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9 de jul. de 2013

Libertem a Mulher Forte


Conheci a escrita da Clarissa Pinkola Estés através do seu livro mais famoso, Mulheres que correm com os lobos, que procurei porque alguém disse que é um livro que todas as mulheres interessantes leram ou deveriam ler. Concordo e acrescento que todas as pessoas - e não só mulheres - interessadas pelo conhecimento de si e do outro, e por isso interessantes, deveriam imergir no conteúdo daquelas muitas páginas capazes de transformar o olhar.
Entre o primeiro contato com a escrita da psicanalista, há anos, e o reencontro, a partir da publicação mais recente, passei por todos os outros livros escritos pela autora e recorri aos textos de alguns deles quando escrevi o artigo Mulheres que Desaparecem, que assino com a Maira Begalli e a Flávia Cremonesi.
Para quem não conhece os outros livros escritos pela Clarissa Pinkola Estés, Libertem a Mulher Forte pode parecer, à primeira vista (e à segunda, terceira e quarta), excessivamente religioso; no sentido ruim comumente atribuído ao adjetivo.
A autora utiliza a figura da mãe como representante da força que vive em nós e é manifestada a partir de nós; que, para aqueles que crêem, é a mãe que está também acima de nós.
Como pretendemos que façam todos os bons livros, Libertem a Mulher Forte questiona e perturba, mas pode ser também consolador. Gosto quando a leitura possibilita que a compreensão aconteça sob diferentes pontos de vista, por isso sinto que a leitura de Libertem a Mulher Forte me atingiu de maneira muito particular. Estive na livraria e vi o livro vendido como sendo de religião/cristianismo, mas não foi esse o registro feito pela editora na ficha catalográfica e nem o que encontrei durante a leitura.
Para mim, que sou atéia, o livro trata de um arquétipo - não de um ícone, como pode parecer para outros que o leiam - e fica muito mais interessante quando a autora relata suas experiências como educadora, entre outras bonitas e emocionantes vivências pessoais que aconteceram no decorrer dos anos em que ela percorreu lugares difíceis das almas e dos traumas de muitas mulheres e comunidades.
Depois de anos sem publicar livros inéditos, Clarissa Pinkola Estés continua excelente e tem muito para nos contar.


Libertem a Mulher Forte: O amor da mãe abençoada pela alma selvagem - Clarissa Pinkola Estés - 408 páginas - Rocco

6 de jul. de 2013

Dos amores silentes

Creio que deveríamos, por vezes, abandonar os autores que consideramos nossos e deixar os livros escritos por eles misturados a outras histórias, de modo que as idéias vindas através da música das palavras sejam postas em movimento e, no transbordamento das páginas, tornem-se parte das nossas ações. Despertar do sono um autor muito querido é mais que ressuscitar parte da memória ou colocar-se em permanente estado de encanto - e, embora menos festivo aos olhos dos outros, é mais surpreendente que qualquer efeito de mágica, porque é real. Conhecer novas palavras vindas dos que escreveram nossos livros favoritos é resgatar parte da beleza que atravessa nossas vidas e desejar novas boas vindas àquilo que nos constitui. Reencontrar as palavras de um autor amado é renovar os votos eternos que nos comprometem com o amor próprio. É um modo de, retornando ao vocabulário e às formas admiradas, recuperarmos e trazermos à luz a melhor parte de nós.

9 de jun. de 2012

Oração

A mulher à beira do rio contempla o passar das dores.


Prostrada diante do passado líquido, torno-me o silêncio das pedras, distanciada do arrependimento granuloso das terras inférteis.
Habituada ao olhar que menospreza as pessoas e cacos que emergem da nem sempre límpida água corrente, tateio com frieza os abismos que há muito existem em mim.
Preencho com vazios as ausências, com violência desmedida todas as formas de grosseria. Torno-me corpo da agressividade realizável através das palavras e desejos. Existir é uma sucessão de batalhas vencidas por heróis incendiários de florestas inutilizadas.
Não desejo-me outra. Sei dos meus humores e tédios. Admiro-me sobretudo pela quase inacreditável resiliência que me torna superior.


Um passo à frente, ignorada pelo ódio, imergiu nas águas do esquecimento.

