Guardamos os segredos ao lado de tudo o que não dizemos. Nesse grande sótão escuro há de tudo, há aquilo que não dizemos porque temos medo, porque temos vergonha, porque não somos capazes; há aquilo que não dizemos porque desconhecemos, ignoramos mesmo, apesar de estar lá, em nós. Os segredos não são assim. Eles estão lá, podemos visitá-los, assistir a eles, sabemos as palavras exactas para dizê-los e, muitas vezes, temos tanta vontade de contá-los. Mas escolhemos não o fazer.
...
Também os segredos são aquilo que somos. Quando os seguramos, quando somos mais fortes e os contemos, alastram-se em nós.
Do José Luís Peixoto, no livro Dentro do Segredo.
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18 de fev. de 2013
25 de jul. de 2012
Biblioteca: José Luís Peixoto, eu e a minha avó
Escolhi dois livros do José Luís Peixoto porque vivi, durante a leitura de ambos, experiências semelhantes, provocadoras de reações diversas.
Abraço, como o nome sugere, é um livro confortável, composto por crônicas que contam histórias deliciosas, que nos aproximam do autor. A Mãe Que Chovia, apesar de ser um livro infantil, conta uma estória inquietante - de uma inquietude grandiosa e boa, mas ainda assim inquieta para as crianças experimentadas, como eu.
Li boa parte do Abraço em voz alta, para a minha avó, que tem 81 anos e que, apesar de gostar de estórias e histórias (e de ter sido a primeira fabuladora da minha vida, durante as noites de férias, na minha infância), conquistou, com o passar do tempo, pelo vento que vincou a pele luminosa, o direito à preguiça de ler.
Durante leitura das crônicas em que José Luís Peixoto relata as experiências da infância e da juventude, vi brilharem os olhos azuis mais bonitos e curiosos de que tenho notícia. Foi maravilhoso descobrir que, apesar de muitos anos e um oceano de distância entre eles, minha avó tem recordações de vivências muito parecidas com as do autor que admiro. Interrompemos muitos parágrafos para compartilhar nossas histórias, relembrar momentos do passado recente e trocar impressões sobre o nosso tempo, que é sempre o presente, o agora - na nossa família todo tempo é hoje.
Entre as crônicas do Abraço, acompanhadas por sorrisos intermináveis que exprimiam o indizível, pudemos "reler" muitas histórias que nos transformaram em quem somos, que são parte de nós. A partir da leitura, das palavras que ecoaram pelo quarto e pela sala, Abraço tornou-se parte da nossa riquíssima biblioteca - vidoteca? ou memorioteca? - afetiva e familiar.
A Mãe Que Chovia, como o título sugere, conta a estória de um filho da chuva. Repeti a contação de estória para a minha avó, compartilhando também as bonitas ilustrações do Daniel Silvestre da Silva, no livro que é todo poesia.
Senti em A Mãe Que Chovia uma imensa força do feminino, que me é tão caro. A grandiosidade do amor materno, a ausência da mãe (porque já vivi mais da metade da minha existência com esse buraco de mãe, que é para sempre) e o poder do sentimento que nos uniu.
Interrompi a leitura muitas vezes, às lágrimas. Durante as últimas páginas, éramos três mulheres - eu, a minha avó e minha mãe, a filha dela - ainda mais filhas, ainda mais mulheres, ainda mais "mães" e muito mais fortes, porque nos sabemos cultivadoras do que nos permite, sendo muitas, sermos também uma, que é a soma de todas nós.
Abraço - José Luís Peixoto - 680 páginas - Quetzal Editores
A Mãe Que Chovia - José Luís Peixoto - 64 páginas - Quetzal Editores
Abraço, como o nome sugere, é um livro confortável, composto por crônicas que contam histórias deliciosas, que nos aproximam do autor. A Mãe Que Chovia, apesar de ser um livro infantil, conta uma estória inquietante - de uma inquietude grandiosa e boa, mas ainda assim inquieta para as crianças experimentadas, como eu.
Li boa parte do Abraço em voz alta, para a minha avó, que tem 81 anos e que, apesar de gostar de estórias e histórias (e de ter sido a primeira fabuladora da minha vida, durante as noites de férias, na minha infância), conquistou, com o passar do tempo, pelo vento que vincou a pele luminosa, o direito à preguiça de ler.Durante leitura das crônicas em que José Luís Peixoto relata as experiências da infância e da juventude, vi brilharem os olhos azuis mais bonitos e curiosos de que tenho notícia. Foi maravilhoso descobrir que, apesar de muitos anos e um oceano de distância entre eles, minha avó tem recordações de vivências muito parecidas com as do autor que admiro. Interrompemos muitos parágrafos para compartilhar nossas histórias, relembrar momentos do passado recente e trocar impressões sobre o nosso tempo, que é sempre o presente, o agora - na nossa família todo tempo é hoje.
