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9 de jul. de 2013

Libertem a Mulher Forte


Conheci a escrita da Clarissa Pinkola Estés através do seu livro mais famoso, Mulheres que correm com os lobos, que procurei porque alguém disse que é um livro que todas as mulheres interessantes leram ou deveriam ler. Concordo e acrescento que todas as pessoas - e não só mulheres - interessadas pelo conhecimento de si e do outro, e por isso interessantes, deveriam imergir no conteúdo daquelas muitas páginas capazes de transformar o olhar.
Entre o primeiro contato com a escrita da psicanalista, há anos, e o reencontro, a partir da publicação mais recente, passei por todos os outros livros escritos pela autora e recorri aos textos de alguns deles quando escrevi o artigo Mulheres que Desaparecem, que assino com a Maira Begalli e a Flávia Cremonesi.
Para quem não conhece os outros livros escritos pela Clarissa Pinkola Estés, Libertem a Mulher Forte pode parecer, à primeira vista (e à segunda, terceira e quarta), excessivamente religioso; no sentido ruim comumente atribuído ao adjetivo.
A autora utiliza a figura da mãe como representante da força que vive em nós e é manifestada a partir de nós; que, para aqueles que crêem, é a mãe que está também acima de nós.
Como pretendemos que façam todos os bons livros, Libertem a Mulher Forte questiona e perturba, mas pode ser também consolador. Gosto quando a leitura possibilita que a compreensão aconteça sob diferentes pontos de vista, por isso sinto que a leitura de Libertem a Mulher Forte me atingiu de maneira muito particular. Estive na livraria e vi o livro vendido como sendo de religião/cristianismo, mas não foi esse o registro feito pela editora na ficha catalográfica e nem o que encontrei durante a leitura.
Para mim, que sou atéia, o livro trata de um arquétipo - não de um ícone, como pode parecer para outros que o leiam - e fica muito mais interessante quando a autora relata suas experiências como educadora, entre outras bonitas e emocionantes vivências pessoais que aconteceram no decorrer dos anos em que ela percorreu lugares difíceis das almas e dos traumas de muitas mulheres e comunidades.
Depois de anos sem publicar livros inéditos, Clarissa Pinkola Estés continua excelente e tem muito para nos contar.


Libertem a Mulher Forte: O amor da mãe abençoada pela alma selvagem - Clarissa Pinkola Estés - 408 páginas - Rocco

1 de fev. de 2013

Elvira Vigna

Sou fiel a todos os meus escritores favoritos, mas gosto de, quando estou distraída, ser encontrada por novos autores. Em uma revista, na matéria intitulada Falsas Verdades, Elvira Vigna me encontrou.
Descobri quase simultaneamente a escrita de uma autora apaixonante e uma pessoa adorável. Elvira Vigna alimenta um site e pode ser facilmente contactada através das redes sociais. Ainda assim, a autora, que transborda talento nos textos repletos de frases curtas escritas em linguagem coloquial, parece comedida no uso da internet. Admiro-a ainda mais porque encontrou para si um lugar muito bonito entre o mito da escritora reclusa e as escritoras contemporâneas ávidas por [qualquer tipo de] exposição.


ÀS SEIS EM PONTO

Às Seis em Ponto foi o meu primeiro e muito feliz encontro com a literatura produzida por Elvira Vigna.
O livro marca o ínício de uma busca que pretendo empreender na literatura escrita por mulheres - escreverei sobre o tema quando/se a pesquisa alcançar alguma consistência ou maturidade.
Além de apreciar a escrita, que carrega a marca da autora, gostei da história na qual existe um homem que não é o centro do enredo ou dos afetos da narradora. Ela (a narradora) ama aquele homem, mas é com ela que a história acontece.
O modo como a autora brinca com o tempo, dissecando a história e invertendo a ordem cronológica dos acontecimentos, torna a leitura ainda mais saborosa. Tive a impressão de que a Elvira Vigna escreve para provocar - e provoca - sensações naquele que lê.
Ao final do livro me senti quase culpada, por ter me tornado cúmplice da narradora enquanto acompanhava seu relato confuso, desesperado e desesperador. A personagem tenta exprimir o indizível e isso faz com que suas angústias sejam transmitidas como um vírus, que rapidamente salta das entrelinhas e se aloja no leitor.
Às Seis em Ponto deixou em mim o desejo de permanecer contaminada pela literatura daquela que, com justiça, costuma ser mencionada como "a melhor escritora brasileira viva".

Às Seis em Ponto - Elvira Vigna - 128 páginas - Companhia das Letras



O QUE DEU PARA FAZER EM MATÉRIA DE HISTÓRIA DE AMOR

Pouco tempo depois de me apaixonar pelo livro Às Seis em Ponto, recebi alguns dos melhores presentes da vida. Entre os presentes materiais, um exemplar de O Que Deu Para Fazer em Matéria de História de Amor, com uma dedicatória da autora.
Antes que eu começasse a leitura, Elvira Vigna disse que O Que Deu Para Fazer em Matéria de História de Amor é um elogio ao fazer narrativo.
O livro conta uma história encantadora, daquelas que despertam o desejo de ter alguém com quem compartilhar a experiência da leitura, para falar sobre o livro, sobre as relações humanas e sobre o amor.
Durante a minha segunda imersão em um universo criado pela autora, encontrei mais uma história para sentir. Gosto especialmente dos livros que, além de me estimularem intelectualmente, são capazes de provocar sensações.
Me vi em muitas das breves alegrias vividas pelos personagens que, apesar do amor - ou por amor - encontram soluções práticas para a convivência saudável, ainda que, eventualmente, dolorosa.
Elvira Vigna criou personagens que não buscam um outro ideal, mas que encontram algum conforto nas relações e histórias que construíram juntos.
Distante do amor romântico, que permeia quase todas as relações humanas contemporâneas (que talvez por isso mantenham-se rasas ou estejam fadadas ao fracasso), Elvira Vigna escreveu o amor real, aquele que busca um sentido verdadeiro; um amor que só acontece quando existe lealdade e respeito ao outro, quando ambos são capazes de manter a integridade.
Encontrei no livro algumas variações do único amor que julgo possível; e que, infelizmente, é cada vez mais raro entre nós.

O Que Deu Para Fazer em Matéria de História de Amor - Elvira Vigna - 208 páginas - Companhia das Letras


PORTUGAL:
Hoje o livro Nada a Dizer, também escrito por Elvira Vigna, chega às livrarias portuguesas, editado pela Quetzal - que só faz livros lindos.


