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13 de mai. de 2015

Tête-à-Tête: Simone, Sartre e Instagram

Eu não senti raiva do Sartre. Talvez só uma raivinha, que passou rápido, quando me dei conta de que, por melhor escritora e pesquisadora que seja, e ainda que se mantenha fiel aos relatos dos fatos acontecidos, uma autora dificilmente é capaz de exprimir as emoções e sensações exatas de quem as viveu, principalmente quando os biografados não prestaram depoimentos diretos a quem escreve. Também não senti raiva do Sartre porque, embora respeite e me interesse pela produção artística e intelectual da Simone de Beauvoir, sempre olhei com alguma desconfiança o excesso de culto à pessoa que ela foi - ou que pareceu ser. Sim, pareceu ser. Lembro de ter pensado logo nas primeiras páginas do livro de-li-ci-o-so da Hazel Rowley que, se vivesse hoje, Simone  de Beauvoir usaria o Instagram. Dos lugares que frequentavam ao tipo de relações que estabeleceram entre si e com terceiros, quartos e quintos, passando por roupas, pequenos arroubos e escolhas mais ou menos polêmicas, tudo na vida do casal Beauvoir-Sartre pareceu cuidadosamente concebido para criar a aura que sobrevive relativamente intacta ao passar dos anos que os transformaram em ícones; às vezes, ou quase sempre, até mesmo em detrimento da arte e do pensamento que cada um deles produziu.
Tête-à-Tête aumentou ainda mais o meu desejo de tirar os dois volumes de O Segundo Sexo da estante para iniciar o desbravamento da obra da autora de quem conheço quase nada além da ficção; e também me deixou ainda mais desejosa do livro de cartas trocadas entre Simone e Nelson Algren. Seria a Simone de Nelson, a do final do relacionamento com Nelson, descrita por ele, a verdadeira Simone de Beauvoir? Podemos supor que existem verdadeiros nós e, portanto, existiu uma verdadeira Beauvoir?
Hazel Rowley escreveu uma história despida de deslumbrismos, retratando os intelectuais biografados como personagens cometedores de erros e acertos; sobreviventes e vivedores, como todos nós, de inseguranças, dúvidas e de incertezas.  A autora não teve medo de, apesar da admiração declarada, escrever sobre uma Simone que, como quase todos os seres humanos, sofreu, chorou e por vezes abdicou de si em favor de um relacionamento amoroso aparentemente fracassado ou não exatamente feliz.

Tête-à-Tête me encantou principalmente porque fez com que eu notasse os assemelhamentos entre nós e os biografados, que parecem ter vivido uma vida extraordinariamente próxima daquilo que denominamos real. A vida real que é como é, repleta de contrastes, com momentos monocromáticos, sem ajuste de luz ou saturação das cores. Escritos por Hazel Rowley, Beauvoir e Sartre - e o relacionamento entre eles - podem ser lidos repletos de imperfeições e distantes daquilo que consideramos ideal, sem filtro.


Tête-à-Tête - Hazel Rowley - 480 páginas - Editora Objetiva



Impressões de leitura publicadas originalmente no blogue Bastardas.

12 de mar. de 2014

Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz


Quando adquiri o livro não esperava Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos ou Bernardo Soares; não esperava a densidade do poeta ou de algum dos seus heterônimos. Esperava, sim, um livro que tivesse pelo menos metade das páginas escritas por Fernando Pessoa. Um livro que fosse o que Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz não é.
Dos 185 documentos reunidos no volume, apenas 51 foram escritos pelo poeta; e são cartas muito curtas - se comparadas ao abundante e extenso palavrório da Ofélia, algumas delas não passam de pequenos bilhetes sem grande intensidade.
Enquanto Ofélia relata seus dias e escreve sobre os acontecimentos do trabalho, da casa e da família, Pessoa limita-se a respondê-la, quase sempre depois de repetidos pedidos de resposta. Pessoa às vezes escreve sobre seus planos literários, sobre a necessidade de produzir literatura, enquanto Ofélia faz inúmeras tentativas de seduzi-lo para o casamento e trazê-lo para a vida a dois. Ofélia vislumbra a morada para o casal e diz que se contentaria com os pequenos confortos de uma vida modesta, enquanto Pessoa planeja isolar-se do mundo para escrever. As cartas mostram uma Ofélia insistente, quase enfadonha, e um Pessoa sóbrio e racional que faz breves, mas deliciosas, incursões pela paixão e pelo desejo.
Ainda que Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz seja um livro diferente do que eu imaginava, foi divertido encontrar, mesmo que em pouquíssimas páginas, um Fernando Pessoa quase romântico, um grande poeta escrevendo como muitos outros (e)namorados, utilizando diminutivos, apelidos e uma linguagem comum a muitos outros pares.


