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21 de jul. de 2013

Amor em texto, amor em contexto


"Ouvir o outro é uma forma de amor. O sujeito amoroso é alguém que está disponível, que se abre para o outro..."

A Ana Maria Machado foi uma das primeiras autoras favoritas, ainda na infância, e o Moacyr Scliar, de quem ainda não conheço a obra ficcional, sempre me pareceu um bom escritor e um homem digno de admiração e respeito. Gosto muito de livros de cartas e de conversas entre autores porque me interesso pelas pessoas que escrevem livros e porque acredito que uma das principais qualidades dos livros é nos tornar mais humanos, para que possamos suportar e compreender a convivência com os outros humanos a ponto de desejarmos a riqueza de estar entre os que são diferentes de nós.

"É na conversa que o amor se sustenta, não é!?


Durante a leitura de Amor em texto, amor em contexto, que é a transcrição de uma conversa entre os dois escritores, senti como se estivesse próxima das vozes que falavam sobre o amor, sentada à mesma mesa ou dividindo o sofá de uma das salas da Academia Brasileira de Letras. O diálogo, em que ambos começam dissertando sobre o amor e sobre o amor na literatura de forma generalizada, definindo os conceitos filosóficos e históricos do amor e do amor retratado pela literatura, não segue um padrão linear, por isso é transmitido ao leitor com uma forma deliciosamente real.

"Só os homens podiam ler e escrever, pois o texto, como instrumento de poder que é, tinha de estar na mão dos homens."


Gostei especialmente de perceber como ambos foram capazes de, em poucas páginas e palavras, dizerem muito de si e da própria história - de modo que é claro que o diálogo aconteceu entre a Ana Maria Machado feminista e o médico Moacyr Scliar - e que, embora sejam duas pessoas com histórias e formações diferentes, tenham sido capazes de produzir um diálogo frutificante, que vai de Sócrates aos relacionamentos virtuais, passando por temas como religião e psicanálise, porque ambos conduziram as palavras e raciocínios para a mesma direção.

": é mais fácil ser sectário do que ser compreensivo."
...
"O raciocínio por detrás da tolerância é mais complexo."


Li Amor em texto, amor em contexto em uma tarde; mas ainda o estou digerindo, refletindo e pesquisando sobre o que li e desconheço. É um livro leve, simples, de fácil leitura, ótimo para um domingo bonito. Mas é também um dos livros que carregarei pela vida porque, ao despertar o que já existia e trazer novos desejos e saberes a quem sou e desejo me tornar, ele está em mim.


Amor em texto, amor em contexto: Um diálogo entre escritores - Ana Maria Machado / Moacyr Scliar - 112 páginas - Editora Papirus 7 Mares

9 de jul. de 2013

Libertem a Mulher Forte


Conheci a escrita da Clarissa Pinkola Estés através do seu livro mais famoso, Mulheres que correm com os lobos, que procurei porque alguém disse que é um livro que todas as mulheres interessantes leram ou deveriam ler. Concordo e acrescento que todas as pessoas - e não só mulheres - interessadas pelo conhecimento de si e do outro, e por isso interessantes, deveriam imergir no conteúdo daquelas muitas páginas capazes de transformar o olhar.
Entre o primeiro contato com a escrita da psicanalista, há anos, e o reencontro, a partir da publicação mais recente, passei por todos os outros livros escritos pela autora e recorri aos textos de alguns deles quando escrevi o artigo Mulheres que Desaparecem, que assino com a Maira Begalli e a Flávia Cremonesi.
Para quem não conhece os outros livros escritos pela Clarissa Pinkola Estés, Libertem a Mulher Forte pode parecer, à primeira vista (e à segunda, terceira e quarta), excessivamente religioso; no sentido ruim comumente atribuído ao adjetivo.
A autora utiliza a figura da mãe como representante da força que vive em nós e é manifestada a partir de nós; que, para aqueles que crêem, é a mãe que está também acima de nós.
Como pretendemos que façam todos os bons livros, Libertem a Mulher Forte questiona e perturba, mas pode ser também consolador. Gosto quando a leitura possibilita que a compreensão aconteça sob diferentes pontos de vista, por isso sinto que a leitura de Libertem a Mulher Forte me atingiu de maneira muito particular. Estive na livraria e vi o livro vendido como sendo de religião/cristianismo, mas não foi esse o registro feito pela editora na ficha catalográfica e nem o que encontrei durante a leitura.
Para mim, que sou atéia, o livro trata de um arquétipo - não de um ícone, como pode parecer para outros que o leiam - e fica muito mais interessante quando a autora relata suas experiências como educadora, entre outras bonitas e emocionantes vivências pessoais que aconteceram no decorrer dos anos em que ela percorreu lugares difíceis das almas e dos traumas de muitas mulheres e comunidades.
Depois de anos sem publicar livros inéditos, Clarissa Pinkola Estés continua excelente e tem muito para nos contar.


Libertem a Mulher Forte: O amor da mãe abençoada pela alma selvagem - Clarissa Pinkola Estés - 408 páginas - Rocco

5 de out. de 2012

Sublinhamento

Hoje fui encontrada por um livro que li em janeiro de 2010.