12 de dez. de 2012

Atualizando a Biblioteca: Promessas


Sou uma daquelas muitas pessoas que costumam cumprir o prometido - desde que prometa para os outros. Eu te darei o céu, meu bem... Mas comigo não vou além. Me faço pelo menos cinco promessas diárias e fico satisfeitíssima quando consigo cumprir uma delas.
É raro, quase impossível, cumprir as metas estabelecidas. Por algum motivo incognoscível (pausa para o Aurélio!), preciso caminhar por muitos mundos antes de ceder aos meus desejos e sucumbir às prioridades quase desimportantes; para chegar até mim.
Prometi escrever, neste blogue, sobre todos os livros lidos durante 2012 e, embora registre em caderninhos, que apelidei de livrários, todas as minhas impressões e opiniões sobre leituras, ainda não cumpri um terço da promessa.
Eu nunca havia estabelecido uma meta de leitura, mas, em janeiro passado, o fiz pela primeira vez. Prometi ler a Poesia Completa do Manoel de Barros durante os doze meses do ano e agora celebro o cumprimento de uma promessa e a despedida de um livro repleto de paisagens transformáveis e palavras com sabor de descoberta maravilhante.
Manoel de Barros me causou estranhamento durante a primeira leitura - dO Livro das Ignoranças -, há alguns anos. Depois da experiência frustrada, passei algum tempo flertando, durante mergulhos na internet e idas à livraria, com a poesia do autor. Como Clarice, Virgínia e alguns outros, o poeta foi um caso de amor às segundas vistas, um prêmio pela minha insistência.
Foi bom ler Manoel de Barros durante o ano em que li muitos outros poetas. Eu poderia dizer que escrevo melhor quando leio mais poesia, ou que vejo e sinto melhor quando imersa nas palavras dos fazedores de beleza poética, mas minha relação com a poesia não pode ser descrita, ela é sentível e, apesar de farfalhante, quase enclausurada, só acontece dentro.
A poesia engrandece o olhar. Me torno imensadora de universos distintos quando sinto que as palavras de um poeta me habitam e ganham novas formas e significados a partir do meu ângulo de visão - que sei transformável, sempre efêmero.
Há períodos em que preciso de doses cavalares de poesia e outros em que a prefiro em doses homeopáticas. Os encontros com Manoel de Barros respeitaram meu ritmo e compreenderam minhas disposições e disponibilidades. Poesia Completa foi uma ótima companhia e repousará na estante até chamar pelos meus olhos mais uma vez. Sei que vai acontecer sempre que a poesia de que ele é feito souber que precisa estar mais presente em parte de tudo aquilo que me torna eu.

Poesia Completa - Manoel de Barros - 496 páginas - Leya

26 de nov. de 2012

Atualização da Biblioteca: Vermelho Amargo



"Um dia eu soube que o arco-íris é filho da admiração."



Gosto de pensar que sou escolhida por determinados livros ou autores que desconheço, por isso evito ler, ver ou ouvir resenhas de livros que me pareçam interessantes. Pelo mesmo motivo, costumo rejeitar indicações de leitura vindas de pessoas próximas ou distantes.
Quem me sugeriu a leitura de Vermelho Amargo foi a Tati (dona do No país das entrelinhas), que tem bom gosto literário, é sensível e escreve muitíssimo bem. Ela disse que a escrita do Bartolomeu lembrava o que escrevo e que, ao ler o livro, lembrou de mim. Decidi ouvir as vozes da gratidão, em vez de me submeter às falsas certezas da arrogância, e fiz uma ótima escolha.
Vermelho Amargo me colocou em contato com uma melancolia a que me dou direito, que muitas vezes é considerada quase um crime entre o povo e os autores de um Brasil alegre e solar com o qual não me identifico.
Não sei se a Tati sabe que faz muitos anos que perdi a minha mãe (creio que não sabia), mas, no livro, o autor discorre sobre a ausência da mãe morta ainda na sua infância e sobre como essa ausência reverbera nos acontecimentos, reações e sentimentos, durante o passar dos anos e da vida que nos parece sempre longa demais.
Me apaixonei não só pela edição maravilhosa do pequeno livro de capa dura, que tem o corte e a impressão em vermelho, ou pela prosa poética deslumbrante tecida por Bartolomeu Campos de Queirós. Me apaixonei pelo livro como por um espelho, porque me vi em cada uma das palavras e sensações. Me vi nas sentenças inevitáveis provocadas pela mais dolorosa das ausências. Encontrei nas palavras do autor a delicadeza, as possibilidades do belo diante da lucidez assombrosa, no cumprimento de um destino sempre rude.
Em Vermelho Amargo pude perceber que a cortante e dolorosa sensação de abandono não precisa, necessariamente, ser fruto da minha amada solidão, mas pode advir do excesso de amor; porque o amor transborda e sufoca aquele que ama quando a mãe já não existe para recebê-lo incondicionalmente. Mesmo que para toda a família a vida transcorra com naturalidade, há aqueles em quem a ausência - que o passar do tempo não ameniza e torna cada vez mais profunda - jamais deixará de doer.
Li boa parte do livro aos soluços, imersa em lágrimas. Ainda assim, secretamente satisfeita e imensamente feliz. A partir de um gesto de afeto, vivi mais uma oportunidade de me reencontrar.

Vermelho Amargo - Bartolomeu Campos de Queirós - 75 páginas - Cosac Naify

20 de out. de 2012

Biblioteca: Górki (auto-biografia com hífen)

Antes de começar a ler Infância, que é o primeiro volume da auto-biografia, li um pouco -muito pouco - sobre as controvérsias acerca do posicionamento político de Górki, sobre suas relações com Stálin e com o stalinismo. Mesmo depois de iniciar a leitura, não aprofundei meus conhecimentos históricos para além dos ótimos prefécios e posfácios escritos por Rubens Figueiredo e Boris Schnaiderman, responsáveis também pela tradução da auto-biografia - Boris Schnaiderman traduziu Ganhando meu pão e Rubens Figueiredo os outros dois livros.
Fui ao encontro de Górki em busca de literatura e encontrei literatura das melhores, deslumbrante, daquela que os russos sabem fazer.
Li um livro por mês, em maio, junho e julho passados. Temo ler ininterruptamente muitos tomos do mesmo autor e, sem me dar conta, permanecer imersa em seu universo, presa - como se depois dele eu pudesse estranhar a ponto de repelir todos os outros escritores. Entre um livro e outro, preciso de passeios por outras letras e paisagens escritas, por outros lugares de mim.
A relação que Górki parece ter estabelecido com as mulheres é notável, mesmo para quem - por viver em outro planeta? - não é sensível ao feminismo. No primeiro livro ele se mostra muito ligado à mãe e, posteriormente, à avó, por quem cultivou uma admiração quase devota. Na ausência das mulheres da família, e com o avançar da idade, surgiram o encantamento pela beleza feminina e também as manifestações de indignação com acontecimentos e palavras que denegriam as mulheres. Em algumas passagens dos livros, Górki agiu como protetor daquelas que, como ele, eram(?) vistas como seres inferiores.
Os livros da auto-biografia de Górki parecem sempre úmidos e nublados. Foi na obscuridade bem descrita, com temperaturas e cores que provocam sensações físicas quando saltam aos olhos, que Górki relatou os dias difíceis - que foram quase todos - que viveu.
Guardei com apreço a descrição dos episódios de amor pelo conhecimento e pelos livros, as passagens em que o autor relembrou as breves, mas valiosas, amizades, e também o modo como o autor/narrador se relacionou com as perdas e intempéries, que não foram poucas ou pequenas. Fiquei admirada ao perceber que, mesmo sujeitado a episódios de brutal violência e agressividade, manifestadas desde o seio familiar e reproduzidas também nas relações sociais, o autor tenha mantido aceso o encantamento pela beleza - que nem sempre, ou quase nunca, está relacionada à felicidade ou às alegrias - que tenha se dedicado a buscar e a produzir o belo.
Os três volumes da autobiografia de Górki relatam histórias de superação. Não da superação clichezenta, do "feliz para sempre" ou do herói, mas da superação de quem se transforma e reexiste a partir do presente e do possível, sem grandes pretensões sobre-humanas.
Infância, Ganhando meu pão e Minhas universidades são, também, livros sobre a força e a beleza de buscar-se em um mundo que parece distante e perdido. São livros de sobreviver.

