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12 de mar. de 2014
Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz
Quando adquiri o livro não esperava Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos ou Bernardo Soares; não esperava a densidade do poeta ou de algum dos seus heterônimos. Esperava, sim, um livro que tivesse pelo menos metade das páginas escritas por Fernando Pessoa. Um livro que fosse o que Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz não é.
Dos 185 documentos reunidos no volume, apenas 51 foram escritos pelo poeta; e são cartas muito curtas - se comparadas ao abundante e extenso palavrório da Ofélia, algumas delas não passam de pequenos bilhetes sem grande intensidade.
Enquanto Ofélia relata seus dias e escreve sobre os acontecimentos do trabalho, da casa e da família, Pessoa limita-se a respondê-la, quase sempre depois de repetidos pedidos de resposta. Pessoa às vezes escreve sobre seus planos literários, sobre a necessidade de produzir literatura, enquanto Ofélia faz inúmeras tentativas de seduzi-lo para o casamento e trazê-lo para a vida a dois. Ofélia vislumbra a morada para o casal e diz que se contentaria com os pequenos confortos de uma vida modesta, enquanto Pessoa planeja isolar-se do mundo para escrever. As cartas mostram uma Ofélia insistente, quase enfadonha, e um Pessoa sóbrio e racional que faz breves, mas deliciosas, incursões pela paixão e pelo desejo.
Ainda que Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz seja um livro diferente do que eu imaginava, foi divertido encontrar, mesmo que em pouquíssimas páginas, um Fernando Pessoa quase romântico, um grande poeta escrevendo como muitos outros (e)namorados, utilizando diminutivos, apelidos e uma linguagem comum a muitos outros pares.
Fui cativada pelo inesperado na leitura que a perseverança de Ofélia embalou. Não é sempre que encontramos um documento que retrate um grande poeta - se não o maior dos nossos poetas - encerrando um texto com tantos jinhos assim.
Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz - edição de Manuela Parreira da Silva - 368 páginas - Assírio & Alvim
30 de ago. de 2013
NOSSA SENHORA DO SILÊNCIO
Às vezes quando, abatido e humilde, a própria força de sonhar se me desfolha e se me seca, e o meu único sonho só pode ser o pensar nos meus sonhos, folhejo-os então, como a um livro que se folheia e se torna a folhear sem ter mais que palavras inevitáveis. É então que me interrogo sobre quem tu és, figura que atravessas todas as minhas visões demoradas de paisagens outras, e de interiores antigos e de cerimoniais faustosos de silêncio. Em todos os meus sonhos ou apareces, sonho, ou, realidade falsa, me acompanhas. Visito contigo regiões que são talvez sonhos teus, terras que são talvez corpos teus de ausência e desumanidade, o teu corpo essencial descontornado para planície calma e monte de perfil frio em jardim de palácio oculto. Talvez eu não tenha outro sonho senão tu, talvez seja nos teus olhos, encostando a minha face à tua, que eu lerei essas paisagens impossíveis, esses tédios falsos, esses sentimentos que habitam a sombra dos meus cansaços e as grutas dos meus desassossegos. Quem sabe se as paisagens dos meus sonhos não são o meu modo de não te sonhar? Eu não sei quem tu és, mas sei ao certo o que sou? Sei eu o que é sonhar para que saiba o que vale o chamar-te o meu sonho? Sei eu se não és uma parte, quem sabe se a parte essencial e real, de mim? E sei eu se não sou eu o sonho e tu a realidade, eu um sonho teu e não tu um Sonho que eu sonhe?
Que espécie de vida tens? Que modo de ver é o modo como te vejo? Teu perfil? Nunca é o mesmo, mas não muda nunca. E eu digo isto porque o sei, ainda que não saiba que o sei. Teu corpo? Nu é o mesmo que vestido, sentado está na mesma atitude do que quando deitado ou de pé. Que significa isto, que não significa nada?
s.d.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982. - 254.
"Fase decadentista", segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, Vol I. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986.
