inês, que compartilha suas experiências de leitura e bom gosto literário no blogue OMG! She's a book reviewer!, e o ótimo título do livro Jesus Cristo Bebia Cerveja, despertaram em mim o desejo de conhecer este e outros livros escritos pelo Afonso Cruz.
Depois de muitas dúvidas, porque todos os livros do autor têm títulos e premissas atraentes, escolhi três livros para começar a aproximação -  infelizmente não é possível ler ou ter toda a bibliografia de uma só vez ou imergir nas obras de todos os autores que parecem interessantes.
A Boneca de Kokoschka será lido em agosto, mas os outros dois foram lentamente devorados e antropofagicamente se transformaram em parte do eu.


O Livro do Ano, que é um livro lindo, lindo, lindo (sim, três vezes lindo), foi escrito e ilustrado pelo autor. E, embora seja preto, com algumas páginas negras e capa dura, é um livro feito de luz, porque é leve. Nele, Afonso Cruz escreveu e desenhou a vida de uma menina perguntadeira, que volta os olhos curiosos para as relações humanas e para o mundo; que nos descreve, com breves frases poéticas, situações cotidianas e indagações.
O Livro do Ano é um daqueles livros que embonitam a estante, que são bons presentes para os que amamos e que, durante a leitura e as releituras, fazem ecoarem as dúvidas e acalantam o coração.


O Livro do Ano - Afonso Cruz - 144 páginas - Alfaguara Portugal





Durante a leitura das primeiras páginas de Jesus Cristo Bebia Cerveja percebi que tinha nas mãos um bom livro e senti que faria meus todos os elogios escritos pela Inês, mas estava enganada. O livro, que conta, entre outras histórias, a história de uma garota que vive com a avó adoecida que deseja conhecer a Terra Santa, é muito melhor do que eu ousaria imaginar.
Um dos personagens do livro me fez lembrar muito do Settembrini, de A Montanha Mágica, do Thomas Mann - que é um dos meus livros favoritos na vida - porque discursa em um tom semelhante e parece desejar ocupar um espaço parecido na trama. Não costumo me afeiçoar a personagens e, ainda que Settembrini seja um dos poucos pelos quais nutro afeto profundo, quase apego, não me senti inclinada a gostar mais de um personagem que dos outros porque muitos deles são igualmente surpreendentes, como são surpreendentes os caminhos e destinos das histórias contadas pelo autor.
Me senti angustiada, à beira das lágrimas, muitas vezes, durante a leitura; mas precisei conter o escândalo das gargalhadas três linhas depois. A criatividade do Afonso Cruz desconhece limites. Por isso, nas últimas páginas, já parecia natural encontrar palavras sobre religião, sobre a tristeza da morte e da decrepitude, sobre a nossa condição de abandono e um sermão sobre a importância das minhocas ou um avião de striptease, no mesmo livro.
Quando entrevistado, Afonso Cruz costuma responder sobre as muitas viagens que fez pelo mundo. Talvez a melhor das viagens aconteça no universo prodigioso que ele carrega consigo, e que, generosamente, transforma em livros que dão origem a outros mundos em nós.


Jesus Cristo Bebia Cerveja - Afonso Cruz - 248 páginas - Alfaguara Portugal