Infância - Maksim Górki - 312 páginas - Cosac Naify
Ganhando meu pão - Máksim Górki - 456 páginas - Cosac Naify
Minhas universidades - Maksim Górki - 280 páginas - Cosac Naify

9 de set. de 2012

Biblioteca: Um pouco de poesia

Do livro n.d.a.:


...
nenhuma das alternativas
me alivia -
nem a lâmpada acesa
nem o sol da Bahia
nem o dom da beleza
nem a anestesia
...


n.d.a - Arnaldo Antunes - 208 páginas - Editora Iluminuras



Do livro Há Prendisajens com o Xão
O Segredo Húmido da Lesma & outras descoisas:


também:
aprendizagem é a palavra que, ela sim, ramifica e desramifica uma pessoa; ela enlaça, abraça; mastiga um alguém cuspindo-o a si mesmo, tudo para novas génesis pessoais.
estas palavras são, elas sim, para pessoas que se autorizam constantes aprendicismos. modos. maneiras. viveres. até sangues. aprendizar não é repessoar-se?



Há Prendisajens com o Xão - Ondjaki - 72 páginas - Editorial Caminho

10 de ago. de 2012

Biblioteca: encontros, reencontros e descobertas

O filho de mil homens

Eu ainda não conhecia nenhum outro livro do Valter Hugo Mãe - que acompanho via Facebook e Twitter - quando O filho de mil homens chegou às minhas mãos. Prestes a ler mais um livro do autor, posso dizer que ele é um forte candidato a se tornar um dos meus favoritos, daqueles que merecem ter toda a obra devorada sem parcimônia.
O filho de mil homens é apaixonante. Fui cativada pela escrita que é quase música e, durante a imersão na beleza do universo do livro, senti que gostaria de ser um pouco de cada um dos personagens que habitam suas páginas.
Terminei a leitura desejando observar mais, sonhar mais e fazer mais do que aquilo a que estou habituada - e desejando, é claro, novas viagens pelas delícias nem sempre doces, mas inevitavelmente humanas, do universo criado pelo autor.

O filho de mil homens - Valter Hugo Mãe - 256 páginas - Cosac Naify



Antes das Primeiras Estórias

Minha primeira experiência com Guimarães Rosa, que é referência para muitos dos autores que admiro, não foi das melhores. Li Sagarana na esteira ou na bicicleta da academia e tudo pareceu deslocado - tanto quanto eu me sinto deslocada com a música insuportável daquele lugar.
Quando escolhi Antes das Primeiras Estórias como segunda tentativa, não sabia da apresentação escrita pelo Mia Couto. Ótima surpresa; senti como se recebesse as boas vindas por insistir na aproximação.
O Guimarães Rosa de Antes das Primeiras Estórias parece bem diferente daquele que li em Sagarana e que encontro em excertos, mas ensina tanto quanto outros livros de autores já consagrados. Gostei de ler um autor ainda jovem, talvez imaturo, mas talentoso. Gostei de perceber que ele, antes de tornar-se quase unanimidade, fez outras tentativas, que não "engessou" a escrita, e que se propôs ao maravilhoso desafio de, criando, (se) transformar.

Antes das Primeiras Estórias - João Guimarães Rosa - 96 páginas - Nova Fronteira



Bonsai

Muitos falaram e escreveram sobre Bonsai, que li assim que foi lançado. Logo, penso que qualquer coisa que escreva sobre ele me condenará ao fundo poço infinito da repetição.
Gosto do formato do livro, que poderia ser um livrinho de bolso, se fosse aparado, como sugerem o pontilhado na capa e as marcas de corte no interior.
É uma estória de vidas, muito bem podada, precisa, ainda que aconteça também na infinitude das entrelinhas. É uma estória para ser lida toda de uma vez e para, observada a partir de outros pontos, ser constantemente descoberta a partir da releitura.

Bonsai - Alejandro Zambra - 64 páginas - Cosac Naify



Short Movies

Short Movies é, como sugere o título, composto por breves cenas deliciosamente descritas por Gonçalo M. Tavares, que continua sendo um dos meus grandes amores. Gosto das estórias que, neste livro, se dizem através das palavras, mas que propõem exercícios imaginativos, questionamentos de como e por que os personagens e situações chegaram até ali.
A edição feita pela Editorial Caminho é belíssima, com capa dura e sobrecapa ilustrada com fotos de uma bailarina que remete aos movimentos e figurino da minha amada Isadora Duncan.
Escrever é, também, fotografar instantes. Arte que, em Short Movies, Gonçalo M. Tavares realiza com poesia e perfeição.

Short Movies - Gonçalo M. Tavares - 160 páginas - Editorial Caminho



Caro Michele

Caro Michele é mais um livro da bela e ótima coleção Mulheres Modernistas, que, para minha alegria, parece não ter fim. Quando Caro Michele chegou às minhas mãos eu não sabia exatamente quais eram a forma e a temática do livro, além de não conhecer muito sobre a autora, Natalia Ginzburg.
Àquela altura eu escrevia, com um amigo, o esboço de um livro no qual a história aconteceria a partir da troca de cartas entre duas pessoas. Fiquei obviamente surpresa quando descobri que em Caro Michele os fatos se desenrolam exatamente assim, a partir da troca de correspondências entre pessoas que possuem laços familiares e afetivos, e que têm suas vidas e relações permeadas pelos acontecimentos da época, que foi marcada pela tentativa de um golpe de Estado na Itália e pela vitória do fascismo.
Ainda que o livro retrate um período difícil e existências dolorosas, a escrita de Natalia Ginzburg é deliciosa. Por conta do deslumbramento com a autora que ainda não conhecia, desisti do livro que não escrevi.

Caro Michele - Natalia Ginzburg - 192 páginas - Cosac Naify

30 de jul. de 2012

Biblioteca: três russinhos



Nem me passava pela cabeça, então, que o homem não é uma planta e não florece todo ano. A juventude come pães doces e dourados, pensando que é esse o pão de cada dia; no entanto, chega a hora em que se faz qualquer coisa até mesmo por um pãozinho comum.

Ássia - Ivan Turguêniev - 120 páginas - Cosac Naify


Quando a cortina sobe e, à luz da noite, entre as três paredes, esses talentos formidáveis, os sacerdotes da arte sagrada, representam como as pessoas comem, bebem, amam, andam, vestem seus casacos; quando, das cenas e das frases mais banais, tentam desencavar uma moral - pequenina, fácil de entender, útil para fins domésticos; quando, em mil variantes, me apresentam sempre a mesma coisa, então eu fujo correndo, como Maupassant fugia da torre Eiffel, que lhe oprimia o cérebro com sua vulgaridade.

A Gaivota - Antón Tchekhov - 112 páginas - Cosac Naify



"Que criatura destruidora e cruel é o homem, quantas plantas, quantos seres vivos diferentes ele não destruiu, para a manutenção de sua vida!" - pensei, procurando involuntariamente algo vivo no meio do assolado campo negro.

Khadji-Murát - Liev Tolstói - 224 páginas - Cosac Naify



Os três livros integram a bonita coleção Russinhos, da Cosac Naify, da qual também faz parte o livro Uma criatura dócil, sobre o qual já escrevi aqui.

Ássia foi meu primeiro encontro com Turguêniev. Até ser encontrada pelo livro eu não sabia da existência do autor - menos conhecido, no Brasil, que os outros grandes romancistas russos do século XIX. Me apaixonei pela escrita precisa e pela delicadeza com que retrata os personagens e as condições emocionais e sociais que compõem o belo e doloroso amor impossível. Terminei o livro desejando conhecer outras obras do Turguêniev.