Entre as crônicas do Abraço, acompanhadas por sorrisos intermináveis que exprimiam o indizível, pudemos "reler" muitas histórias que nos transformaram em quem somos, que são parte de nós. A partir da leitura, das palavras que ecoaram pelo quarto e pela sala, Abraço tornou-se parte da nossa riquíssima biblioteca - vidoteca? ou memorioteca? - afetiva e familiar.
A Mãe Que Chovia, como o título sugere, conta a estória de um filho da chuva. Repeti a contação de estória para a minha avó, compartilhando também as bonitas ilustrações do Daniel Silvestre da Silva, no livro que é todo poesia. Senti em A Mãe Que Chovia uma imensa força do feminino, que me é tão caro. A grandiosidade do amor materno, a ausência da mãe (porque já vivi mais da metade da minha existência com esse buraco de mãe, que é para sempre) e o poder do sentimento que nos uniu.
Interrompi a leitura muitas vezes, às lágrimas. Durante as últimas páginas, éramos três mulheres - eu, a minha avó e minha mãe, a filha dela - ainda mais filhas, ainda mais mulheres, ainda mais "mães" e muito mais fortes, porque nos sabemos cultivadoras do que nos permite, sendo muitas, sermos também uma, que é a soma de todas nós.
Abraço - José Luís Peixoto - 680 páginas - Quetzal Editores
A Mãe Que Chovia - José Luís Peixoto - 64 páginas - Quetzal Editores
5 de fev. de 2012
Biblioteca: O Som e a Fúria
Demorei muitos meses para me convencer de que precisava ler Faulkner pela primeira vez, e alguns outros meses para decidir tirá-lo da estante. O primeiro incentivo veio do fato de o José Luis Peixoto, um dos meus autores favoritos, ser declaradamente fã da literatura do Faulkner (e o Peixoto é daqueles que, como eu, marca na pele as declarações de amor).
Pouco tempo depois, encontrei a edição maravilhosa da Cosac Naify, editora que tem meu amor eterno, - e nem me paga para escrever isso - pela metade do preço. Foi assim que o livro chegou até mim.
O Som e a Fúria foi um caso raro de paixão despertada mais por admiração que por identificação ou pertencimento.
Gosto do fato de o livro ter sido escrito durante um período de reclusão, após um fracasso do autor, e me interesso pela temática abordada. As infelicidades familiares, na literatura, me atraem; e as manifestações do racismo, hoje velado como se fosse moralmente inaceitável, são tão chocantes nos livros quanto na padaria ou na fila do banco.
As primeiras páginas não foram fáceis. A primeira parte do livro é constituída por diálogos que muitas vezes parecem ininteligíveis. A leitura das páginas narradas por Benjy, que sofre deficiência mental, foi de uma diculdade angustiante.
Superado o obstáculo, que posteriormente justifica-se necessário e desejado, agradeci, a cada virada de página, pela oportunidade de ter em mãos parte da obra um autor que - a despeito dos prêmios ou títulos que, muitas vezes, podem parecer assustadores - foi genial.
Ler O Som e a Fúria é, além de desfrute, uma aula. São muitos livros em um só. Muitos modos de escrever e de descrever. Um delicioso passeio por diferentes estilos e pontos de vista.
As estórias das personagens de O Som e a Fúria são tão tristes quanto a maior parte das relações humanas, se observadas com atenção. Sob o olhar de William Faulkner, a tristeza, neste livro, tornou-se bela.
Me apaixonei pelo autor, por isso quero (ler) mais.
O Som e a Fúria; William Faulkner - 336 páginas - Cosac Naify
7 de fev. de 2010
Biblioteca: Janeiro de 2010
Aviso:
Os textos que seguem não têm a pretensão de serem críticas ou resenhas. São apenas impressões de quem está habituada a declarar (des)amor aos livros.
Cal, que é um livro que reúne contos, poemas e uma peça, foi meu primeiro contato com a literatura produzida por José Luís Peixoto. Gosto de quem gosta das palavras; por isso, já nas primeiras páginas, sabia que terminaria o livro apaixonada.
