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11 de mar. de 2012

Biblioteca: declarações de amor

Assim Falou Zaratustra

Faz mais de dez anos que encontrei Nietzsche pela primeira vez, a partir de Zaratustra. Entre a primeira leitura, de uma edição publicada por uma editora reconhecida pelas péssimas traduções, e o presente reencontro (através da minha amada Cia. das Letras), há uma infinidade de transformações.
Se durante a primeira leitura mal comprrendi a caminhada que faz de Zaratustra o Zaratustra, a releitura serviu para, além de compreender a história, reafirmar o que percebi na primeira leitura, praticamente toda limitada a excertos citáveis, capazes de estimular a reflexão.
Nietzsche me ensinou a pensar a dança. Através de Zaratustra, já na primeira leitura, passei a perceber a dança não só como prática diária e profissão, mas também como metáfora para absolutamente todos os acontecimentos vividos. Viver é dançar. Existir é movimentar-se e dedicar dias e noites ao deus bailarino.
Deus está morto. Eu danço.

Assim Falou Zaratustra; Friedrich Nietzsche - 360 páginas - Companhia das Letras


Saramago - Biografia

Antes de começar a ler o Saramago visitado por João Marques Lopes li uma crítica - negativa - ao livro, em um site dedicado a resenhas. Confesso que isso me desanimou no passeio pelas primeiras páginas que, como dizia a crítica, pareciam enfadonhas.
Fiquei feliz em constatar que o escritor da resenha - como eu, no princípio - estava incrivelmente equivocado em relação ao livro.
Aos poucos a leitura se torna prazerosa, repleta de histórias e impregnada pela História acontecida durante o período em que Saramago viveu. É como se a cronobiografia dedicada ao autor (José Saramago: a consistência dos sonhos, escrita por Frenando Goméz Aguilera), que foi uma das muitas fontes de pesquisa do João Marques Lopes, tivesse sido amplificada através das palavras.
Em Saramago estão, além das história de vida do grande autor, suas inspirações e aspirações, com destaque para os períodos de concepção dos livros que viríamos a amar.
É certo que muitas outras biografias e estudos virão, mas Saramago: Biografia cumpre, com louvor e beleza, seu papel.

Saramago - Biografia; João Marques Lopes - 248 páginas - Leya


Memórias inventadas para crianças

Ganhei o livro pouco depois de ter visto o belíssimo documentário Só dez por cento é mentira, dedicado a Manoel de Barros. Foi como se Memórias Inventadas Para Crianças tivesse sido escrito com a intenção de transpor para as páginas toda a poesia transbordante que permeia o filme, e a vida, do autor.
Memórias inventadas para crianças, como outros livros do Manoel de Barros, tem ilustrações feitas por Martha Barros, sua filha. É um livro-vida. Um livro-família. Um livro-abraço. Um delicioso passeio em prosa em companhia do menino que tem olhar-poeta.
Minha avó também leu. Como eu, terminou apaixonada.

Memórias inventadas para crianças; Manoel de Barros - 24 páginas - Planeta Jovem


Raiz de Orvalho e outros poemas

Mia Couto diz ter hesitado até aceitar a republicação do livro Raiz de Orvalho e outros poemas, argumentando que já não se vê em parte daquilo que nele está escrito.
Embora pareça diferente dos outros livros de poemas do autor, Raiz de Orvalho está impregnado por imagens e metáforas que Mia Couto evoca ao escrever em prosa.
Tenho a impressão de que, independente da forma em que seja moldada a escrita, o mundo observado por Mia Couto será todo e sempre poesia.
Amém.

Raiz de Orvalho e outros poemas; Mia Couto - 234 páginas - Caminho


Memorial do Convento


Apesar de ser um dos livros mais famosos do José Saramago, Memorial do Convento está entre os últimos lidos por mim.
No livro que conta a história de Baltazar e Blimunda estão também um pouco da história das relações humanas, das instituições e práticas religiosas e também de monumentos e acontecimentos históricos de Portugal.
Baltazar, que tem a força que muitas vezes nos falta, é persistente, idealista, quase ingênuo, mas também amante apaixonado e companheiro de Blimunda, mulher fiel e inteligente, sensível, poderosa e quase inacreditavelmente forte.
Memorial do Convento é um pouco da história de cada um de nós. Dos ideais humanos e absurdos da humanidade. Do mundo abundante em guerras silenciosas. Da civilização individualista e pouco inteligente que, em busca de falsas grandiosidades, insiste em ruir.

Memorial do Convento; José Saramago - 352 páginas - Bertrand Brasil

7 de fev. de 2010

Biblioteca: Janeiro de 2010

Aviso:
Os textos que seguem não têm a pretensão de serem críticas ou resenhas. São apenas impressões de quem está habituada a declarar (des)amor aos livros.



Cal, que é um livro que reúne contos, poemas e uma peça, foi meu primeiro contato com a literatura produzida por José Luís Peixoto. Gosto de quem gosta das palavras; por isso, já nas primeiras páginas, sabia que terminaria o livro apaixonada.
Tanto a poesia quanto a prosa, que é também poética, de José Luís, encantam pela simplicidade. O autor brinca com as palavras e com o tempo, exigindo, assim, a atenção do leitor. Não é difícil mantermo-nos atentos aos temas deliciosamente humanos abordados por José Luís - cada um dos textos, mesmo os mais curtos, abre-se diante de nós como um infinito de possibilidades e recordações.
Tudo indica que José Luís Peixoto seja um daqueles cada vez mais raros autores capazes de tocar-nos a alma, ou a essência. É inevitável pensar que em cada uma daquelas linhas também nós vivemos, que todas as histórias têm, inevitavelmente, um pouco de nós.
Um bom espelho, que mostre, além da realidade, parte do passado, é muito - senão tudo - do que podemos esperar de um bom autor.