7 de mai. de 2012

Vírgula


Enquanto agonizo, você dorme. A claridade da lua que atravessa as frestas janela é mais consistente que todas as minhas certezas. Estou exausta do que sou. Fui condenada a pesadelos despertos porque parte de mim, talvez entre a pele e os ossos, ou sob as vísceras, se recusa a sonhar.
Não quero desistir dos nomes absurdos que inventamos para os filhos que não teremos e nem dos passeios imaginários por praias abarrotadas que, juntos, abominamos. Não desejo que nossas afirmações sejam submetidas a um único sim - mesmo que, para você, seja sempre e infinitamente sim. Sim.
Não sei como tocar com meus dedos gelados o calor da mão que pousa sobre o meu ombro. Preciso da pele para sabê-lo, de poros e pelos que indiquem o sabor dos descaminhos nossos. Quero o abraço do futuro interminável, estou cansada de recuar. Quero somar nossos livros para dividirmos as bibliotecas e compartilharmos todas as idéias possíveis e sonhos irrealizáveis. Quero dançar descalça sobre as linhas que escreve e decorar as frases, olhares, expressões e gestos que te compõem. Quero me apropriar de tudo aquilo que me oferece, para torná-lo também meu.
Quando você despertar, morta e ressurreta ao terceiro minuto, serei outra. Durante as primeiras horas da segunda-feira de um outono que é quase inverno, saberá que me descobri alguém que deseja que você seja mais que uma mala que, depois da viagem, passa alguns dias decorando minha sala, embaixo do sofá.

12 de abr. de 2012

Amanheceu mais tarde


Amanheceu mais tarde. Não foi pela ausência da sempre magnífica luz solar que pouco depois das seis já atravessa nossas janelas, tampouco em decorrência da perda física que o passar dos segundos transforma em horas intermináveis - como se, condensada, a passagem do tempo pudesse tornar-se um único dia composto por meses e anos que só a controladora maldição humana dos calendários e relógios pôde registrar.
Foi a angústia, manifestada pela ansiedade imobilizadora em confronto com a dança do pensamento, quem me cegou. Ainda tinha os cílios, toda a pele da face e os lábios maquiados no momento em que nos separamos. Usava minha máscara resistente à água quando as pálpebras que cobriam os olhos cansados deixaram de se mover.
Durante a separação, exilamo-nos naquilo que nos unia. Do exterior, apenas a invisível felicidade luminosa dos sons; as nossas músicas, a minha voz que também é sua, a tua voz que descobri ser minha. As similaridades repetidas à exaustão.
Espalhamos papéis, sensações e cores. Tateamos palavras para descobrir novas delícias do inconstante, mas sempre perseguido, estar - que, para nós, sempre pareceu mais divertido que o engessamento do ser. Descobrimos que a frieza congelante que nos envolve seria sempre pouca e pequena para aplacar a calorosa chama que nos une. Convertemos a triste condição de abandono em solidão, musa amada.
Ao fim do menos longo dos dias mais longos, nos reconhecemos ao compartilhar o mesmo espelho. Sob o pôr-do-sol, que torna visível a reciprocidade dos nossos amores, somos eu.

10 de abr. de 2012

Amanhã


Somam-se à pilha de livros ainda não lidos, a de filmes não vistos e a de textos imaginados ou rascunhados, ainda por escrever. As descrições impossíveis e os quase-amores risíveis. A busca pela voz não encontrada e o indesejável eco que, ao resplandecer, [re]dimensiona o vazio que multiplica-se desordenadamente e não tem fim.
Há ainda os abraços não dados e olhos que, enxergando, tornaram-se, por força do tempo e fraqueza poética, incapazes de ver. Misturados às receitas não testadas, as idéias acentuadas e os afagos em desuso. Os braços inúteis no corpo inerte. A maciez da pele abandonada que envolve também as artérias em que circulam os desejos.
Novos modos, velhos medos. Alheia aos temores, abundâncias e períodos escassos: a vida.
Uma saborosa sucessão de clichês.