Tanto a poesia quanto a prosa, que é também poética, de José Luís, encantam pela simplicidade. O autor brinca com as palavras e com o tempo, exigindo, assim, a atenção do leitor. Não é difícil mantermo-nos atentos aos temas deliciosamente humanos abordados por José Luís - cada um dos textos, mesmo os mais curtos, abre-se diante de nós como um infinito de possibilidades e recordações.
Tudo indica que José Luís Peixoto seja um daqueles cada vez mais raros autores capazes de tocar-nos a alma, ou a essência. É inevitável pensar que em cada uma daquelas linhas também nós vivemos, que todas as histórias têm, inevitavelmente, um pouco de nós.
Um bom espelho, que mostre, além da realidade, parte do passado, é muito - senão tudo - do que podemos esperar de um bom autor.
Cal; José Luís Peixoto - 264 páginas - Bertrand Portugal
O Livro da Dança é um livro de poemas escritos por Gonçalo M. Tavares, autor de quem serei eterna admiradora; que escreveu também o livro de poemas “ 1”, onde está o “Livro dos Ossos”, que é uma série de poemas que me levaram às lágrimas durante a primeira leitura e que me emociona a cada reencontro. Por isso encontrei o livro sabendo que a poesia de Gonçalo M. Tavares, como a de todos os bons poetas, não perde a validade.
Um amigo havia dito que o Livro da Dança é, talvez, o livro mais hermético escrito pelo autor. Depois de ter lido o livro, não só discordo como acredito que seja precisamente o contrário.
Para as pessoas que não dançam, que não vivem a dança como profissão e não têm ou terão a experiência de se expressarem pelo movimento e/ou sobre o palco, o livro trata, sim, da metáfora dos movimentos da vida, da dança da existência através da qual podemos esconder-nos e selecionar o que queremos transmitir ou revelar. Já aqueles que, como eu, vivem a dança, da dança e para a dança, deveriam firmar consigo o compromisso de, vez por outra, retornar a cada um dos poemas para encontrar neles as muitas razões pelas quais escolhemos a arte – ou a arte nos escolheu.
O Livro da Dança poderia ser também o Livro do Corpo ou do Movimento, porque o autor compreende-os – corpo e movimento – como poucos. Ler os poemas que o compõem é pensar a vida em movimento e o corpo como centro e propagador de sensações. Gonçalo M. Tavares faz poesia para ser posta em prática, para reverberar.
Vale dizer que a edição brasileira do Livro da Dança é belíssima e (ainda bem!) preserva a ortografia portuguesa. Livro com sotaque é sempre mais interessante.
Livro da Dança; Gonçalo M. Tavares - 120 páginas - Editora da Casa
O Fio das Missangas é Mia Couto em doses homeopáticas e, embora não tenha sido o modo pelo qual encontrei o autor, talvez seja uma boa maneira de conhecê-lo.
Os contos curtos que o compõem são, todos eles, incrivelmente mágicos e, apesar de aparentemente leves, densos, como os romances escritos por Mia Couto. É impossível não nos envolvermos com o universo e com a cultura que, embora pareçam distantes, estão também arraigados no imaginário e na história de boa parte do povo brasileiro.
As missangas do fio são todas de afeto, de família, da delicadeza das relações humanas... de todos os temas e situações que nos são caros. São pedaços de existências intensas e efêmeras, mas não por isso menos valorosas ou menos poéticas. São pequenas histórias grandiosas - como, se assim o quisermos, pode ser a vida de todos nós.
O Fio das Missangas; Mia Couto - 148 páginas - Editorial Caminho (mas há também uma edição brasileira, pela Cia. das Letras)
A Perna Esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil é Gonçalo M. Tavares em seu estado mais puro – e caótico. Esqueça o que diz a apresentação do livro encontrada em sites ou os trechos, disponibilizados como resenha, que fazem parecer que a paixão é o tema central do livro. O livro trata, sobretudo, das convergências e divergências entre a ordem e o caos, da linguagem com que expressamos nossos afetos, e de como refletimos nossas relações com o outro e com o mundo.
A primeira parte do livro conta, sim, sobre uma paixão, mas desdobra-se em reflexões que, se à primeira vista, parecem obscuras, não chegam a tornarem-se claras, mas ampliam-se e desdobram-se em “tópicos” na segunda parte do livro, que, a princípio, intriga pela forma. Roland Barthes e Robert Musil são escritos (descritos?) não como uma narrativa, mas em pequenos tópicos inseridos em tabelas que inevitavelmente dialogam com a primeira parte do livro.