Fui cativada pelo inesperado na leitura que a perseverança de Ofélia embalou. Não é sempre que encontramos um documento que retrate um grande poeta - se não o maior dos nossos poetas -  encerrando um texto com tantos jinhos assim.


Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz - edição de Manuela Parreira da Silva - 368 páginas - Assírio & Alvim

11 de jul. de 2013

Dez bons conselhos de meu pai


Só muito recentemente, depois de muitos livros e amor pelo escritor, conheci os livros que o João Ubaldo Ribeiro "escreveu para crianças" - uso aspas porque estou entre as pessoas que não costumam classificar boa literatura segundo a faixa etária dos leitores para os quais supostamente se destinam os livros.
Hoje comecei o dia muito bem impressionada com a leitura de mais um livro do autor de Viva o Povo Brasileiro, que considero um dos grandes livros da minha vida. Dez bons conselhos de meu pai é, como mostra a imagem acima, um livro bonito. Dos livros bonitos todo mundo gosta, os livros bonitos todo mundo quer. E se o conteúdo dos livros bonitos for interessante, o passeio através das palavras será ainda mais prazeroso.
As notas das orelhas e da quarta capa contam um pouco sobre a infância do autor, sobre a vida do pai, Manuel Ribeiro, e sobre a relação entre eles, que foi marcada pela valorização da cultura e pela presença dos livros. As sentenças que determinam os dez bons conselhos enumerados começam todas com um enorme não: não seja burro, não seja amargo, não seja ignorante... mas a todas elas sobrevêm grandes sins feitos de pequenas frases que encorajam o aprendizado, a boa auto-estima, a auto-suficiência e a felicidade cultivada a partir do constante questionamento das nossas atitudes e dos gestos daqueles que nos rodeiam.
Sinto vontade de transcrever integralmente o texto do livro, porque ele merece ser lido. Não devo fazê-lo porque talvez a experiência seja empobrecida sem as ilustrações feitas pela Bruna Assis Brasil. E também porque, apesar de João Ubaldo supor que seu pai "não se incomodaria por eu passá-los (os conselhos) adiante, pois ele também tinha muita consciência política", penso que quem comercializa o livro - que merece todas as boas vendas - talvez não pense assim.


Dez bons conselhos de meu pai - João Ubaldo Ribeiro - 56 páginas - Editora Objetiva

10 de ago. de 2012

Biblioteca: encontros, reencontros e descobertas

O filho de mil homens

Eu ainda não conhecia nenhum outro livro do Valter Hugo Mãe - que acompanho via Facebook e Twitter - quando O filho de mil homens chegou às minhas mãos. Prestes a ler mais um livro do autor, posso dizer que ele é um forte candidato a se tornar um dos meus favoritos, daqueles que merecem ter toda a obra devorada sem parcimônia.
O filho de mil homens é apaixonante. Fui cativada pela escrita que é quase música e, durante a imersão na beleza do universo do livro, senti que gostaria de ser um pouco de cada um dos personagens que habitam suas páginas.
Terminei a leitura desejando observar mais, sonhar mais e fazer mais do que aquilo a que estou habituada - e desejando, é claro, novas viagens pelas delícias nem sempre doces, mas inevitavelmente humanas, do universo criado pelo autor.

