Talvez não tenha José dito isto, mas escrevo-o eu agora: graças aos livros e às pessoas que eles contêm, podemos evitar a sensação de orfandade e solidão que tantas vezes nos espreita. Sabendo dos outros que foram, de um passado que por abrir um livro se torna presente, podemos reconhecer-nos a nós próprios, ao mesmo tempo que nos situamos numa comunidade de conhecimento que nos justifica e dignifica.
Excerto do Diário de Viagem de Pilar (del Río), no quarto volume dos Cadernos de Lanzarote, de José Saramago
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22 de jan. de 2014
10 de set. de 2013
Caminhámos sobre as águas
Caminhámos sobre as águas como os deuses,
E fomos deuses.
Todo o arco do céu as nossas mãos traçaram,
E os traços lá ficaram.
Olhamos hoje a obra, cansados arquitectos:
Não são os nossos tectos.
José Saramago, na página 71 do livro Provavelmente Alegria, publicado pela Editorial Caminho
Caminhámos sobre as águas como os deuses,
E fomos deuses.
Todo o arco do céu as nossas mãos traçaram,
E os traços lá ficaram.
Olhamos hoje a obra, cansados arquitectos:
Não são os nossos tectos.
José Saramago, na página 71 do livro Provavelmente Alegria, publicado pela Editorial Caminho
20 de jul. de 2013
Sublinhamento
O poeta, à medida que avança, apaga os rastos que foi deixando, cria atrás de si, entre os dois horizontes, um deserto, razão por que o leitor terá de traçar e abrir, no terreno assim alisado, uma rota sua, pessoal, que no entanto jamais coincidirá, jamais se justaporá à do poeta, única e finalmente indevassável.
José Saramago, Cadernos de Lanzarote - Diário II
José Saramago, Cadernos de Lanzarote - Diário II
30 de nov. de 2012
Novembro
Uma das grandes alegrias foi ver um textículo escrito por mim publicado na página 55 da revista Blimunda #6, celebrando os 90 anos do José Saramago.
A revista está disponível online, aqui.
13 de set. de 2012
Saramado
Adoraria escrever um discurso longuíssimo, mas há sensações que as palavras não dão conta de abrigar. Sobra afeto. Faltam braços.
Sinto como se deixasse um bilhete acanhado à porta daquele por quem nutro admiração.
Algumas palavras minhas na homenagem "90 anos, 90 palavras", no sítio da Fundação José Saramago, aqui.
Sinto como se deixasse um bilhete acanhado à porta daquele por quem nutro admiração.
Algumas palavras minhas na homenagem "90 anos, 90 palavras", no sítio da Fundação José Saramago, aqui.
31 de mai. de 2012
Livros!
Sinais do mar
Foi um dos livros que desejei desde o lançamento, mas demorei para adquirir - e ainda vivi com ele essa história bonitinha.
Durante a infância, Ana Maria Machado era uma das minhas escritoras favoritas, uma das que mais levava para a casa quando frequentava as bibliotecas dos colégios em que estudei.
Sinais do mar, o primeiro livro de poemas da autora, foi publicado graças ao incentivo da Ruth Rocha, de quem a Ana Maria Machado é amiga - e que também foi uma das minhas primeiras autoras favoritas.
Li os poemas de Sinais do mar em voz alta, num fim de tarde chuvoso, e senti a poesia reverberando pela casa. Ana Maria Machado construiu areia, ondas, siris, barcos e revoadas com as palavras bem postas que não só remetem a imagens e lembranças mas, como acredito que deve ser em tudo o que é poesia, provocam sensações.
Gostei de ter pisado as praias para as quais sei que posso voltar.
Sinais do mar; Ana Maria Machado - 56 páginas - Cosac Naify
Quantas madrugadas tem a noite
Eu nunca estive em Luanda. Talvez passe a vida toda sem poder dizer que estive em solo angolano e, no entanto, posso dizer que tenho amigos que nasceram e viveram lá.
Quantas madrugadas tem a noite foi meu primeiro encontro com a prosa do Ondjaki, de quem, até então, só conhecia os poemas pelos quais me apaixonei com imensa facilidade.
O livro narra o encontro da estória do AdolfoDido - que, entre uma cerveja e outra, acaba por embriagar-nos entre as palavras sem que saibamos precisar quando e como aconteceu - com muitas outras estórias (ou histórias?) de muitas outras gentes maravilhosamente interesantes.