Apesar de me comover com as encenações das estórias do Tchekhov, durante muito tempo fugi da leitura das peças, porque me imaginava incapaz de ler uma peça de teatro que parecesse muito complexa, na qual figurassem muitos personagens - antes dela havia lido Entre Quatro Paredes, do Sartre, algumas peças e cenas do Nelson Rodrigues, e nada mais. Perdi o medo, venci o preconceito que usava como defesa e não me arrependo de tê-lo feito. Durante a leitura de cada uma das páginas da escrita deslumbrante de A Gaivota descobri personagens e vidas intensos e extremamente humanos, vivendo em cenários distantes daqueles com os quais estamos habituados, mas encenando vidas muito próximas das vidas que vivemos, retratando sentimentos e sensações comuns a muitos de nós.

Tolstói é um dos meus autores favoritos, mas não me interessei muito pela temática abordada em Khadji-Murát. Talvez tenha sido pouco generosa; não costumo gostar de histórias de guerra e, mesmo que tenha empreendido algum esforço para nutrir afeto pelo livro, sinto que fracassei. Embora a escrita do livro seja belíssma e os personagens e histórias muito bem descritos - as cenas são quase cinematográficas -, não creio que se torne, um dia, um dos muitos livros que pretendo reler.

Biblioteca: Diferente como Chanel

A leitura de Diferente como Chanel me fez lembrar do livro Moda: uma História para crianças, publicado pela mesma editora.
Além de a edição ser belíssima e ter ilustrações maravilhosas, ricas em detalhes, o texto é bastante acessível, sem ser vazio.
O livro conta como Chanel venceu as adversidades e ficou famosa a partir da autenticidade, por ter adequado a moda às necessidades do tempo e do lugar em que viveu.
Gosto da proposta de alinhar, em livros infantis - mas não só neles -, a História da Moda com a História geral; da visão da moda como um reflexo da sociedade, como forma de adequação às necessidades que vão além da estética e da auto-afirmação.
Vivemos dias em que a moda, como quase tudo, parece composta por efemeridades, superexposição e consumo desenfreado, por isso a delicadeza despretensiosa (é só um livro infantil!) de Diferente como Chanel pode ser um bom primeiro convite à reflexão.

Diferente como Chanel - Elizabeth Mattews - 40 páginas - Cosac Naify

25 de jul. de 2012

Biblioteca: José Luís Peixoto, eu e a minha avó

Escolhi dois livros do José Luís Peixoto porque vivi, durante a leitura de ambos, experiências semelhantes, provocadoras de reações diversas.
Abraço, como o nome sugere, é um livro confortável, composto por crônicas que contam histórias deliciosas, que nos aproximam do autor. A Mãe Que Chovia, apesar de ser um livro infantil, conta uma estória inquietante - de uma inquietude grandiosa e boa, mas ainda assim inquieta para as crianças experimentadas, como eu.
Li boa parte do Abraço em voz alta, para a minha avó, que tem 81 anos e que, apesar de gostar de estórias e histórias (e de ter sido a primeira fabuladora da minha vida, durante as noites de férias, na minha infância), conquistou, com o passar do tempo, pelo vento que vincou a pele luminosa, o direito à preguiça de ler.
Durante leitura das crônicas em que José Luís Peixoto relata as experiências da infância e da juventude, vi brilharem os olhos azuis mais bonitos e curiosos de que tenho notícia. Foi maravilhoso descobrir que, apesar de muitos anos e um oceano de distância entre eles, minha avó tem recordações de vivências muito parecidas com as do autor que admiro. Interrompemos muitos parágrafos para compartilhar nossas histórias, relembrar momentos do passado recente e trocar impressões sobre o nosso tempo, que é sempre o presente, o agora - na nossa família todo tempo é hoje.
Entre as crônicas do Abraço, acompanhadas por sorrisos intermináveis que exprimiam o indizível, pudemos "reler" muitas histórias que nos transformaram em quem somos, que são parte de nós. A partir da leitura, das palavras que ecoaram pelo quarto e pela sala, Abraço tornou-se parte da nossa riquíssima biblioteca - vidoteca? ou memorioteca? - afetiva e familiar.
A Mãe Que Chovia, como o título sugere, conta a estória de um filho da chuva. Repeti a contação de estória para a minha avó, compartilhando também as bonitas ilustrações do Daniel Silvestre da Silva, no livro que é todo poesia.
Senti em A Mãe Que Chovia uma imensa força do feminino, que me é tão caro. A grandiosidade do amor materno, a ausência da mãe (porque já vivi mais da metade da minha existência com esse buraco de mãe, que é para sempre) e o poder do sentimento que nos uniu.
Interrompi a leitura muitas vezes, às lágrimas. Durante as últimas páginas, éramos três mulheres - eu, a minha avó e minha mãe, a filha dela - ainda mais filhas, ainda mais mulheres, ainda mais "mães" e muito mais fortes, porque nos sabemos cultivadoras do que nos permite, sendo muitas, sermos também uma, que é a soma de todas nós.


Abraço - José Luís Peixoto - 680 páginas - Quetzal Editores

A Mãe Que Chovia - José Luís Peixoto - 64 páginas - Quetzal Editores

12 de jul. de 2012

Biblioteca: O Bairro


Me dei as caixas da coleção O Bairro de presente no último Natal. Como as receberia no início do ano, me propus, desde a encomenda, a ler os livros aos poucos - um ou dois por mês. Não aconteceu exatamente assim, mas quase. Devo ter terminado a leitura de todos eles em meados de abril.
Os títulos da coleção homenageiam grandes autores e o bairro construído por Gonçalo M. Tavares não é feito de ruas e avenidas, mas constituído por pessoas-casa. Em cada livro o autor apresenta uma forma de escrever e de raciocinar, algumas inacreditavelmente interessantes e outras maravilhosamente deslumbrantes. Embora eu tenha cinco ou seis favoritos, nenhum dos livros é sequer mediano, todos eles são ótimos. A edição dos livros, as gravuras e capas duras coloridas, os tornam ainda mais desejáveis.
Os livrinhos que compõem a coleção têm poucas páginas, mas nelas as palavras se mostram meios para plurificar. Muitos comentam sobre a capacidade que os livros do Gonçalo M. Tavares têm de inspirar aqueles que produzem arte. Acredito que isso seja observado porque o autor quase sempre nos conduz a deliciosas viagens interiores na companhia dos personagens que transformamos em parte de nós - que, como todos eles, somos também palavra.
Durante a leitura dos livros dO Bairro, senti as palavras reverberarem, porque Gonçalo escreve também com e para o corpo. É com prazer que, meses depois, noto que a releitura de trechos dos livros continuam acendendo fagulhas de algo que havia adormecido em mim.
O Bairro do Gonçalo M. Tavares é, definitivamente, um dos lugares onde gosto de morar.
Li por aí que a coleção não foi encerrada e que, em breve, novos moradores virão. Já preparei bolo, chá e abraços, para receber os novos companheiros da vizinhança crescente.


Caixa O Bairro I: O Senhor Valéry, 82 páginas; O Senhor Henri, 98 páginas; O Senhor Juarroz, 64 páginas; O Senhor Breton e a Entrevista, 68 páginas; O Senhor Kraus, 124 páginas - Gonçalo. M. Tavares - Editorial Caminho

Caixa O Bairro II: O Senhor Calvino, 80 páginas; O Senhor Brecht, 65 páginas; O Senhor Eliot e as Conferências, 86 páginas; O Senhor Swendenborg e as Investigações Geométricas, 124 páginas; O Senhor Walser, 48 páginas - Gonçalo M. Tavares - Editorial Caminho

31 de mai. de 2012

Livros!