Ninguém tem palavras para os outros. Cada um tem palavras para si, e são essas que utiliza. Mesmo quando falas para o outro, dizes para ti as palavras. Mesmo quando chamas alto o nome da pessoa que amas. A linguagem é egoísta, não tenhas ilusões. É tua propriedade.

Na página 36 do livro A perna esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil; Gonçalo M. Tavares.

9 de set. de 2012

Biblioteca: Um pouco de poesia

Do livro n.d.a.:


...
nenhuma das alternativas
me alivia -
nem a lâmpada acesa
nem o sol da Bahia
nem o dom da beleza
nem a anestesia
...


n.d.a - Arnaldo Antunes - 208 páginas - Editora Iluminuras



Do livro Há Prendisajens com o Xão
O Segredo Húmido da Lesma & outras descoisas:


também:
aprendizagem é a palavra que, ela sim, ramifica e desramifica uma pessoa; ela enlaça, abraça; mastiga um alguém cuspindo-o a si mesmo, tudo para novas génesis pessoais.
estas palavras são, elas sim, para pessoas que se autorizam constantes aprendicismos. modos. maneiras. viveres. até sangues. aprendizar não é repessoar-se?



Há Prendisajens com o Xão - Ondjaki - 72 páginas - Editorial Caminho

31 de mai. de 2012

Livros!

Sinais do mar

Foi um dos livros que desejei desde o lançamento, mas demorei para adquirir - e ainda vivi com ele essa história bonitinha.
Durante a infância, Ana Maria Machado era uma das minhas escritoras favoritas, uma das que mais levava para a casa quando frequentava as bibliotecas dos colégios em que estudei.
Sinais do mar, o primeiro livro de poemas da autora, foi publicado graças ao incentivo da Ruth Rocha, de quem a Ana Maria Machado é amiga - e que também foi uma das minhas primeiras autoras favoritas.
Li os poemas de Sinais do mar em voz alta, num fim de tarde chuvoso, e senti a poesia reverberando pela casa. Ana Maria Machado construiu areia, ondas, siris, barcos e revoadas com as palavras bem postas que não só remetem a imagens e lembranças mas, como acredito que deve ser em tudo o que é poesia, provocam sensações.
Gostei de ter pisado as praias para as quais sei que posso voltar.

Sinais do mar; Ana Maria Machado - 56 páginas - Cosac Naify



Quantas madrugadas tem a noite

Eu nunca estive em Luanda. Talvez passe a vida toda sem poder dizer que estive em solo angolano e, no entanto, posso dizer que tenho amigos que nasceram e viveram lá.
Quantas madrugadas tem a noite foi meu primeiro encontro com a prosa do Ondjaki, de quem, até então, só conhecia os poemas pelos quais me apaixonei com imensa facilidade.
O livro narra o encontro da estória do AdolfoDido - que, entre uma cerveja e outra, acaba por embriagar-nos entre as palavras sem que saibamos precisar quando e como aconteceu - com muitas outras estórias (ou histórias?) de muitas outras gentes maravilhosamente interesantes.
Em algumas páginas de Quantas madrugadas tem a noite me senti observadora de um universo fantástico que pareceria irreal se a poesia não o tivesse tornado deliciosamente humano. Foi nas passagens em que me senti próxima ao AdolfoDido, que narra os acontecidos e os desacontecimentos, que mais me emocionei. Em alguns momentos me senti como o terceiro elemento, mudo, à mesa, com ouvidos atentos e olhares apurados. Também pude sentir como se AdolfoDido tivesse a minha voz, como se compartilhássemos as dores de desexistir e o deslumbramento ante a beleza encontrada no improvável, porque a sensibilidade permite enxergar além da grandiosidade do óbvio.
Terminei a leitura de Quantas madrugadas tem a noite aos prantos, em lágrimas que misturavam saudade e gratidão.
Não é sempre que nos encontramos em um espelho que parece distante do olhar - porque é dentro.

Quantas madrugadas tem a noite; Ondjaki - 203 páginas - Editorial Caminho



A Autobiografia de Alice B. Toklas

Li A Autobiografia de Alice B. Toklas porque, além de ter gostado muitíssimo de Três Vidas, também escrito pela Gertrude Stein, faz parte da coleção Mulheres Modernistas - que é linda e constantemente ampliada, para desespero e felicidade dos leitores-colecionadores, entre os quais me incluo.
O posfácio, escrito pelo Silviano Santiago, seguido por algumas páginas de sugestões de leitura, me fizeram desejar ler ainda mais do que Gertrude Stein escreveu e também muito do que foi escrito sobre ela.
Fala-se muito sobre o convívio de Gertrude Stein e Alice com os artistas que viviam em Paris, assim como sobre a relação supostamente (?) homossexual que havia entre entre elas. As descrições dos encontros com personalidades como Picasso e de todas as excentricidades daqueles artistas importantes para a época, que frequentavam a casa de Gertrude Stein, são sempre repletas de observações que as tornam ainda mais interessantes. Ainda assim, não considero que as aventuras parisienses sejam o melhor do livro.
A Autobiografia de Alice B. Toklas - que, na verdade, é quase uma autobiografia da Gertrude Stein - retrata um período de guerra, em que Getrude e Alice decidem tornarem-se úteis aos militares, que transportavam entre uma cidade e outra, em um carro dirigido por Gertrude, no qual levavam também notícias, mantimentos e conforto às famílias daqueles que se ausentavam em função dos combates.
A Autobiografia de Alice B. Toklas é também um livro sobre a coragem e as frustrações da escritora, sobre História, arte e estórias de uma Paris que permanece iluminada e luminosa nas páginas que a trazem até nós.