Às vezes quando, abatido e humilde, a própria força de sonhar se me desfolha e se me seca, e o meu único sonho só pode ser o pensar nos meus sonhos, folhejo-os então, como a um livro que se folheia e se torna a folhear sem ter mais que palavras inevitáveis. É então que me interrogo sobre quem tu és, figura que atravessas todas as minhas visões demoradas de paisagens outras, e de interiores antigos e de cerimoniais faustosos de silêncio. Em todos os meus sonhos ou apareces, sonho, ou, realidade falsa, me acompanhas. Visito contigo regiões que são talvez sonhos teus, terras que são talvez corpos teus de ausência e desumanidade, o teu corpo essencial descontornado para planície calma e monte de perfil frio em jardim de palácio oculto. Talvez eu não tenha outro sonho senão tu, talvez seja nos teus olhos, encostando a minha face à tua, que eu lerei essas paisagens impossíveis, esses tédios falsos, esses sentimentos que habitam a sombra dos meus cansaços e as grutas dos meus desassossegos. Quem sabe se as paisagens dos meus sonhos não são o meu modo de não te sonhar? Eu não sei quem tu és, mas sei ao certo o que sou? Sei eu o que é sonhar para que saiba o que vale o chamar-te o meu sonho? Sei eu se não és uma parte, quem sabe se a parte essencial e real, de mim? E sei eu se não sou eu o sonho e tu a realidade, eu um sonho teu e não tu um Sonho que eu sonhe?
Que espécie de vida tens? Que modo de ver é o modo como te vejo? Teu perfil? Nunca é o mesmo, mas não muda nunca. E eu digo isto porque o sei, ainda que não saiba que o sei. Teu corpo? Nu é o mesmo que vestido, sentado está na mesma atitude do que quando deitado ou de pé. Que significa isto, que não significa nada?
s.d.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982. - 254.
"Fase decadentista", segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, Vol I. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986.
4 de abr. de 2013
Sublinhamento
Em janeiro de 1922, Fernando Pessoa escreveu, no maravilhoso conto intitulado O Banqueiro Anarquista, que:
O mal verdadeiro, o único mal, são as convenções e as ficções sociais, que se sobrepõem às realidades naturais — tudo, desde a família ao dinheiro, desde a religião ao Estado. A gente nasce homem ou mulher — quero dizer, nasce para ser, em adulto, homem ou mulher; não nasce, em boa justiça natural, nem para ser marido, nem para ser rico ou pobre, como também não nasce para ser católico ou protestante, ou português ou inglês. E todas estas coisas em virtude das ficções sociais.
"A gente nasce homem ou mulher"
E agora, Simone de Beauvoir?
O mal verdadeiro, o único mal, são as convenções e as ficções sociais, que se sobrepõem às realidades naturais — tudo, desde a família ao dinheiro, desde a religião ao Estado. A gente nasce homem ou mulher — quero dizer, nasce para ser, em adulto, homem ou mulher; não nasce, em boa justiça natural, nem para ser marido, nem para ser rico ou pobre, como também não nasce para ser católico ou protestante, ou português ou inglês. E todas estas coisas em virtude das ficções sociais.
"A gente nasce homem ou mulher"
E agora, Simone de Beauvoir?
5 de jun. de 2012
Sublinhamento
Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida — umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.
Não é esse o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.
Do belíssimo Livro do Desassossego, por Bernardo Soares - Fernando Pessoa
Não é esse o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.
Do belíssimo Livro do Desassossego, por Bernardo Soares - Fernando Pessoa
2 de mar. de 2012
Marcadores
"O essencial da arte é exprimir; o que se exprime não interessa."
Fernando Pessoa
"O olho do homem serve de fotografia ao invisível, como o ouvido serve de eco ao silêncio."
Marchado de Assis
Recordações do templo dos livros, ou da hospedaria provisória, que é ponto de passagem e praça de encontro dos amores.
Fernando Pessoa
"O olho do homem serve de fotografia ao invisível, como o ouvido serve de eco ao silêncio."
Marchado de Assis
Recordações do templo dos livros, ou da hospedaria provisória, que é ponto de passagem e praça de encontro dos amores.
26 de mai. de 2010
Palavra de livro (sublinhamento)
Segue o teu destino,
Rega a tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos Deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
Ricardo Reis, 1-7-1916
Rega a tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos Deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
Ricardo Reis, 1-7-1916
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