Sinais do mar

Foi um dos livros que desejei desde o lançamento, mas demorei para adquirir - e ainda vivi com ele essa história bonitinha.
Durante a infância, Ana Maria Machado era uma das minhas escritoras favoritas, uma das que mais levava para a casa quando frequentava as bibliotecas dos colégios em que estudei.
Sinais do mar, o primeiro livro de poemas da autora, foi publicado graças ao incentivo da Ruth Rocha, de quem a Ana Maria Machado é amiga - e que também foi uma das minhas primeiras autoras favoritas.
Li os poemas de Sinais do mar em voz alta, num fim de tarde chuvoso, e senti a poesia reverberando pela casa. Ana Maria Machado construiu areia, ondas, siris, barcos e revoadas com as palavras bem postas que não só remetem a imagens e lembranças mas, como acredito que deve ser em tudo o que é poesia, provocam sensações.
Gostei de ter pisado as praias para as quais sei que posso voltar.

Sinais do mar; Ana Maria Machado - 56 páginas - Cosac Naify



Quantas madrugadas tem a noite

Eu nunca estive em Luanda. Talvez passe a vida toda sem poder dizer que estive em solo angolano e, no entanto, posso dizer que tenho amigos que nasceram e viveram lá.
Quantas madrugadas tem a noite foi meu primeiro encontro com a prosa do Ondjaki, de quem, até então, só conhecia os poemas pelos quais me apaixonei com imensa facilidade.
O livro narra o encontro da estória do AdolfoDido - que, entre uma cerveja e outra, acaba por embriagar-nos entre as palavras sem que saibamos precisar quando e como aconteceu - com muitas outras estórias (ou histórias?) de muitas outras gentes maravilhosamente interesantes.
Em algumas páginas de Quantas madrugadas tem a noite me senti observadora de um universo fantástico que pareceria irreal se a poesia não o tivesse tornado deliciosamente humano. Foi nas passagens em que me senti próxima ao AdolfoDido, que narra os acontecidos e os desacontecimentos, que mais me emocionei. Em alguns momentos me senti como o terceiro elemento, mudo, à mesa, com ouvidos atentos e olhares apurados. Também pude sentir como se AdolfoDido tivesse a minha voz, como se compartilhássemos as dores de desexistir e o deslumbramento ante a beleza encontrada no improvável, porque a sensibilidade permite enxergar além da grandiosidade do óbvio.
Terminei a leitura de Quantas madrugadas tem a noite aos prantos, em lágrimas que misturavam saudade e gratidão.
Não é sempre que nos encontramos em um espelho que parece distante do olhar - porque é dentro.

Quantas madrugadas tem a noite; Ondjaki - 203 páginas - Editorial Caminho



A Autobiografia de Alice B. Toklas

Li A Autobiografia de Alice B. Toklas porque, além de ter gostado muitíssimo de Três Vidas, também escrito pela Gertrude Stein, faz parte da coleção Mulheres Modernistas - que é linda e constantemente ampliada, para desespero e felicidade dos leitores-colecionadores, entre os quais me incluo.
O posfácio, escrito pelo Silviano Santiago, seguido por algumas páginas de sugestões de leitura, me fizeram desejar ler ainda mais do que Gertrude Stein escreveu e também muito do que foi escrito sobre ela.
Fala-se muito sobre o convívio de Gertrude Stein e Alice com os artistas que viviam em Paris, assim como sobre a relação supostamente (?) homossexual que havia entre entre elas. As descrições dos encontros com personalidades como Picasso e de todas as excentricidades daqueles artistas importantes para a época, que frequentavam a casa de Gertrude Stein, são sempre repletas de observações que as tornam ainda mais interessantes. Ainda assim, não considero que as aventuras parisienses sejam o melhor do livro.
A Autobiografia de Alice B. Toklas - que, na verdade, é quase uma autobiografia da Gertrude Stein - retrata um período de guerra, em que Getrude e Alice decidem tornarem-se úteis aos militares, que transportavam entre uma cidade e outra, em um carro dirigido por Gertrude, no qual levavam também notícias, mantimentos e conforto às famílias daqueles que se ausentavam em função dos combates.
A Autobiografia de Alice B. Toklas é também um livro sobre a coragem e as frustrações da escritora, sobre História, arte e estórias de uma Paris que permanece iluminada e luminosa nas páginas que a trazem até nós.

A Autobiografia de Alice B. Toklas; Gertrude Stein - 288 páginas - Cosac Naify



Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo

Fiz a leitura de Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo durante a semana em que revia, em vídeo, alguns dos meus espetáculos favoritos do grupo fundado pelos irmãos Pederneiras.
Foi a primeira vez que estudei teoria e prática simultaneamente e isso serviu para reafirmar a minha convicção de que dançar é utilizar o gesto para expressar o pensamento - por incrível que possa parecer, não são todos os que dançam que pensam assim.
Nem todos os ensaios que compõem o livro foram escritos por pessoas que vivem (d)a dança. Não é o primeiro livro organizado pela Inês Bogéa que reúne textos de autores considerados leigos em dança; a multiplicidade de olhares torna o livro ainda mais interessante, polifônico.
A história do Grupo Corpo, já contada em outros livros, é um exemplo para aqueles que, como eu, vivem (d)a dança. Ler Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo foi uma ótima oportunidade para refletir sobre os caminhos a partir de novos olhares. Talvez tenha sido, como todo livro que considero "de trabalho", mais um daqueles livros que alteram, ainda que minimamente, meu modo de caminhar.

Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo; org. Inês Bogéa - 224 páginas - Cosac Naify



Canções Mexicanas

Em três dias da mesma semana, li e reli Canções Mexicanas, do Gonçalo M. Tavares. Em cada uma das leituras, encontrei um livro diferente. Talvez tenha sido efeito do Mezcal que, sem que soubesse, compartilhei com o narrador.
Em princípio não encontrei nele muitas similaridades com os outros livros escritos pelo Gonçalo M. Tavares. Quem conhece sua escrita sabe que cada frase pode multiplicar-se por uma infinidade de significados e ganhar novas formas a partir de nossas reflexões. Em Canções Mexicanas a multiplicação de significados e as tranformações acontecem de um modo menos explícito, mas acontecem.
Muito do que, em Canções Mexicanas, é descrito como fruto de uma imaginação alterada pelo efeito do álcool, assemelha-se com as vivências assombrosas que compartilhamos. A sociedade e os seres humanos são assustadores - e talvez o Gonçalo M. Tavares de Canções Mexicanas não seja tão diferente assim...

Canções Mexicanas; Gonçalo M. Tavares - 96 páginas - Relógio D'Água



O menino que mordeu Picasso

Não sei exatamente o que esperava de O menino que mordeu Picasso mas, durante a leitura, o livro pareceu menos do que esperei.
A edição é muito bonita, com ilustrações belíssimas e muitas fotografias, mas tive a impressão de que o livro serve mais à memória - ou ao ego - do Antony Penrose que ao prazer de contar uma história.
Talvez O menino que mordeu Picasso sirva como ponto de partida para semear entre as crianças o desejo pelo conhecimento da arte, pela obra de um artista. Talvez o livro cumpra, assim, um dos objetivos da leitura, que é enxergar o outro - ainda que o outro seja apenas um senhor que viveu próximo a um artista considerado brilhante; um senhor a quem, muito provavelmente por conta da pouca idade, o artista não pôde iluminar.