26 de mar. de 2012

Viver não é preciso

Um dos grandes assombramentos da vida é a constante exposição às intempéries. Viver não é preciso. Estar sujeita a tempestades é um prazer assustador.
É certo que os ventos dissipam os males, mas também deixam um rastro de desordem em tudo aquilo - e entre todos aqueles - que, com o passar dos anos e o aflorar da utilidade, tornou-se essencial.
Ao pobre hábito de sobreviver ao sabor das marés, em uma embarcação silenciosa cada vez mais reduzida, denominou-se amadurecimento.
Os outros, portadores do inferno ambulante que, no passado, lançava-se como luz e tormenta, já não são sequer levados em consideração.
Somos poucos e únicos. Reduzimo-nos a efemeridades.
Somos nenhuns.

12 de mar. de 2012

Vazante

Estou habituada a enviar cartas de papel, mas também envio cartas virtuais. Em uma delas escrevi:

"Há uma grande diferença entre o modo como as pessoas precisam se sentir amadas e a maneira que escolhemos para demonstrar amor. Para encontrar a sincronia precisamos de tempo e sensibilidade, mas nem todo mundo está disposto a isso."
...
"Eu queria muito que o Bauman estivesse errado e que tivesse escrito todos os livros sobre afetos e relações líquidas à toa, mas sei que essa ausência de laços afetivos sólidos (inclusive nas famílias) é uma marca do nosso tempo."
...
"É bem verdade que somos todos sozinhos. Só nós sabemos sobre absolutamente tudo que vivenciamos e somos a única companhia certa pra nós mesmos até o último dos nossos dias. Parece cruel ou negativo, mas é assim."

A carta foi recebida no dia 12 de dezembro e, ainda que fizesse parte de uma troca relativamente recente, mas constante, não foi respondida.

Bauman venceu.

11 de fev. de 2012

Sobre: viver

Constrói a exatidão do movimento com a delicadeza do gesto. Iluminasce a partir dos ossos até que, através dos músculos, seja tornado alma, âmago, ânima... ar.
Dançar é sentir o solo sob os pés e afastar-se dele a partir dos joelhos.
Existir é impulso. Ser é possuir no corpo toda música percebida pelas pontas dos dedos das mãos.
Tateia os dias como o desabrochar das orquídeas que lentamente devolvem ao mundo a infinita beleza das cores.
Enxerga e aceita a imprecisão do tempo:
a isso denomina [sobre]viver.

21 de jan. de 2012

Urgência

Avessa às eternidades, agorifico: meu tempo é hoje. Preciso continuar acreditando na beleza como força construtora e base para novos mundos. Sou frágil, admito. Tornei-me facilmente diluível, já não sou inflamável. Aprendi a ausentar-me quando, ferida e apequenada, torno-me objeto do meu próprio espanto, muitas vezes indigno da minha admiração.
Sobrevivo às intempéries sem delas conhecer as consequências, mas não sou invencível. Sou como o galho amolecido que, ao sabor dos ventos, permite-se e enverga, enquanto saboreia a vitória sobre o tempo que um dia haverá de consumi-lo, tornando-o inutilizado e morto, quando a sorte, essa palavra preciosa, o abandonar.
Conto sementes com as quais pretendo encantar a terra nem sempre fértil. Já não separo as contas de vidro e as pedras que encontro pelo caminho, mas insisto em reter a areia fina, para tornar críveis as vivências e experiências que um dia, quando tornarmos a dançar ao redor do fogo, compartilharei através do movimento que não cessa.
Sou cavalo alado e fogo-fátuo. Germinar do nada insaciável, rente aos inúmeros precipícios, que consome e transmuta os que dele se aproximam. Sou a pele aquecida sob a doçura dos dias que, apesar de nublados, amanhecem belos e multiplicantes das possibilidades que existem entre as nuvens densas e o chão.
Creio bem pouco no mundo e na humanidade, é verdade. Cerco-me de animais humanos grandiosos e admiráveis. Idealistas, sonhadores e loucos: os que não usam máscaras. Pessoas que, como eu, sorriem e, porque questionam, sofrem. Espelhos e norte. Partes dispersas do que tenho me tornado. Pedras fundamentais de tudo o que quero ser.

29 de dez. de 2011

"As palavras pedra ou faca ou maçã, palavras concretas, são bem mais fortes, poeticamente, do que tristeza, melancolia ou saudade. Mas é impossível não expressar a subjetividade. Então, a obrigação do poeta é expressar a subjetividade mas não diretamente. Ele não tem que dizer eu estou triste. Ele tem é que encontrar uma imagem que dê idéia de tristeza ou do estado de espírito - seja ele qual for - por meio de palavras concretas e não simplesmente se confessando na base do eu estou triste."