Em algumas páginas de Quantas madrugadas tem a noite me senti observadora de um universo fantástico que pareceria irreal se a poesia não o tivesse tornado deliciosamente humano. Foi nas passagens em que me senti próxima ao AdolfoDido, que narra os acontecidos e os desacontecimentos, que mais me emocionei. Em alguns momentos me senti como o terceiro elemento, mudo, à mesa, com ouvidos atentos e olhares apurados. Também pude sentir como se AdolfoDido tivesse a minha voz, como se compartilhássemos as dores de desexistir e o deslumbramento ante a beleza encontrada no improvável, porque a sensibilidade permite enxergar além da grandiosidade do óbvio.
Terminei a leitura de Quantas madrugadas tem a noite aos prantos, em lágrimas que misturavam saudade e gratidão.
Não é sempre que nos encontramos em um espelho que parece distante do olhar - porque é dentro.
Quantas madrugadas tem a noite; Ondjaki - 203 páginas - Editorial Caminho
A Autobiografia de Alice B. Toklas
Li A Autobiografia de Alice B. Toklas porque, além de ter gostado muitíssimo de Três Vidas, também escrito pela Gertrude Stein, faz parte da coleção Mulheres Modernistas - que é linda e constantemente ampliada, para desespero e felicidade dos leitores-colecionadores, entre os quais me incluo.
O posfácio, escrito pelo Silviano Santiago, seguido por algumas páginas de sugestões de leitura, me fizeram desejar ler ainda mais do que Gertrude Stein escreveu e também muito do que foi escrito sobre ela.
Fala-se muito sobre o convívio de Gertrude Stein e Alice com os artistas que viviam em Paris, assim como sobre a relação supostamente (?) homossexual que havia entre entre elas. As descrições dos encontros com personalidades como Picasso e de todas as excentricidades daqueles artistas importantes para a época, que frequentavam a casa de Gertrude Stein, são sempre repletas de observações que as tornam ainda mais interessantes. Ainda assim, não considero que as aventuras parisienses sejam o melhor do livro.
A Autobiografia de Alice B. Toklas - que, na verdade, é quase uma autobiografia da Gertrude Stein - retrata um período de guerra, em que Getrude e Alice decidem tornarem-se úteis aos militares, que transportavam entre uma cidade e outra, em um carro dirigido por Gertrude, no qual levavam também notícias, mantimentos e conforto às famílias daqueles que se ausentavam em função dos combates.
A Autobiografia de Alice B. Toklas é também um livro sobre a coragem e as frustrações da escritora, sobre História, arte e estórias de uma Paris que permanece iluminada e luminosa nas páginas que a trazem até nós.
A Autobiografia de Alice B. Toklas; Gertrude Stein - 288 páginas - Cosac Naify
Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo
Fiz a leitura de Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo durante a semana em que revia, em vídeo, alguns dos meus espetáculos favoritos do grupo fundado pelos irmãos Pederneiras.
Foi a primeira vez que estudei teoria e prática simultaneamente e isso serviu para reafirmar a minha convicção de que dançar é utilizar o gesto para expressar o pensamento - por incrível que possa parecer, não são todos os que dançam que pensam assim.
Nem todos os ensaios que compõem o livro foram escritos por pessoas que vivem (d)a dança. Não é o primeiro livro organizado pela Inês Bogéa que reúne textos de autores considerados leigos em dança; a multiplicidade de olhares torna o livro ainda mais interessante, polifônico.
A história do Grupo Corpo, já contada em outros livros, é um exemplo para aqueles que, como eu, vivem (d)a dança. Ler Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo foi uma ótima oportunidade para refletir sobre os caminhos a partir de novos olhares. Talvez tenha sido, como todo livro que considero "de trabalho", mais um daqueles livros que alteram, ainda que minimamente, meu modo de caminhar.
Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo; org. Inês Bogéa - 224 páginas - Cosac Naify
Canções Mexicanas
Em três dias da mesma semana, li e reli Canções Mexicanas, do Gonçalo M. Tavares. Em cada uma das leituras, encontrei um livro diferente. Talvez tenha sido efeito do Mezcal que, sem que soubesse, compartilhei com o narrador.
Em princípio não encontrei nele muitas similaridades com os outros livros escritos pelo Gonçalo M. Tavares. Quem conhece sua escrita sabe que cada frase pode multiplicar-se por uma infinidade de significados e ganhar novas formas a partir de nossas reflexões. Em Canções Mexicanas a multiplicação de significados e as tranformações acontecem de um modo menos explícito, mas acontecem.