O menino que mordeu Picasso; Antony Penrose - 48 páginas - Cosac Naify



Claraboia

Há alguns livros do Saramago, por quem sou apaixonada, de que gosto menos. Por isso, mesmo tendo adquirido Clarabóia - com acento - assim que foi lançado, esperei alguns meses até encontrá-lo. E que surpresa maravilhosa Saramago nos deixou!
Vendido como "o livro perdido de José Saramago" (porque sensacionalismo vende e, independente dele, Saramago merece ser ainda mais lido), Clarabóia foi escrito quando o autor tinha menos de trinta anos.
Mesmo permeado por estórias de modos de viver que podem ser considerados subversivos, Clarabóia não é um livro explicitamente político, como outros do autor. Embora pareça diferente dos outros livros do Saramado, é possível ouvir, em cada uma das linhas, ecos do autor que, muito tempo depois de Clarabóia ter sido ignorado por uma editora, viria a receber o prêmio Nobel de literatura.
Clarabóia não é um livro sobre cegueira, sobre a morte da morte, sobre o sistema falho ou sobre religião. É um livro sobre a vida. Estórias de pessoas que vivem em um mesmo edifício ou que têm relações com aqueles que vivem ali. Clarabóia é um livro sobre pessoas vivendo. Um livro sobre pessoas através das quais aprendemos o outro, que só existirá, de fato, se nos dispusermos a observar.

Claraboia; José Saramago - 384 páginas - Companhia das Letras

29 de abr. de 2012

Biblioteca: livros e histórias

Dublinesca

Além de contar a estória de um homem em conflito com as próprias escolhas e de suas relações com a família que parece não compreendê-lo, com os amigos escritores, com o mercado editorial e com os livros, Dublinesca é, como o título insinua, um breve passeio por Dublin, por autores que lá viveram e por livros ambientados na cidade.
Embora Ulysses, de James Joyce - que ainda não li - seja a referência mais mencionada em Dublinesca - a estória do livro tem profunda relação com o 16 de junho joyceano -, o livro é, para mim, aquele que me levou a Beckett, a quem, não sei por que, oferecia resistência, e que, depois de Dublinesca me conquistou para sempre através do maravilhoso Primeiro Amor.
Passei muito tempo questionando a menção a Vila-Matas como um autor que escreve para escritores e talvez só agora tenha compreendido o real sentido do título atribuído ao autor. Não me senti mais ou menos escritora enquanto lia os livros que Vila-Matas escreveu mas, depois deles, foi impossível conter o desejo de conhecer os autores que ele menciona.
Vila-Matas não escreve para colecionadores de livros, escreve para os leitores. Escreve para que os livros dos bons autores vivam mais.

Dublinesca; Enrique Vila-Matas - 320 páginas - Cosac Naify



A Casa, a escuridão

Encontrei A Casa, a Escuridão em um sebo. Quando me ofereceu o livro, que finalmente "constava no sistema", a livreira disse que o exemplar havia sido assinado pelo autor. Essa informação soou como a descoberta de um tesouro no qual eu só acreditaria quando estivesse ao alcance dos meus olhos.
Ao abrir o livro, me deparei não com uma assinatura, mas com uma dedicatória do José Luís Peixoto a uma artista portuguesa bastante conhecida e reconhecida, que provavelmente foi professora do autor na universidade. Não sei que caminhos trouxeram o livro até mim, mas, embora tenha pago por ele, recebi como um presente.
A história da chegada do livro às minhas mãos está relacionada com os temas que o autor aborda nos poemas de A Casa, a Escuridão. José Luís Peixoto escreve sobre, e com, afeto. São poemas sobre inquietudes, família, amores de toda a sorte e aflições. A Casa, a Escuridão é feito de poesias com sabor e corpo, de poemas que, mais que convidar à contemplação, evocam gestos.
Gosto do modo como os poemas me tocaram, de ter me sentido lida através deles. Em muitas páginas senti o beijo da poesia, que José Luís Peixoto propõe, em um dos poemas mais saborosos, porque é quase físico, na quarta capa: "pousa os lábios sobre a página. pousa os lábios sobre/ o papel. devagar, muito devagar. vamos beijar-nos."

A casa, a Escuridão; José Luís Peixoto - 77 páginas - Temas e Debates



Luto e Melancolia

Nutro profundo desprezo pela atual glamurização e banalização das patologias psicológicas/psiquiátricas, mas, porque sou humana e porque trabalho com e para outros seres humanos, me interesso por elas. Por isso, e também porque o único prêmio que Freud recebeu em vida foi graças ao seu desempenho como escritor, e não como criador da psicanálise, decidi que a belíssima e recém-lançada edição de Luto e Melancolia seria um bom modo de conhecê-lo além das breves citações em artigos dispersos.
O texto introdutório e o posfácio foram ótimos auxiliares para a compreensão do texto do Freud - que, apesar de dar título ao livro, ocupa poucas páginas -, bastante acessível para leigos ou quase.
Diz-se que esta é a melhor tradução de Luto e Melancolia, porque foi vertida a partir do alemão, e não do inglês, como as anteriores. Não posso contestar a informação ou criticar a tradução, mas penso que talvez tenha sido desnecessário mencionar supostos equívocos cometidos em traduções anteriores no livro que é também uma homenagem a Marilene Carone, a "tradutora de Freud" - que foi companheira do "tradutor de Kafka" - que faleceu antes de traduzir, como tencionava, a obra completa de Freud.
Além de fonte de inspiração, de conhecimento e de auto-conhecimento, Luto e Melancolia tornou-se o primeiro encontro de um longo romance, a certeza de que Freud é possível para mim.

Luto e Melancolia; Sigmund Freud - 144 páginas - Cosac Naify



Uma criatura dócil

Não sei se pelo número de páginas do livro ou pela raiva que senti de mais um anti-herói (com acento, porque é meu) do Dostoiévski, lembrei muito de "Noites Brancas", do mesmo autor, durante a leitura de Uma criatura dócil, obra que, em uma edição caprichada, vem acompanhada por ilustrações do Lasar Segall.
Me atraio por estórias que acontecem também nas entrelinhas, além das obviedades. Uma criatura dócil é feito, sobretudo, de silêncios, de ausências a serem preenchidas pelo leitor - que dará ao livro a profundidade e a extensão que a própria experiência permitirem. Por isso, embora não tenha sido o meu caso, porque já li outros livros do Dostoiévski, penso que Uma criatura dócil pode ser um ótimo modo de conhecer e gostar do autor que é ótima companhia - e, também por isso, eterno.