A Perna Esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil é um livro para ser lido em três ou quatro horas, mas precisaria de outra vida para digeri-lo ou compreender metade do seu significado. Terminei-o desejando conhecer Roland Barthes e Robert Musil, que sob a ótica de Gonçalo M. Tavares parecem mesmo interessantíssimos. Começarei por Barthes, com quem imagino que terei mais afinidades, mas “O Homem sem Qualidades”, de Musil, já está na lista dos livros pelos quais desejo ser alcançada.
A Perna Esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil; Gonçalo M. Tavares - 172 páginas - Relógio d'Água
É uma pena, mas o livro Dança Universal, assinado por Sérgio Rodrigo Reis, é um dos piores livros que li em toda a minha vida.
A edição da Imprensa Oficial torna o pequeno livro muito atraente. As muitas fotos que ilustram algumas páginas são bonitas, mas a escrita não convence.
Conheço a história do Grupo Corpo e por isso posso afirmar: o livro poderia ser interessante – mas não é. Falta inspiração.
Tive a impressão de estar lendo anotações escritas às pressas para serem transformadas em emoção ao serem transferidas para um diário que não existe. Em princípio, pensei que poderia se rabugice, ou o hábito de ler as biografias tão bem escritas pelo Ruy Castro, mas não era. A escrita do livro é mal cuidada, tem erros grotescos de revisão, como um capítulo intitulado “Porque (sic.) Minas?”.
Se a intenção da Coleção Aplauso é documentar a arte brasileira, penso que deveria fazê-lo por meio de uma escrita atraente, para que também a arte fosse engrandecida e valorizada a partir de tais documentos. O Grupo Corpo e a bibliografia da dança mereciam um retrato melhor executado – ou que, pelo menos, não os fizessem parecer menores.
Dança Universal - Rodrigo Pederneiras e o Grupo Corpo; Sérgio Rodrigo Reis - 212 páginas - Imprensa Oficial
Os textos que seguem não têm a pretensão de serem críticas ou resenhas. São apenas impressões de quem está habituada a declarar (des)amor aos livros.
Cal, que é um livro que reúne contos, poemas e uma peça, foi meu primeiro contato com a literatura produzida por José Luís Peixoto. Gosto de quem gosta das palavras; por isso, já nas primeiras páginas, sabia que terminaria o livro apaixonada. Tanto a poesia quanto a prosa, que é também poética, de José Luís, encantam pela simplicidade. O autor brinca com as palavras e com o tempo, exigindo, assim, a atenção do leitor. Não é difícil mantermo-nos atentos aos temas deliciosamente humanos abordados por José Luís - cada um dos textos, mesmo os mais curtos, abre-se diante de nós como um infinito de possibilidades e recordações.
Tudo indica que José Luís Peixoto seja um daqueles cada vez mais raros autores capazes de tocar-nos a alma, ou a essência. É inevitável pensar que em cada uma daquelas linhas também nós vivemos, que todas as histórias têm, inevitavelmente, um pouco de nós.
Um bom espelho, que mostre, além da realidade, parte do passado, é muito - senão tudo - do que podemos esperar de um bom autor.
Cal; José Luís Peixoto - 264 páginas - Bertrand Portugal
O Livro da Dança é um livro de poemas escritos por Gonçalo M. Tavares, autor de quem serei eterna admiradora; que escreveu também o livro de poemas “ 1”, onde está o “Livro dos Ossos”, que é uma série de poemas que me levaram às lágrimas durante a primeira leitura e que me emociona a cada reencontro. Por isso encontrei o livro sabendo que a poesia de Gonçalo M. Tavares, como a de todos os bons poetas, não perde a validade.
Um amigo havia dito que o Livro da Dança é, talvez, o livro mais hermético escrito pelo autor. Depois de ter lido o livro, não só discordo como acredito que seja precisamente o contrário.
Para as pessoas que não dançam, que não vivem a dança como profissão e não têm ou terão a experiência de se expressarem pelo movimento e/ou sobre o palco, o livro trata, sim, da metáfora dos movimentos da vida, da dança da existência através da qual podemos esconder-nos e selecionar o que queremos transmitir ou revelar. Já aqueles que, como eu, vivem a dança, da dança e para a dança, deveriam firmar consigo o compromisso de, vez por outra, retornar a cada um dos poemas para encontrar neles as muitas razões pelas quais escolhemos a arte – ou a arte nos escolheu.