Muito do que, em Canções Mexicanas, é descrito como fruto de uma imaginação alterada pelo efeito do álcool, assemelha-se com as vivências assombrosas que compartilhamos. A sociedade e os seres humanos são assustadores - e talvez o Gonçalo M. Tavares de Canções Mexicanas não seja tão diferente assim...
Canções Mexicanas; Gonçalo M. Tavares - 96 páginas - Relógio D'Água
O menino que mordeu Picasso
Não sei exatamente o que esperava de O menino que mordeu Picasso mas, durante a leitura, o livro pareceu menos do que esperei.
A edição é muito bonita, com ilustrações belíssimas e muitas fotografias, mas tive a impressão de que o livro serve mais à memória - ou ao ego - do Antony Penrose que ao prazer de contar uma história.
Talvez O menino que mordeu Picasso sirva como ponto de partida para semear entre as crianças o desejo pelo conhecimento da arte, pela obra de um artista. Talvez o livro cumpra, assim, um dos objetivos da leitura, que é enxergar o outro - ainda que o outro seja apenas um senhor que viveu próximo a um artista considerado brilhante; um senhor a quem, muito provavelmente por conta da pouca idade, o artista não pôde iluminar.
O menino que mordeu Picasso; Antony Penrose - 48 páginas - Cosac Naify
Claraboia
Há alguns livros do Saramago, por quem sou apaixonada, de que gosto menos. Por isso, mesmo tendo adquirido Clarabóia - com acento - assim que foi lançado, esperei alguns meses até encontrá-lo. E que surpresa maravilhosa Saramago nos deixou!
Vendido como "o livro perdido de José Saramago" (porque sensacionalismo vende e, independente dele, Saramago merece ser ainda mais lido), Clarabóia foi escrito quando o autor tinha menos de trinta anos.
Mesmo permeado por estórias de modos de viver que podem ser considerados subversivos, Clarabóia não é um livro explicitamente político, como outros do autor. Embora pareça diferente dos outros livros do Saramado, é possível ouvir, em cada uma das linhas, ecos do autor que, muito tempo depois de Clarabóia ter sido ignorado por uma editora, viria a receber o prêmio Nobel de literatura.
Clarabóia não é um livro sobre cegueira, sobre a morte da morte, sobre o sistema falho ou sobre religião. É um livro sobre a vida. Estórias de pessoas que vivem em um mesmo edifício ou que têm relações com aqueles que vivem ali. Clarabóia é um livro sobre pessoas vivendo. Um livro sobre pessoas através das quais aprendemos o outro, que só existirá, de fato, se nos dispusermos a observar.
Claraboia; José Saramago - 384 páginas - Companhia das Letras
Foi um dos livros que desejei desde o lançamento, mas demorei para adquirir - e ainda vivi com ele essa história bonitinha.Durante a infância, Ana Maria Machado era uma das minhas escritoras favoritas, uma das que mais levava para a casa quando frequentava as bibliotecas dos colégios em que estudei.
Sinais do mar, o primeiro livro de poemas da autora, foi publicado graças ao incentivo da Ruth Rocha, de quem a Ana Maria Machado é amiga - e que também foi uma das minhas primeiras autoras favoritas.
Li os poemas de Sinais do mar em voz alta, num fim de tarde chuvoso, e senti a poesia reverberando pela casa. Ana Maria Machado construiu areia, ondas, siris, barcos e revoadas com as palavras bem postas que não só remetem a imagens e lembranças mas, como acredito que deve ser em tudo o que é poesia, provocam sensações.
Gostei de ter pisado as praias para as quais sei que posso voltar.
Sinais do mar; Ana Maria Machado - 56 páginas - Cosac Naify
Quantas madrugadas tem a noite
Eu nunca estive em Luanda. Talvez passe a vida toda sem poder dizer que estive em solo angolano e, no entanto, posso dizer que tenho amigos que nasceram e viveram lá.Quantas madrugadas tem a noite foi meu primeiro encontro com a prosa do Ondjaki, de quem, até então, só conhecia os poemas pelos quais me apaixonei com imensa facilidade.
O livro narra o encontro da estória do AdolfoDido - que, entre uma cerveja e outra, acaba por embriagar-nos entre as palavras sem que saibamos precisar quando e como aconteceu - com muitas outras estórias (ou histórias?) de muitas outras gentes maravilhosamente interesantes.