O filho de mil homens - Valter Hugo Mãe - 256 páginas - Cosac Naify



Antes das Primeiras Estórias

Minha primeira experiência com Guimarães Rosa, que é referência para muitos dos autores que admiro, não foi das melhores. Li Sagarana na esteira ou na bicicleta da academia e tudo pareceu deslocado - tanto quanto eu me sinto deslocada com a música insuportável daquele lugar.
Quando escolhi Antes das Primeiras Estórias como segunda tentativa, não sabia da apresentação escrita pelo Mia Couto. Ótima surpresa; senti como se recebesse as boas vindas por insistir na aproximação.
O Guimarães Rosa de Antes das Primeiras Estórias parece bem diferente daquele que li em Sagarana e que encontro em excertos, mas ensina tanto quanto outros livros de autores já consagrados. Gostei de ler um autor ainda jovem, talvez imaturo, mas talentoso. Gostei de perceber que ele, antes de tornar-se quase unanimidade, fez outras tentativas, que não "engessou" a escrita, e que se propôs ao maravilhoso desafio de, criando, (se) transformar.

Antes das Primeiras Estórias - João Guimarães Rosa - 96 páginas - Nova Fronteira



Bonsai

Muitos falaram e escreveram sobre Bonsai, que li assim que foi lançado. Logo, penso que qualquer coisa que escreva sobre ele me condenará ao fundo poço infinito da repetição.
Gosto do formato do livro, que poderia ser um livrinho de bolso, se fosse aparado, como sugerem o pontilhado na capa e as marcas de corte no interior.
É uma estória de vidas, muito bem podada, precisa, ainda que aconteça também na infinitude das entrelinhas. É uma estória para ser lida toda de uma vez e para, observada a partir de outros pontos, ser constantemente descoberta a partir da releitura.

Bonsai - Alejandro Zambra - 64 páginas - Cosac Naify



Short Movies

Short Movies é, como sugere o título, composto por breves cenas deliciosamente descritas por Gonçalo M. Tavares, que continua sendo um dos meus grandes amores. Gosto das estórias que, neste livro, se dizem através das palavras, mas que propõem exercícios imaginativos, questionamentos de como e por que os personagens e situações chegaram até ali.
A edição feita pela Editorial Caminho é belíssima, com capa dura e sobrecapa ilustrada com fotos de uma bailarina que remete aos movimentos e figurino da minha amada Isadora Duncan.
Escrever é, também, fotografar instantes. Arte que, em Short Movies, Gonçalo M. Tavares realiza com poesia e perfeição.

Short Movies - Gonçalo M. Tavares - 160 páginas - Editorial Caminho



Caro Michele

Caro Michele é mais um livro da bela e ótima coleção Mulheres Modernistas, que, para minha alegria, parece não ter fim. Quando Caro Michele chegou às minhas mãos eu não sabia exatamente quais eram a forma e a temática do livro, além de não conhecer muito sobre a autora, Natalia Ginzburg.
Àquela altura eu escrevia, com um amigo, o esboço de um livro no qual a história aconteceria a partir da troca de cartas entre duas pessoas. Fiquei obviamente surpresa quando descobri que em Caro Michele os fatos se desenrolam exatamente assim, a partir da troca de correspondências entre pessoas que possuem laços familiares e afetivos, e que têm suas vidas e relações permeadas pelos acontecimentos da época, que foi marcada pela tentativa de um golpe de Estado na Itália e pela vitória do fascismo.
Ainda que o livro retrate um período difícil e existências dolorosas, a escrita de Natalia Ginzburg é deliciosa. Por conta do deslumbramento com a autora que ainda não conhecia, desisti do livro que não escrevi.

Caro Michele - Natalia Ginzburg - 192 páginas - Cosac Naify

27 de abr. de 2012

Sublinhamento


... E aquele
Que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado. Não será marcado. Nunca será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.


Excerto de ZONA HERMÉTICA, Manoel de Barros.