O Livro da Dança poderia ser também o Livro do Corpo ou do Movimento, porque o autor compreende-os – corpo e movimento – como poucos. Ler os poemas que o compõem é pensar a vida em movimento e o corpo como centro e propagador de sensações. Gonçalo M. Tavares faz poesia para ser posta em prática, para reverberar.
Vale dizer que a edição brasileira do Livro da Dança é belíssima e (ainda bem!) preserva a ortografia portuguesa. Livro com sotaque é sempre mais interessante.
Livro da Dança; Gonçalo M. Tavares - 120 páginas - Editora da Casa
O Fio das Missangas é Mia Couto em doses homeopáticas e, embora não tenha sido o modo pelo qual encontrei o autor, talvez seja uma boa maneira de conhecê-lo.Os contos curtos que o compõem são, todos eles, incrivelmente mágicos e, apesar de aparentemente leves, densos, como os romances escritos por Mia Couto. É impossível não nos envolvermos com o universo e com a cultura que, embora pareçam distantes, estão também arraigados no imaginário e na história de boa parte do povo brasileiro.
As missangas do fio são todas de afeto, de família, da delicadeza das relações humanas... de todos os temas e situações que nos são caros. São pedaços de existências intensas e efêmeras, mas não por isso menos valorosas ou menos poéticas. São pequenas histórias grandiosas - como, se assim o quisermos, pode ser a vida de todos nós.
O Fio das Missangas; Mia Couto - 148 páginas - Editorial Caminho (mas há também uma edição brasileira, pela Cia. das Letras)
A Perna Esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil é Gonçalo M. Tavares em seu estado mais puro – e caótico. Esqueça o que diz a apresentação do livro encontrada em sites ou os trechos, disponibilizados como resenha, que fazem parecer que a paixão é o tema central do livro. O livro trata, sobretudo, das convergências e divergências entre a ordem e o caos, da linguagem com que expressamos nossos afetos, e de como refletimos nossas relações com o outro e com o mundo.

A primeira parte do livro conta, sim, sobre uma paixão, mas desdobra-se em reflexões que, se à primeira vista, parecem obscuras, não chegam a tornarem-se claras, mas ampliam-se e desdobram-se em “tópicos” na segunda parte do livro, que, a princípio, intriga pela forma. Roland Barthes e Robert Musil são escritos (descritos?) não como uma narrativa, mas em pequenos tópicos inseridos em tabelas que inevitavelmente dialogam com a primeira parte do livro.
A Perna Esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil é um livro para ser lido em três ou quatro horas, mas precisaria de outra vida para digeri-lo ou compreender metade do seu significado. Terminei-o desejando conhecer Roland Barthes e Robert Musil, que sob a ótica de Gonçalo M. Tavares parecem mesmo interessantíssimos. Começarei por Barthes, com quem imagino que terei mais afinidades, mas “O Homem sem Qualidades”, de Musil, já está na lista dos livros pelos quais desejo ser alcançada.
A Perna Esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil; Gonçalo M. Tavares - 172 páginas - Relógio d'Água
É uma pena, mas o livro Dança Universal, assinado por Sérgio Rodrigo Reis, é um dos piores livros que li em toda a minha vida. A edição da Imprensa Oficial torna o pequeno livro muito atraente. As muitas fotos que ilustram algumas páginas são bonitas, mas a escrita não convence.
Conheço a história do Grupo Corpo e por isso posso afirmar: o livro poderia ser interessante – mas não é. Falta inspiração.
Tive a impressão de estar lendo anotações escritas às pressas para serem transformadas em emoção ao serem transferidas para um diário que não existe. Em princípio, pensei que poderia se rabugice, ou o hábito de ler as biografias tão bem escritas pelo Ruy Castro, mas não era. A escrita do livro é mal cuidada, tem erros grotescos de revisão, como um capítulo intitulado “Porque (sic.) Minas?”.
Se a intenção da Coleção Aplauso é documentar a arte brasileira, penso que deveria fazê-lo por meio de uma escrita atraente, para que também a arte fosse engrandecida e valorizada a partir de tais documentos. O Grupo Corpo e a bibliografia da dança mereciam um retrato melhor executado – ou que, pelo menos, não os fizessem parecer menores.
Dança Universal - Rodrigo Pederneiras e o Grupo Corpo; Sérgio Rodrigo Reis - 212 páginas - Imprensa Oficial
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