Em algumas páginas de Quantas madrugadas tem a noite me senti observadora de um universo fantástico que pareceria irreal se a poesia não o tivesse tornado deliciosamente humano. Foi nas passagens em que me senti próxima ao AdolfoDido, que narra os acontecidos e os desacontecimentos, que mais me emocionei. Em alguns momentos me senti como o terceiro elemento, mudo, à mesa, com ouvidos atentos e olhares apurados. Também pude sentir como se AdolfoDido tivesse a minha voz, como se compartilhássemos as dores de desexistir e o deslumbramento ante a beleza encontrada no improvável, porque a sensibilidade permite enxergar além da grandiosidade do óbvio.
Terminei a leitura de Quantas madrugadas tem a noite aos prantos, em lágrimas que misturavam saudade e gratidão.
Não é sempre que nos encontramos em um espelho que parece distante do olhar - porque é dentro.
Quantas madrugadas tem a noite; Ondjaki - 203 páginas - Editorial Caminho
A Autobiografia de Alice B. Toklas
Li A Autobiografia de Alice B. Toklas porque, além de ter gostado muitíssimo de Três Vidas, também escrito pela Gertrude Stein, faz parte da coleção Mulheres Modernistas - que é linda e constantemente ampliada, para desespero e felicidade dos leitores-colecionadores, entre os quais me incluo.O posfácio, escrito pelo Silviano Santiago, seguido por algumas páginas de sugestões de leitura, me fizeram desejar ler ainda mais do que Gertrude Stein escreveu e também muito do que foi escrito sobre ela.
Fala-se muito sobre o convívio de Gertrude Stein e Alice com os artistas que viviam em Paris, assim como sobre a relação supostamente (?) homossexual que havia entre entre elas. As descrições dos encontros com personalidades como Picasso e de todas as excentricidades daqueles artistas importantes para a época, que frequentavam a casa de Gertrude Stein, são sempre repletas de observações que as tornam ainda mais interessantes. Ainda assim, não considero que as aventuras parisienses sejam o melhor do livro.
A Autobiografia de Alice B. Toklas - que, na verdade, é quase uma autobiografia da Gertrude Stein - retrata um período de guerra, em que Getrude e Alice decidem tornarem-se úteis aos militares, que transportavam entre uma cidade e outra, em um carro dirigido por Gertrude, no qual levavam também notícias, mantimentos e conforto às famílias daqueles que se ausentavam em função dos combates.
A Autobiografia de Alice B. Toklas é também um livro sobre a coragem e as frustrações da escritora, sobre História, arte e estórias de uma Paris que permanece iluminada e luminosa nas páginas que a trazem até nós.
A Autobiografia de Alice B. Toklas; Gertrude Stein - 288 páginas - Cosac Naify
Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo
Fiz a leitura de Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo durante a semana em que revia, em vídeo, alguns dos meus espetáculos favoritos do grupo fundado pelos irmãos Pederneiras. Foi a primeira vez que estudei teoria e prática simultaneamente e isso serviu para reafirmar a minha convicção de que dançar é utilizar o gesto para expressar o pensamento - por incrível que possa parecer, não são todos os que dançam que pensam assim.
Nem todos os ensaios que compõem o livro foram escritos por pessoas que vivem (d)a dança. Não é o primeiro livro organizado pela Inês Bogéa que reúne textos de autores considerados leigos em dança; a multiplicidade de olhares torna o livro ainda mais interessante, polifônico.
A história do Grupo Corpo, já contada em outros livros, é um exemplo para aqueles que, como eu, vivem (d)a dança. Ler Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo foi uma ótima oportunidade para refletir sobre os caminhos a partir de novos olhares. Talvez tenha sido, como todo livro que considero "de trabalho", mais um daqueles livros que alteram, ainda que minimamente, meu modo de caminhar.
Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo; org. Inês Bogéa - 224 páginas - Cosac Naify
Canções Mexicanas
Em três dias da mesma semana, li e reli Canções Mexicanas, do Gonçalo M. Tavares. Em cada uma das leituras, encontrei um livro diferente. Talvez tenha sido efeito do Mezcal que, sem que soubesse, compartilhei com o narrador.Em princípio não encontrei nele muitas similaridades com os outros livros escritos pelo Gonçalo M. Tavares. Quem conhece sua escrita sabe que cada frase pode multiplicar-se por uma infinidade de significados e ganhar novas formas a partir de nossas reflexões. Em Canções Mexicanas a multiplicação de significados e as tranformações acontecem de um modo menos explícito, mas acontecem.