Uma criatura dócil; F. M. Dostoiévski - 96 páginas - Cosac Naify



Livro

É difícil hesitar em trazer para a casa um livro do José Luís Peixoto mas, com Livro, apesar da capa belíssima, que remete a azulejos portugueses nos quais ocultam-se letras e sinais, isso aconteceu.
Durante a pré-venda, em lugares nos quais eu procurava, muito se dizia sobre Livro ser um livro que abordava a emigração portuguesa. O fundo histórico me remetia imediatamente a qualquer obra do Saramago, mas fazia destoar da idéia (com acento) que faço de um romance do meu não menos amado José Luís Peixoto.
Preferi o empirismo ao pré-conceito e não me arrependi.
Livro, de fato, conta a história de emigrantes, mas é um livro sobre o tempo, como escreveu José Castello no belo texto da orelha do livro, e também, talvez principalmente, um livro sobre o amor. E é mesmo um livro diferente dos demais escritos por José Luís Peixoto, mas tão bom quanto qualquer um deles.
A primeira parte do livro soa estranha para o leitor que julga estar acostumado com a escrita do José Luís Peixoto, mas ela se justifica posteriormente. Experimentei essa mesma sensação de transformação a partir da justificativa posterior recentemente, enquanto lia O Som e a Fúria, do Faulkner.
Se no começo do livro, apesar de confusa por pensar que José Luís não estava ali, me encantei com as personagens e situações, com as passagens fantásticas e poéticas que permeavam os acontecimentos, nas páginas finais não era capaz de nada além de, a cada linha, pensar em quão genial é o autor que, exercendo seu amor ao ofício, reiventou-se a de maneira brilhante através das palavras, alimentando "a ânsia insaciável e inúmera de ser sempre o mesmo e outro", como escreveu Pessoa, outro gênio português.

Livro; José Luís Peixoto - 288 páginas - Companhia das Letras



Meu filho, meu besouro

Meu filho, meu besouro foi um dos primeiros exemplares da ainda germinante biblioteca da vovó Clélia que, aos 81, apaixonou-se por livros infantis - ou tornou-se um ótimo pretexto para que eu possa ter mais deles em nossa casa.
É um livro de poesias para crianças, que soam como estórias divertidas daquelas que minha mãe e meus avós contavam. A intimidade do Cadão Volpato, que dedica o livro aos filhos, que o inspiraram, com a linguagem e o universo infantis é percebida a cada linha e também nas ilustrações que, ao contrário do que pode esperar-se, não são coloridas.
Meu filho, meu besouro é um livro para as crianças de hoje, para as crianças que, em nós ou no nosso entorno, queremos - ou deveríamos - alcançar.

Meu filho, meu besouro; Cadão Volpato - 40 páginas - Cosac Naify

23 de abr. de 2012

Dia Mundial do Livro: Cosac Naify e amor

Tenho uma relação de amor e amor com os livros desde que, aos três anos (gosto de enfatizar a idade, para reafirmar o orgulho do papai), aprendi a ler. Sou apaixonada por palavras faladas, cantadas, ditas aos berros, sussuradas, digitadas e postas na tela ou barulhentamente vertidas por lindas e antigas máquinas de escrever. Gosto de gramática, me deixo encantar por imagens poéticas e reverencio parágrafos bem escritos.
Sou também uma leitora taurina. Gosto de edições tratadas com cuidado, de livros bonitos e de traduções bem feitas. Gosto de prefácios e posfácios tão bem escritos quanto o texto do autor principal. Gosto de capas duras e de bons projetos gráficos. Gosto do cheiro dos livros novos tanto quanto gosto do aroma de raridade dos livros pelos quais sou encontrada nos sebos. Gosto de grifar meus livros, de olhar para as minhas estantes como partes da minha história, de ter nos meus livros uma extensão de mim.
Embora goste muito das edições da Cia. das Letras, que publica grande parte dos meus autores favoritos, confesso que, entre as editoras brasileiras, minha favorita é a Cosac Naify.
A Cosac, além de publicar belíssimos livros de Arte - até de Dança, tão raros no Brasil - que sempre me foram muito úteis, faz com que eu me sinta uma leitora respeitada porque executa uma seleção impecável dos autores que publica e porque trata os livros - e as pessoas - com a gentileza que merecem.
Tenho comprado muitos livros nas promoções da loja virtual da Cosac Naify. Em uma dessas compras, um livro que custa R$35, pelo qual paguei R$17, veio com um pingo de cola no meio de uma das páginas. Era um livro de poemas e a cola fez com que algumas palavras se perdessem.
Liguei para a editora e um rapaz gentilíssimo solicitou que eu enviasse um e-mail para que meus dados fossem localizados, mas, mesmo antes de saber a que livro me referia ou quanto tinha custado, disse que enviaria um novo exemplar e que o carteiro viria à minha casa para coletar o livro danificado. Rápido e sem problemas, má vontade ou maiores questionamentos, assim aconteceu. O modo como fui tratada reforçou a ótima imagem da editora e engrandeceu minha admiração por ela.
Hoje, Dia Mundial do Livro, a loja virtual da Cosac Naify disponibiliza 300 títulos pela metade do preço. Já escrevi - aqui, no Skoob e nos outros blogs - sobre muitos dos livros que estão em promoção.
Aproveitem por vocês e por mim, que já excedi a cota mensal.



Esta postagem não foi paga. Comprei todos livros da Cosac Naify para os quais declarei amor e os (muitos) amores cosacnaifyanos que virão nas próximas postagens. Recentemente tive uma declaração de amor rejeitada por um concurso de resenhas realizado pelo site da editora mas, como amor verdadeiro é também incondicional, continuo amando-os mesmo assim.

26 de mar. de 2012

Primeiro Amor - Beckett e a primeira vez

O projeto gráfico do livro, apesar de aparentemente simples, é dos mais bonitos que conheço - faz lembrar dos livros-arte que os aficcionados desejam ter em suas estantes. Some-se à beleza do objeto (o livro) o nome de peso do autor, Samuel Beckett, e o resultado pode parecer grandioso o suficiente para inibir o leitor que ainda não conhece a obra do escritor dublinense que foi um dos fundadores do teatro do absurdo e amigo de James Joyce.
O título, Primeiro Amor, empresta doçura a toda a imponência e convida o leitor a um passeio pelas páginas costuradas em que as palavras, à excessão do início da frase de abertura, posicionam-se sempre à esquerda de quem lê.
Em um texto quase sempre irônico, sarcástico e deliciosamente bem escrito, permeado por sentimentos humanos - legítimos, embora nem sempre socialmente aceitáveis- , Beckett conta uma história de amor que acontece através do silêncio - ou apesar dele.
Primeiro Amor não é um livro de respostas, mas deixa o leitor - que devora suas poucas páginas em minutos - repleto de perguntas sobre as personagens que não são definidas como vítimas ou herois de uma sucessão de encontros marcados pelo incômodo e também pela inevitável dureza da sinceridade. É o retrato da reverberação de um desconforto transformada em beleza literária - aquele tipo de beleza que os grandes autores são capazes de conceber.

Primeiro Amor; Samuel Beckett - 32 páginas - Cosac Naify

11 de mar. de 2012

Biblioteca: declarações de amor

Assim Falou Zaratustra

Faz mais de dez anos que encontrei Nietzsche pela primeira vez, a partir de Zaratustra. Entre a primeira leitura, de uma edição publicada por uma editora reconhecida pelas péssimas traduções, e o presente reencontro (através da minha amada Cia. das Letras), há uma infinidade de transformações.
Se durante a primeira leitura mal comprrendi a caminhada que faz de Zaratustra o Zaratustra, a releitura serviu para, além de compreender a história, reafirmar o que percebi na primeira leitura, praticamente toda limitada a excertos citáveis, capazes de estimular a reflexão.
Nietzsche me ensinou a pensar a dança. Através de Zaratustra, já na primeira leitura, passei a perceber a dança não só como prática diária e profissão, mas também como metáfora para absolutamente todos os acontecimentos vividos. Viver é dançar. Existir é movimentar-se e dedicar dias e noites ao deus bailarino.
Deus está morto. Eu danço.