5 de fev. de 2012

Biblioteca: O Som e a Fúria


Demorei muitos meses para me convencer de que precisava ler Faulkner pela primeira vez, e alguns outros meses para decidir tirá-lo da estante. O primeiro incentivo veio do fato de o José Luis Peixoto, um dos meus autores favoritos, ser declaradamente fã da literatura do Faulkner (e o Peixoto é daqueles que, como eu, marca na pele as declarações de amor).
Pouco tempo depois, encontrei a edição maravilhosa da Cosac Naify, editora que tem meu amor eterno, - e nem me paga para escrever isso - pela metade do preço. Foi assim que o livro chegou até mim.
O Som e a Fúria foi um caso raro de paixão despertada mais por admiração que por identificação ou pertencimento.
Gosto do fato de o livro ter sido escrito durante um período de reclusão, após um fracasso do autor, e me interesso pela temática abordada. As infelicidades familiares, na literatura, me atraem; e as manifestações do racismo, hoje velado como se fosse moralmente inaceitável, são tão chocantes nos livros quanto na padaria ou na fila do banco.
As primeiras páginas não foram fáceis. A primeira parte do livro é constituída por diálogos que muitas vezes parecem ininteligíveis. A leitura das páginas narradas por Benjy, que sofre deficiência mental, foi de uma diculdade angustiante.
Superado o obstáculo, que posteriormente justifica-se necessário e desejado, agradeci, a cada virada de página, pela oportunidade de ter em mãos parte da obra um autor que - a despeito dos prêmios ou títulos que, muitas vezes, podem parecer assustadores - foi genial.
Ler O Som e a Fúria é, além de desfrute, uma aula. São muitos livros em um só. Muitos modos de escrever e de descrever. Um delicioso passeio por diferentes estilos e pontos de vista.
As estórias das personagens de O Som e a Fúria são tão tristes quanto a maior parte das relações humanas, se observadas com atenção. Sob o olhar de William Faulkner, a tristeza, neste livro, tornou-se bela.
Me apaixonei pelo autor, por isso quero (ler) mais.


O Som e a Fúria; William Faulkner - 336 páginas - Cosac Naify

11 de jan. de 2012

Biblioteca: O silêncio da água






O Silêncio da água foi um dos livros que veio até mim pessoalmente, sem o intermédio de nenhum amigo ou da Internet - que é quem mais me apresenta livros e autores. Eu estava encantada pela vitrine da minha livraria favorita quando ele apareceu sem que eu nem soubesse que existia.
Depois de vê-lo na livraria encontrei muitas críticas, também negativas, para o fato de ter sido publicado. Muitos vêem a publicação póstuma de um dos trechos de outro livro do Saramago como oportunismo. Eu vejo como oportunidade - não para a editora, mas para nós, leitores, e, principalmente, para as crianças, leitores em formação, que muito provavelmente desconhecem o autor.
Hoje um exemplar de O Silêncio da água veio morar na minha estante.
Foi ótimo reler esse excerto do belíssimo "As pequenas memórias", acompanhado pelas ilustrações-colagens de Manuel Estrada, dedicadas "A José, que fez a água falar.".
O livro é grande e bonito. Tem a capa dura. É atraente. Os livros precisam ser atraentes. As crianças precisam de livros que usem roupas de festa, para que se deixem seduzir.
O conto, simples, múltiplo e delicioso, como toda a prosa - e também a poesia - do autor, me tornou, durante alguns instantes da tarde chuvosa, companheira e cúmplice da criança que um dia viria a tornar-se um grande escritor.
Durante alguns minutos vivi e observei o rio, o trajeto, a casa dos avós, os questionamentos e devaneios do menino já fabulante, e o peixe que todos nós, leitores, gostaríamos de ter a sorte de pescar - ou que talvez tenhamos pescado a cada uma das palavras tão marcadas quanto o grande peixe, que imortalizam Saramago a partir de nós.