Muito do que, em Canções Mexicanas, é descrito como fruto de uma imaginação alterada pelo efeito do álcool, assemelha-se com as vivências assombrosas que compartilhamos. A sociedade e os seres humanos são assustadores - e talvez o Gonçalo M. Tavares de Canções Mexicanas não seja tão diferente assim...
Canções Mexicanas; Gonçalo M. Tavares - 96 páginas - Relógio D'Água
O menino que mordeu Picasso
Não sei exatamente o que esperava de O menino que mordeu Picasso mas, durante a leitura, o livro pareceu menos do que esperei.A edição é muito bonita, com ilustrações belíssimas e muitas fotografias, mas tive a impressão de que o livro serve mais à memória - ou ao ego - do Antony Penrose que ao prazer de contar uma história.
Talvez O menino que mordeu Picasso sirva como ponto de partida para semear entre as crianças o desejo pelo conhecimento da arte, pela obra de um artista. Talvez o livro cumpra, assim, um dos objetivos da leitura, que é enxergar o outro - ainda que o outro seja apenas um senhor que viveu próximo a um artista considerado brilhante; um senhor a quem, muito provavelmente por conta da pouca idade, o artista não pôde iluminar.
O menino que mordeu Picasso; Antony Penrose - 48 páginas - Cosac Naify
Claraboia
Há alguns livros do Saramago, por quem sou apaixonada, de que gosto menos. Por isso, mesmo tendo adquirido Clarabóia - com acento - assim que foi lançado, esperei alguns meses até encontrá-lo. E que surpresa maravilhosa Saramago nos deixou!Vendido como "o livro perdido de José Saramago" (porque sensacionalismo vende e, independente dele, Saramago merece ser ainda mais lido), Clarabóia foi escrito quando o autor tinha menos de trinta anos.
Mesmo permeado por estórias de modos de viver que podem ser considerados subversivos, Clarabóia não é um livro explicitamente político, como outros do autor. Embora pareça diferente dos outros livros do Saramado, é possível ouvir, em cada uma das linhas, ecos do autor que, muito tempo depois de Clarabóia ter sido ignorado por uma editora, viria a receber o prêmio Nobel de literatura.
Clarabóia não é um livro sobre cegueira, sobre a morte da morte, sobre o sistema falho ou sobre religião. É um livro sobre a vida. Estórias de pessoas que vivem em um mesmo edifício ou que têm relações com aqueles que vivem ali. Clarabóia é um livro sobre pessoas vivendo. Um livro sobre pessoas através das quais aprendemos o outro, que só existirá, de fato, se nos dispusermos a observar.
Claraboia; José Saramago - 384 páginas - Companhia das Letras
11 de mar. de 2012
Biblioteca: declarações de amor
Assim Falou Zaratustra
Faz mais de dez anos que encontrei Nietzsche pela primeira vez, a partir de Zaratustra. Entre a primeira leitura, de uma edição publicada por uma editora reconhecida pelas péssimas traduções, e o presente reencontro (através da minha amada Cia. das Letras), há uma infinidade de transformações.
Se durante a primeira leitura mal comprrendi a caminhada que faz de Zaratustra o Zaratustra, a releitura serviu para, além de compreender a história, reafirmar o que percebi na primeira leitura, praticamente toda limitada a excertos citáveis, capazes de estimular a reflexão.
Nietzsche me ensinou a pensar a dança. Através de Zaratustra, já na primeira leitura, passei a perceber a dança não só como prática diária e profissão, mas também como metáfora para absolutamente todos os acontecimentos vividos. Viver é dançar. Existir é movimentar-se e dedicar dias e noites ao deus bailarino.
Deus está morto. Eu danço.
Assim Falou Zaratustra; Friedrich Nietzsche - 360 páginas - Companhia das Letras
Saramago - Biografia
Antes de começar a ler o Saramago visitado por João Marques Lopes li uma crítica - negativa - ao livro, em um site dedicado a resenhas. Confesso que isso me desanimou no passeio pelas primeiras páginas que, como dizia a crítica, pareciam enfadonhas.
Fiquei feliz em constatar que o escritor da resenha - como eu, no princípio - estava incrivelmente equivocado em relação ao livro.
Aos poucos a leitura se torna prazerosa, repleta de histórias e impregnada pela História acontecida durante o período em que Saramago viveu. É como se a cronobiografia dedicada ao autor (José Saramago: a consistência dos sonhos, escrita por Frenando Goméz Aguilera), que foi uma das muitas fontes de pesquisa do João Marques Lopes, tivesse sido amplificada através das palavras.