A Autobiografia de Alice B. Toklas; Gertrude Stein - 288 páginas - Cosac Naify



Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo

Fiz a leitura de Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo durante a semana em que revia, em vídeo, alguns dos meus espetáculos favoritos do grupo fundado pelos irmãos Pederneiras.
Foi a primeira vez que estudei teoria e prática simultaneamente e isso serviu para reafirmar a minha convicção de que dançar é utilizar o gesto para expressar o pensamento - por incrível que possa parecer, não são todos os que dançam que pensam assim.
Nem todos os ensaios que compõem o livro foram escritos por pessoas que vivem (d)a dança. Não é o primeiro livro organizado pela Inês Bogéa que reúne textos de autores considerados leigos em dança; a multiplicidade de olhares torna o livro ainda mais interessante, polifônico.
A história do Grupo Corpo, já contada em outros livros, é um exemplo para aqueles que, como eu, vivem (d)a dança. Ler Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo foi uma ótima oportunidade para refletir sobre os caminhos a partir de novos olhares. Talvez tenha sido, como todo livro que considero "de trabalho", mais um daqueles livros que alteram, ainda que minimamente, meu modo de caminhar.

Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo; org. Inês Bogéa - 224 páginas - Cosac Naify



Canções Mexicanas

Em três dias da mesma semana, li e reli Canções Mexicanas, do Gonçalo M. Tavares. Em cada uma das leituras, encontrei um livro diferente. Talvez tenha sido efeito do Mezcal que, sem que soubesse, compartilhei com o narrador.
Em princípio não encontrei nele muitas similaridades com os outros livros escritos pelo Gonçalo M. Tavares. Quem conhece sua escrita sabe que cada frase pode multiplicar-se por uma infinidade de significados e ganhar novas formas a partir de nossas reflexões. Em Canções Mexicanas a multiplicação de significados e as tranformações acontecem de um modo menos explícito, mas acontecem.
Muito do que, em Canções Mexicanas, é descrito como fruto de uma imaginação alterada pelo efeito do álcool, assemelha-se com as vivências assombrosas que compartilhamos. A sociedade e os seres humanos são assustadores - e talvez o Gonçalo M. Tavares de Canções Mexicanas não seja tão diferente assim...

Canções Mexicanas; Gonçalo M. Tavares - 96 páginas - Relógio D'Água



O menino que mordeu Picasso

Não sei exatamente o que esperava de O menino que mordeu Picasso mas, durante a leitura, o livro pareceu menos do que esperei.
A edição é muito bonita, com ilustrações belíssimas e muitas fotografias, mas tive a impressão de que o livro serve mais à memória - ou ao ego - do Antony Penrose que ao prazer de contar uma história.
Talvez O menino que mordeu Picasso sirva como ponto de partida para semear entre as crianças o desejo pelo conhecimento da arte, pela obra de um artista. Talvez o livro cumpra, assim, um dos objetivos da leitura, que é enxergar o outro - ainda que o outro seja apenas um senhor que viveu próximo a um artista considerado brilhante; um senhor a quem, muito provavelmente por conta da pouca idade, o artista não pôde iluminar.

O menino que mordeu Picasso; Antony Penrose - 48 páginas - Cosac Naify



Claraboia

Há alguns livros do Saramago, por quem sou apaixonada, de que gosto menos. Por isso, mesmo tendo adquirido Clarabóia - com acento - assim que foi lançado, esperei alguns meses até encontrá-lo. E que surpresa maravilhosa Saramago nos deixou!
Vendido como "o livro perdido de José Saramago" (porque sensacionalismo vende e, independente dele, Saramago merece ser ainda mais lido), Clarabóia foi escrito quando o autor tinha menos de trinta anos.
Mesmo permeado por estórias de modos de viver que podem ser considerados subversivos, Clarabóia não é um livro explicitamente político, como outros do autor. Embora pareça diferente dos outros livros do Saramado, é possível ouvir, em cada uma das linhas, ecos do autor que, muito tempo depois de Clarabóia ter sido ignorado por uma editora, viria a receber o prêmio Nobel de literatura.
Clarabóia não é um livro sobre cegueira, sobre a morte da morte, sobre o sistema falho ou sobre religião. É um livro sobre a vida. Estórias de pessoas que vivem em um mesmo edifício ou que têm relações com aqueles que vivem ali. Clarabóia é um livro sobre pessoas vivendo. Um livro sobre pessoas através das quais aprendemos o outro, que só existirá, de fato, se nos dispusermos a observar.

Claraboia; José Saramago - 384 páginas - Companhia das Letras