O Silêncio da água; José Saramago - ilustrações de Manuel Estrada - 24 páginas - Companhia das Letras

26 de nov. de 2011

A Erika

A Erika tem filhas, marido e uma barraca na feira - nas feiras, porque muitas feiras acontecem durante a semana, em diversos bairros da cidade.
Eu e a Erika nos vemos às terças e quintas, que são os dias em que a feira acontece perto da casa verde em que vivo feliz.
A família da Erika me distingue da minha irmã pelo sorriso. Todos eles, que trabalham juntos na barraca, sabem que eu falo [de]mais. A Erika tem muitas bolsas bonitas e caras, que comprou quando morou no Japão.
As frutas da Erika são as mais bonitas e cheirosas, são diferentes. Ela vende as maiores e mais saborosas alcachofras do mundo, mas só sob encomenda. Minha avó conhece o papaya da Erika com o olhar.
Ontem foi sexta-feira e a Erika trouxe à minha casa as frutas que não comprei na quinta. Em uma das sacolas, um bilhete:

Coloquei o inhame para você aproveitar e o pêssego e a manguinha é para você experimentar. Cortesia da casa.
Beijo

Erika

Obrigada
Deus abençoe


A Erika é morena e briga comigo, aos berros, quando vou à feira muito tarde ou quando desapareço. Ela tem longos cabelos negros e recentemente começou a usar esmaltes alegremente coloridos. Toma café às 8 e come pastéis da esquina ou pães da padaria que frequentei durante a infância. A Erika tem olhos doces e o sorriso largo. A Erika tem amor - e minha eterna admiração.




Quase acredito em um deus nas raras vezes em que a menção do pequeno nome acompanha a grandiosidade de um gesto.

18 de nov. de 2011

No mar de barcos sem flores, o céu dos céticos. Sobre o largo movimentar das ondas, imensidão.
Olhos do silêncio cego: a fuga e o afago. A força física e o vigor dos corpos que somos nós.
Nós.
Os piratas imberbes desconhecem a quaseternidade dos ossos. Ignoram o sussurrar inaudível que acalanta o coração.
Havia motivos de sobra para ficar. O calor da pele e o conforto das palavras. A leveza. A doçura e a surpresa simulada no não raro encontro com o olhar.
Havia sonhos únicos e palavras muitas. Alegria. Havia braços, pernas e mãos.
Percorreu os descaminhos com pés descalços; a passos firmes, despedidas breves.
Acariciou cada uma das paredes lentamente, como se as apreendesse com as palmas das mãos. Sorriu para o pé direto alto como se isso os assemelhasse em grandeza; como se o gesto possibilitasse a retenção da lembrança e o movimento fosse garantia de exatidão.
Dançou o espaço e perdeu-se no vento. Através das portas e janelas abertas, tornou-se ar.
Vaga dispersa e livre. Leva as chaves no bolso, mas não volta.
Entre a fugacidade dos sóis alheios, encontrou abrigo para o pulsar alegre da solidão.

6 de jul. de 2011

Biografia do Saramado, mais uma. Sagarana, do Guimarães Rosa; haverá um dia lindo e faremos amor quando meus neologismos finalmente encontrarem os seus. O Mal de Montano, Enrique Vila-Matas, que é sempre bom de ler; dizem que escreve para escritores, mas sinto que escreve para mim. Contos dos Irmãos Grimm, da Clarissa Pinkola Estés, sempre presente na cabeceira e na vida - a autora, não esse livro, que ainda não li, mas vi que tem um dos mais belos projetos gráficos e ilustrações. Aprendendo a Viver, da Clarice, que só quando comecei a ler descobri que é a republicação das melhores crônicas publicadas em A Descoberta do Mundo, que ganhei do meu pai, com dedicatória e tudo, e já li há séculos. Deve haver algum motivo para que os textos tenham voltado para mim. Descobrirei. Contra um Mundo Melhor, Luiz Felipe Pondé; conheci o autor em um café filosófico e gostei do título. A arte do livro é belíssima também. E, finalmente, a Viagem a Portugal; por ora, no livro do Saramago, que lerei aos poucos, com medo de acabar. Algumas das palavras que penetram na carne terminam na pele.
Férias escolares, primeiro dia.

26 de mai. de 2010

Palavra de livro (sublinhamento)

Segue o teu destino,
Rega a tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos Deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.



Ricardo Reis, 1-7-1916