Em Saramago estão, além das história de vida do grande autor, suas inspirações e aspirações, com destaque para os períodos de concepção dos livros que viríamos a amar.
É certo que muitas outras biografias e estudos virão, mas Saramago: Biografia cumpre, com louvor e beleza, seu papel.
Saramago - Biografia; João Marques Lopes - 248 páginas - Leya
Memórias inventadas para crianças
Ganhei o livro pouco depois de ter visto o belíssimo documentário Só dez por cento é mentira, dedicado a Manoel de Barros. Foi como se Memórias Inventadas Para Crianças tivesse sido escrito com a intenção de transpor para as páginas toda a poesia transbordante que permeia o filme, e a vida, do autor.
Memórias inventadas para crianças, como outros livros do Manoel de Barros, tem ilustrações feitas por Martha Barros, sua filha. É um livro-vida. Um livro-família. Um livro-abraço. Um delicioso passeio em prosa em companhia do menino que tem olhar-poeta.
Minha avó também leu. Como eu, terminou apaixonada.
Memórias inventadas para crianças; Manoel de Barros - 24 páginas - Planeta Jovem
Raiz de Orvalho e outros poemas
Mia Couto diz ter hesitado até aceitar a republicação do livro Raiz de Orvalho e outros poemas, argumentando que já não se vê em parte daquilo que nele está escrito.
Embora pareça diferente dos outros livros de poemas do autor, Raiz de Orvalho está impregnado por imagens e metáforas que Mia Couto evoca ao escrever em prosa.
Tenho a impressão de que, independente da forma em que seja moldada a escrita, o mundo observado por Mia Couto será todo e sempre poesia.
Amém.
Raiz de Orvalho e outros poemas; Mia Couto - 234 páginas - Caminho
Memorial do Convento
Apesar de ser um dos livros mais famosos do José Saramago, Memorial do Convento está entre os últimos lidos por mim.
No livro que conta a história de Baltazar e Blimunda estão também um pouco da história das relações humanas, das instituições e práticas religiosas e também de monumentos e acontecimentos históricos de Portugal.
Baltazar, que tem a força que muitas vezes nos falta, é persistente, idealista, quase ingênuo, mas também amante apaixonado e companheiro de Blimunda, mulher fiel e inteligente, sensível, poderosa e quase inacreditavelmente forte.
Memorial do Convento é um pouco da história de cada um de nós. Dos ideais humanos e absurdos da humanidade. Do mundo abundante em guerras silenciosas. Da civilização individualista e pouco inteligente que, em busca de falsas grandiosidades, insiste em ruir.
Memorial do Convento; José Saramago - 352 páginas - Bertrand Brasil
Faz mais de dez anos que encontrei Nietzsche pela primeira vez, a partir de Zaratustra. Entre a primeira leitura, de uma edição publicada por uma editora reconhecida pelas péssimas traduções, e o presente reencontro (através da minha amada Cia. das Letras), há uma infinidade de transformações.Se durante a primeira leitura mal comprrendi a caminhada que faz de Zaratustra o Zaratustra, a releitura serviu para, além de compreender a história, reafirmar o que percebi na primeira leitura, praticamente toda limitada a excertos citáveis, capazes de estimular a reflexão.
Nietzsche me ensinou a pensar a dança. Através de Zaratustra, já na primeira leitura, passei a perceber a dança não só como prática diária e profissão, mas também como metáfora para absolutamente todos os acontecimentos vividos. Viver é dançar. Existir é movimentar-se e dedicar dias e noites ao deus bailarino.
Deus está morto. Eu danço.
Assim Falou Zaratustra; Friedrich Nietzsche - 360 páginas - Companhia das Letras
Saramago - Biografia
Antes de começar a ler o Saramago visitado por João Marques Lopes li uma crítica - negativa - ao livro, em um site dedicado a resenhas. Confesso que isso me desanimou no passeio pelas primeiras páginas que, como dizia a crítica, pareciam enfadonhas. Fiquei feliz em constatar que o escritor da resenha - como eu, no princípio - estava incrivelmente equivocado em relação ao livro.
Aos poucos a leitura se torna prazerosa, repleta de histórias e impregnada pela História acontecida durante o período em que Saramago viveu. É como se a cronobiografia dedicada ao autor (José Saramago: a consistência dos sonhos, escrita por Frenando Goméz Aguilera), que foi uma das muitas fontes de pesquisa do João Marques Lopes, tivesse sido amplificada através das palavras.