Assim Falou Zaratustra; Friedrich Nietzsche - 360 páginas - Companhia das Letras


Saramago - Biografia

Antes de começar a ler o Saramago visitado por João Marques Lopes li uma crítica - negativa - ao livro, em um site dedicado a resenhas. Confesso que isso me desanimou no passeio pelas primeiras páginas que, como dizia a crítica, pareciam enfadonhas.
Fiquei feliz em constatar que o escritor da resenha - como eu, no princípio - estava incrivelmente equivocado em relação ao livro.
Aos poucos a leitura se torna prazerosa, repleta de histórias e impregnada pela História acontecida durante o período em que Saramago viveu. É como se a cronobiografia dedicada ao autor (José Saramago: a consistência dos sonhos, escrita por Frenando Goméz Aguilera), que foi uma das muitas fontes de pesquisa do João Marques Lopes, tivesse sido amplificada através das palavras.
Em Saramago estão, além das história de vida do grande autor, suas inspirações e aspirações, com destaque para os períodos de concepção dos livros que viríamos a amar.
É certo que muitas outras biografias e estudos virão, mas Saramago: Biografia cumpre, com louvor e beleza, seu papel.

Saramago - Biografia; João Marques Lopes - 248 páginas - Leya


Memórias inventadas para crianças

Ganhei o livro pouco depois de ter visto o belíssimo documentário Só dez por cento é mentira, dedicado a Manoel de Barros. Foi como se Memórias Inventadas Para Crianças tivesse sido escrito com a intenção de transpor para as páginas toda a poesia transbordante que permeia o filme, e a vida, do autor.
Memórias inventadas para crianças, como outros livros do Manoel de Barros, tem ilustrações feitas por Martha Barros, sua filha. É um livro-vida. Um livro-família. Um livro-abraço. Um delicioso passeio em prosa em companhia do menino que tem olhar-poeta.
Minha avó também leu. Como eu, terminou apaixonada.

Memórias inventadas para crianças; Manoel de Barros - 24 páginas - Planeta Jovem


Raiz de Orvalho e outros poemas

Mia Couto diz ter hesitado até aceitar a republicação do livro Raiz de Orvalho e outros poemas, argumentando que já não se vê em parte daquilo que nele está escrito.
Embora pareça diferente dos outros livros de poemas do autor, Raiz de Orvalho está impregnado por imagens e metáforas que Mia Couto evoca ao escrever em prosa.
Tenho a impressão de que, independente da forma em que seja moldada a escrita, o mundo observado por Mia Couto será todo e sempre poesia.
Amém.

Raiz de Orvalho e outros poemas; Mia Couto - 234 páginas - Caminho


Memorial do Convento


Apesar de ser um dos livros mais famosos do José Saramago, Memorial do Convento está entre os últimos lidos por mim.
No livro que conta a história de Baltazar e Blimunda estão também um pouco da história das relações humanas, das instituições e práticas religiosas e também de monumentos e acontecimentos históricos de Portugal.
Baltazar, que tem a força que muitas vezes nos falta, é persistente, idealista, quase ingênuo, mas também amante apaixonado e companheiro de Blimunda, mulher fiel e inteligente, sensível, poderosa e quase inacreditavelmente forte.
Memorial do Convento é um pouco da história de cada um de nós. Dos ideais humanos e absurdos da humanidade. Do mundo abundante em guerras silenciosas. Da civilização individualista e pouco inteligente que, em busca de falsas grandiosidades, insiste em ruir.

Memorial do Convento; José Saramago - 352 páginas - Bertrand Brasil

5 de fev. de 2012

Biblioteca: O Som e a Fúria


Demorei muitos meses para me convencer de que precisava ler Faulkner pela primeira vez, e alguns outros meses para decidir tirá-lo da estante. O primeiro incentivo veio do fato de o José Luis Peixoto, um dos meus autores favoritos, ser declaradamente fã da literatura do Faulkner (e o Peixoto é daqueles que, como eu, marca na pele as declarações de amor).
Pouco tempo depois, encontrei a edição maravilhosa da Cosac Naify, editora que tem meu amor eterno, - e nem me paga para escrever isso - pela metade do preço. Foi assim que o livro chegou até mim.
O Som e a Fúria foi um caso raro de paixão despertada mais por admiração que por identificação ou pertencimento.
Gosto do fato de o livro ter sido escrito durante um período de reclusão, após um fracasso do autor, e me interesso pela temática abordada. As infelicidades familiares, na literatura, me atraem; e as manifestações do racismo, hoje velado como se fosse moralmente inaceitável, são tão chocantes nos livros quanto na padaria ou na fila do banco.
As primeiras páginas não foram fáceis. A primeira parte do livro é constituída por diálogos que muitas vezes parecem ininteligíveis. A leitura das páginas narradas por Benjy, que sofre deficiência mental, foi de uma diculdade angustiante.
Superado o obstáculo, que posteriormente justifica-se necessário e desejado, agradeci, a cada virada de página, pela oportunidade de ter em mãos parte da obra um autor que - a despeito dos prêmios ou títulos que, muitas vezes, podem parecer assustadores - foi genial.
Ler O Som e a Fúria é, além de desfrute, uma aula. São muitos livros em um só. Muitos modos de escrever e de descrever. Um delicioso passeio por diferentes estilos e pontos de vista.
As estórias das personagens de O Som e a Fúria são tão tristes quanto a maior parte das relações humanas, se observadas com atenção. Sob o olhar de William Faulkner, a tristeza, neste livro, tornou-se bela.
Me apaixonei pelo autor, por isso quero (ler) mais.


O Som e a Fúria; William Faulkner - 336 páginas - Cosac Naify

11 de jan. de 2012

Biblioteca: O silêncio da água






O Silêncio da água foi um dos livros que veio até mim pessoalmente, sem o intermédio de nenhum amigo ou da Internet - que é quem mais me apresenta livros e autores. Eu estava encantada pela vitrine da minha livraria favorita quando ele apareceu sem que eu nem soubesse que existia.
Depois de vê-lo na livraria encontrei muitas críticas, também negativas, para o fato de ter sido publicado. Muitos vêem a publicação póstuma de um dos trechos de outro livro do Saramago como oportunismo. Eu vejo como oportunidade - não para a editora, mas para nós, leitores, e, principalmente, para as crianças, leitores em formação, que muito provavelmente desconhecem o autor.
Hoje um exemplar de O Silêncio da água veio morar na minha estante.
Foi ótimo reler esse excerto do belíssimo "As pequenas memórias", acompanhado pelas ilustrações-colagens de Manuel Estrada, dedicadas "A José, que fez a água falar.".
O livro é grande e bonito. Tem a capa dura. É atraente. Os livros precisam ser atraentes. As crianças precisam de livros que usem roupas de festa, para que se deixem seduzir.
O conto, simples, múltiplo e delicioso, como toda a prosa - e também a poesia - do autor, me tornou, durante alguns instantes da tarde chuvosa, companheira e cúmplice da criança que um dia viria a tornar-se um grande escritor.
Durante alguns minutos vivi e observei o rio, o trajeto, a casa dos avós, os questionamentos e devaneios do menino já fabulante, e o peixe que todos nós, leitores, gostaríamos de ter a sorte de pescar - ou que talvez tenhamos pescado a cada uma das palavras tão marcadas quanto o grande peixe, que imortalizam Saramago a partir de nós.


O Silêncio da água; José Saramago - ilustrações de Manuel Estrada - 24 páginas - Companhia das Letras