Cal; José Luís Peixoto - 264 páginas - Bertrand Portugal



O Livro da Dança é um livro de poemas escritos por Gonçalo M. Tavares, autor de quem serei eterna admiradora; que escreveu também o livro de poemas “ 1”, onde está o “Livro dos Ossos”, que é uma série de poemas que me levaram às lágrimas durante a primeira leitura e que me emociona a cada reencontro. Por isso encontrei o livro sabendo que a poesia de Gonçalo M. Tavares, como a de todos os bons poetas, não perde a validade.
Um amigo havia dito que o Livro da Dança é, talvez, o livro mais hermético escrito pelo autor. Depois de ter lido o livro, não só discordo como acredito que seja precisamente o contrário.
Para as pessoas que não dançam, que não vivem a dança como profissão e não têm ou terão a experiência de se expressarem pelo movimento e/ou sobre o palco, o livro trata, sim, da metáfora dos movimentos da vida, da dança da existência através da qual podemos esconder-nos e selecionar o que queremos transmitir ou revelar. Já aqueles que, como eu, vivem a dança, da dança e para a dança, deveriam firmar consigo o compromisso de, vez por outra, retornar a cada um dos poemas para encontrar neles as muitas razões pelas quais escolhemos a arte – ou a arte nos escolheu.
O Livro da Dança poderia ser também o Livro do Corpo ou do Movimento, porque o autor compreende-os – corpo e movimento – como poucos. Ler os poemas que o compõem é pensar a vida em movimento e o corpo como centro e propagador de sensações. Gonçalo M. Tavares faz poesia para ser posta em prática, para reverberar.
Vale dizer que a edição brasileira do Livro da Dança é belíssima e (ainda bem!) preserva a ortografia portuguesa. Livro com sotaque é sempre mais interessante.

Livro da Dança; Gonçalo M. Tavares - 120 páginas - Editora da Casa



O Fio das Missangas é Mia Couto em doses homeopáticas e, embora não tenha sido o modo pelo qual encontrei o autor, talvez seja uma boa maneira de conhecê-lo.
Os contos curtos que o compõem são, todos eles, incrivelmente mágicos e, apesar de aparentemente leves, densos, como os romances escritos por Mia Couto. É impossível não nos envolvermos com o universo e com a cultura que, embora pareçam distantes, estão também arraigados no imaginário e na história de boa parte do povo brasileiro.
As missangas do fio são todas de afeto, de família, da delicadeza das relações humanas... de todos os temas e situações que nos são caros. São pedaços de existências intensas e efêmeras, mas não por isso menos valorosas ou menos poéticas. São pequenas histórias grandiosas - como, se assim o quisermos, pode ser a vida de todos nós.

O Fio das Missangas; Mia Couto - 148 páginas - Editorial Caminho (mas há também uma edição brasileira, pela Cia. das Letras)



A Perna Esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil é Gonçalo M. Tavares em seu estado mais puro – e caótico. Esqueça o que diz a apresentação do livro encontrada em sites ou os trechos, disponibilizados como resenha, que fazem parecer que a paixão é o tema central do livro. O livro trata, sobretudo, das convergências e divergências entre a ordem e o caos, da linguagem com que expressamos nossos afetos, e de como refletimos nossas relações com o outro e com o mundo.
A primeira parte do livro conta, sim, sobre uma paixão, mas desdobra-se em reflexões que, se à primeira vista, parecem obscuras, não chegam a tornarem-se claras, mas ampliam-se e desdobram-se em “tópicos” na segunda parte do livro, que, a princípio, intriga pela forma. Roland Barthes e Robert Musil são escritos (descritos?) não como uma narrativa, mas em pequenos tópicos inseridos em tabelas que inevitavelmente dialogam com a primeira parte do livro.
A Perna Esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil é um livro para ser lido em três ou quatro horas, mas precisaria de outra vida para digeri-lo ou compreender metade do seu significado. Terminei-o desejando conhecer Roland Barthes e Robert Musil, que sob a ótica de Gonçalo M. Tavares parecem mesmo interessantíssimos. Começarei por Barthes, com quem imagino que terei mais afinidades, mas “O Homem sem Qualidades”, de Musil, já está na lista dos livros pelos quais desejo ser alcançada.

A Perna Esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil; Gonçalo M. Tavares - 172 páginas - Relógio d'Água



É uma pena, mas o livro Dança Universal, assinado por Sérgio Rodrigo Reis, é um dos piores livros que li em toda a minha vida.
A edição da Imprensa Oficial torna o pequeno livro muito atraente. As muitas fotos que ilustram algumas páginas são bonitas, mas a escrita não convence.
Conheço a história do Grupo Corpo e por isso posso afirmar: o livro poderia ser interessante – mas não é. Falta inspiração.
Tive a impressão de estar lendo anotações escritas às pressas para serem transformadas em emoção ao serem transferidas para um diário que não existe. Em princípio, pensei que poderia se rabugice, ou o hábito de ler as biografias tão bem escritas pelo Ruy Castro, mas não era. A escrita do livro é mal cuidada, tem erros grotescos de revisão, como um capítulo intitulado “Porque (sic.) Minas?”.
Se a intenção da Coleção Aplauso é documentar a arte brasileira, penso que deveria fazê-lo por meio de uma escrita atraente, para que também a arte fosse engrandecida e valorizada a partir de tais documentos. O Grupo Corpo e a bibliografia da dança mereciam um retrato melhor executado – ou que, pelo menos, não os fizessem parecer menores.

Dança Universal - Rodrigo Pederneiras e o Grupo Corpo; Sérgio Rodrigo Reis - 212 páginas - Imprensa Oficial