João Cabral de Melo Neto

28 de dez. de 2011

Me atraio, sobretudo, pelo que não me diz respeito. Pelo brilho multicor e pela profundidade das sombras do desconhecido. Sou guiada pela saborosa descoberta da virgindade de tudo aquilo que ainda não sou eu.
Com a pele nua, tateio as ásperas estranhezas do que posso tornar parte de mim: tudo.

17 de dez. de 2011

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Faço poesia com palavra morta e aceito pagamento em mãos.
A vida não está fácil, você sabe. Plantamos as palavras e, quando menos esperamos, o vento leva, as pragas corroem, as águas conduzem para rios que alagam represados, e a palavra dispersa se desfaz liquefeita - o que a torna inútil para os que amam, embora mais valorizada comercialmente.
Vendem palavras para os porcos que fuçam o desconhecido enquanto nós nos engasgamos e quebramos os dentes mastigando pérolas.
Moldo palavras entre os dedos e guardo seus restos dourados no que resta das cutículas. Degusto sobras de palavras limpando os dedos com a língua, passando as unhas entre os dentes.
Palavra é coisa que nasce mole e, endurecida, eterniza-se companheira da solidão.

18 de nov. de 2011

No mar de barcos sem flores, o céu dos céticos. Sobre o largo movimentar das ondas, imensidão.
Olhos do silêncio cego: a fuga e o afago. A força física e o vigor dos corpos que somos nós.
Nós.
Os piratas imberbes desconhecem a quaseternidade dos ossos. Ignoram o sussurrar inaudível que acalanta o coração.
Havia motivos de sobra para ficar. O calor da pele e o conforto das palavras. A leveza. A doçura e a surpresa simulada no não raro encontro com o olhar.
Havia sonhos únicos e palavras muitas. Alegria. Havia braços, pernas e mãos.
Percorreu os descaminhos com pés descalços; a passos firmes, despedidas breves.
Acariciou cada uma das paredes lentamente, como se as apreendesse com as palmas das mãos. Sorriu para o pé direto alto como se isso os assemelhasse em grandeza; como se o gesto possibilitasse a retenção da lembrança e o movimento fosse garantia de exatidão.
Dançou o espaço e perdeu-se no vento. Através das portas e janelas abertas, tornou-se ar.
Vaga dispersa e livre. Leva as chaves no bolso, mas não volta.
Entre a fugacidade dos sóis alheios, encontrou abrigo para o pulsar alegre da solidão.

6 de jul. de 2011

Biografia do Saramado, mais uma. Sagarana, do Guimarães Rosa; haverá um dia lindo e faremos amor quando meus neologismos finalmente encontrarem os seus. O Mal de Montano, Enrique Vila-Matas, que é sempre bom de ler; dizem que escreve para escritores, mas sinto que escreve para mim. Contos dos Irmãos Grimm, da Clarissa Pinkola Estés, sempre presente na cabeceira e na vida - a autora, não esse livro, que ainda não li, mas vi que tem um dos mais belos projetos gráficos e ilustrações. Aprendendo a Viver, da Clarice, que só quando comecei a ler descobri que é a republicação das melhores crônicas publicadas em A Descoberta do Mundo, que ganhei do meu pai, com dedicatória e tudo, e já li há séculos. Deve haver algum motivo para que os textos tenham voltado para mim. Descobrirei. Contra um Mundo Melhor, Luiz Felipe Pondé; conheci o autor em um café filosófico e gostei do título. A arte do livro é belíssima também. E, finalmente, a Viagem a Portugal; por ora, no livro do Saramago, que lerei aos poucos, com medo de acabar. Algumas das palavras que penetram na carne terminam na pele.
Férias escolares, primeiro dia.

23 de nov. de 2010

Somadas e multiplicadas através das reflexões, as idéias, com acento e nem sempre saudáveis, permanecem incessantes. Durante a silenciosamente perigosa dança da imaginação, penso em prazeres que não deveriam existir para que eu pudesse sabê-los objetos inúteis e por isso imunes à absurdez das paranóias particulares.


































Banhos muito quentes, por exemplo.