Em Saramago estão, além das história de vida do grande autor, suas inspirações e aspirações, com destaque para os períodos de concepção dos livros que viríamos a amar.
É certo que muitas outras biografias e estudos virão, mas Saramago: Biografia cumpre, com louvor e beleza, seu papel.
Saramago - Biografia; João Marques Lopes - 248 páginas - Leya
Memórias inventadas para crianças
Ganhei o livro pouco depois de ter visto o belíssimo documentário Só dez por cento é mentira, dedicado a Manoel de Barros. Foi como se Memórias Inventadas Para Crianças tivesse sido escrito com a intenção de transpor para as páginas toda a poesia transbordante que permeia o filme, e a vida, do autor.Memórias inventadas para crianças, como outros livros do Manoel de Barros, tem ilustrações feitas por Martha Barros, sua filha. É um livro-vida. Um livro-família. Um livro-abraço. Um delicioso passeio em prosa em companhia do menino que tem olhar-poeta.
Minha avó também leu. Como eu, terminou apaixonada.
Memórias inventadas para crianças; Manoel de Barros - 24 páginas - Planeta Jovem
Raiz de Orvalho e outros poemas
Mia Couto diz ter hesitado até aceitar a republicação do livro Raiz de Orvalho e outros poemas, argumentando que já não se vê em parte daquilo que nele está escrito.Embora pareça diferente dos outros livros de poemas do autor, Raiz de Orvalho está impregnado por imagens e metáforas que Mia Couto evoca ao escrever em prosa.
Tenho a impressão de que, independente da forma em que seja moldada a escrita, o mundo observado por Mia Couto será todo e sempre poesia.
Amém.
Raiz de Orvalho e outros poemas; Mia Couto - 234 páginas - Caminho
Memorial do Convento
Apesar de ser um dos livros mais famosos do José Saramago, Memorial do Convento está entre os últimos lidos por mim.No livro que conta a história de Baltazar e Blimunda estão também um pouco da história das relações humanas, das instituições e práticas religiosas e também de monumentos e acontecimentos históricos de Portugal.
Baltazar, que tem a força que muitas vezes nos falta, é persistente, idealista, quase ingênuo, mas também amante apaixonado e companheiro de Blimunda, mulher fiel e inteligente, sensível, poderosa e quase inacreditavelmente forte.
Memorial do Convento é um pouco da história de cada um de nós. Dos ideais humanos e absurdos da humanidade. Do mundo abundante em guerras silenciosas. Da civilização individualista e pouco inteligente que, em busca de falsas grandiosidades, insiste em ruir.
Memorial do Convento; José Saramago - 352 páginas - Bertrand Brasil
11 de jan. de 2012
Biblioteca: O silêncio da água

O Silêncio da água foi um dos livros que veio até mim pessoalmente, sem o intermédio de nenhum amigo ou da Internet - que é quem mais me apresenta livros e autores. Eu estava encantada pela vitrine da minha livraria favorita quando ele apareceu sem que eu nem soubesse que existia.
Depois de vê-lo na livraria encontrei muitas críticas, também negativas, para o fato de ter sido publicado. Muitos vêem a publicação póstuma de um dos trechos de outro livro do Saramago como oportunismo. Eu vejo como oportunidade - não para a editora, mas para nós, leitores, e, principalmente, para as crianças, leitores em formação, que muito provavelmente desconhecem o autor.
Hoje um exemplar de O Silêncio da água veio morar na minha estante.
Foi ótimo reler esse excerto do belíssimo "As pequenas memórias", acompanhado pelas ilustrações-colagens de Manuel Estrada, dedicadas "A José, que fez a água falar.".
O livro é grande e bonito. Tem a capa dura. É atraente. Os livros precisam ser atraentes. As crianças precisam de livros que usem roupas de festa, para que se deixem seduzir.
O conto, simples, múltiplo e delicioso, como toda a prosa - e também a poesia - do autor, me tornou, durante alguns instantes da tarde chuvosa, companheira e cúmplice da criança que um dia viria a tornar-se um grande escritor.
Durante alguns minutos vivi e observei o rio, o trajeto, a casa dos avós, os questionamentos e devaneios do menino já fabulante, e o peixe que todos nós, leitores, gostaríamos de ter a sorte de pescar - ou que talvez tenhamos pescado a cada uma das palavras tão marcadas quanto o grande peixe, que imortalizam Saramago a partir de nós.
O Silêncio da água; José Saramago - ilustrações de Manuel Estrada - 24 páginas - Companhia das Letras
6 de jul. de 2011
Biografia do Saramado, mais uma. Sagarana, do Guimarães Rosa; haverá um dia lindo e faremos amor quando meus neologismos finalmente encontrarem os seus. O Mal de Montano, Enrique Vila-Matas, que é sempre bom de ler; dizem que escreve para escritores, mas sinto que escreve para mim. Contos dos Irmãos Grimm, da Clarissa Pinkola Estés, sempre presente na cabeceira e na vida - a autora, não esse livro, que ainda não li, mas vi que tem um dos mais belos projetos gráficos e ilustrações. Aprendendo a Viver, da Clarice, que só quando comecei a ler descobri que é a republicação das melhores crônicas publicadas em A Descoberta do Mundo, que ganhei do meu pai, com dedicatória e tudo, e já li há séculos. Deve haver algum motivo para que os textos tenham voltado para mim. Descobrirei. Contra um Mundo Melhor, Luiz Felipe Pondé; conheci o autor em um café filosófico e gostei do título. A arte do livro é belíssima também. E, finalmente, a Viagem a Portugal; por ora, no livro do Saramago, que lerei aos poucos, com medo de acabar. Algumas das palavras que penetram na carne terminam na pele.
Férias escolares, primeiro dia.
Férias escolares, primeiro dia.
18 de jun. de 2010
Primeira Impressão
Escrito por mim e publicado no meu antigo blog, Rango na Madrugada, em 29 de novembro de 2005, logo depois do primeiro contato com um dos livros daquele com quem descobri um novo amar.
VÍRGULA
Ele fala vírgula Ela responde vírgula Surge então um pensamento dele vírgula O narrador interrompe vírgula ambos dão início à ação vírgula Ele fala novamente vírgula Ela pensa em falar, mas não fala vírgula O narrador conclui a frase ponto final
Assim, em meio às vírgulas que separam diálogos, idéias, pensamentos e atos, me vejo imersa pela primeira vez no universo de Saramago. A Língua Portuguesa de Portugal é encantadora, a narrativa é genial, mas a ousadia das vírgulas me encantou. Elas imprimem ritmo ao texto, aguçam minha curiosidade, tornam a leitura instigante e a viagem ainda mais prazerosa.
A vírgula, encantador elemento sintático que poucos sabem usar e muitos acreditam ser uma simples indicação de pausa, pode mudar o sentido de uma frase, de uma oração, de toda uma narrativa. Por muitos é usada com parcimônia, mas baila com inteligência e sabedoria pelo livro Ensaio Sobre a Cegueira, de Saramago.
A vírgula enfatiza, prepara, ameniza, separa. E talvez agora exprima a distância que existe entre mim e você, que está a ler este breve devaneio; apenas uma vírgula.
Entre tantos outros marcos, parte significativa da minha vida pode ser dividida em antes e depois dele.
Obrigada, José Saramago.
VÍRGULA
Ele fala vírgula Ela responde vírgula Surge então um pensamento dele vírgula O narrador interrompe vírgula ambos dão início à ação vírgula Ele fala novamente vírgula Ela pensa em falar, mas não fala vírgula O narrador conclui a frase ponto final
Assim, em meio às vírgulas que separam diálogos, idéias, pensamentos e atos, me vejo imersa pela primeira vez no universo de Saramago. A Língua Portuguesa de Portugal é encantadora, a narrativa é genial, mas a ousadia das vírgulas me encantou. Elas imprimem ritmo ao texto, aguçam minha curiosidade, tornam a leitura instigante e a viagem ainda mais prazerosa.
A vírgula, encantador elemento sintático que poucos sabem usar e muitos acreditam ser uma simples indicação de pausa, pode mudar o sentido de uma frase, de uma oração, de toda uma narrativa. Por muitos é usada com parcimônia, mas baila com inteligência e sabedoria pelo livro Ensaio Sobre a Cegueira, de Saramago.
A vírgula enfatiza, prepara, ameniza, separa. E talvez agora exprima a distância que existe entre mim e você, que está a ler este breve devaneio; apenas uma vírgula.
Entre tantos outros marcos, parte significativa da minha vida pode ser dividida em antes e depois dele.
Obrigada, José Saramago.
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