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1 de out. de 2013


você pintou as paredes e chamou de adorno o vaso com flores de plástico. você instalou as cortinas e,  para poupar minhas unhas recém-pintadas, limpou todos os cômodos da casa. você organizou meu caos e arrumou meus livros na estante. você tentou me ensinar física quântica enquanto aprendia a cozinhar. você me olhava enquanto eu dormia e me acordava com um sorriso. você não combinava com os lençóis da minha cama e não estava no ventre crescente. quando você foi embora já era tarde. você foi embora tarde demais.

29 de dez. de 2012

Positivo

Bateu a porta.
Espalhados pelo chão, rastros e restos. Papéis e letras despedaçados, cacos dos vasos jamais floridos, respingos alcoólicos, marcas de passos leves e brevidades; fragmentos de amanhãs em estilhaços de ilusão.
Sobre a mesa ainda posta, duas taças com vinho. A da esquerda, intacta.

9 de jul. de 2012

Suposição

À distância, observo os braços que se agitam em sufocantes acenos desesperados. Olho para a bela figura com respeito e admiração, com carinho afetuoso e ternura, sem condescendência.
Suponho que tenha sido um daqueles a quem o pai presenteou com bolas, soldados, patins, skates, bicicletas e os brinquedos todos. Dono dos jogos de futebol, dos melhores videogames e também da fragilidade dos colegas do bairro. Líder de muitas outras vidas, o dono da rua.
Suponho que tenha sido o neto mais bonito da vovó e o mais inteligente para o avô, velho poeta a quem os mais próximos chamavam mestre. Que tenha sido o que ostentava as melhores notas da classe, o melhor da escola e dos esportes nos quais se aventurou, também é uma suposição.
Suponho que sorri exibindo a perfeição das arcadas dentárias e que, quando as muitas saudades transbordam, lacrimeja. Que transpira, saliva, e que, eventualmente, espirra e tosse, como todos nós. Suponho que seja um príncipe estranho a todas as nobrezas, membro isolado de uma numerosa e pulverizada casta ainda desconhecida.
Abraçado pelo pequeno mundo de pernas, braços, mãos e palavras várias, um menino. Um menino, só.

9 de jun. de 2012

Oração

A mulher à beira do rio contempla o passar das dores.


Prostrada diante do passado líquido, torno-me o silêncio das pedras, distanciada do arrependimento granuloso das terras inférteis.
Habituada ao olhar que menospreza as pessoas e cacos que emergem da nem sempre límpida água corrente, tateio com frieza os abismos que há muito existem em mim.
Preencho com vazios as ausências, com violência desmedida todas as formas de grosseria. Torno-me corpo da agressividade realizável através das palavras e desejos. Existir é uma sucessão de batalhas vencidas por heróis incendiários de florestas inutilizadas.
Não desejo-me outra. Sei dos meus humores e tédios. Admiro-me sobretudo pela quase inacreditável resiliência que me torna superior.


Um passo à frente, ignorada pelo ódio, imergiu nas águas do esquecimento.

7 de mai. de 2012

Vírgula


Enquanto agonizo, você dorme. A claridade da lua que atravessa as frestas janela é mais consistente que todas as minhas certezas. Estou exausta do que sou. Fui condenada a pesadelos despertos porque parte de mim, talvez entre a pele e os ossos, ou sob as vísceras, se recusa a sonhar.
Não quero desistir dos nomes absurdos que inventamos para os filhos que não teremos e nem dos passeios imaginários por praias abarrotadas que, juntos, abominamos. Não desejo que nossas afirmações sejam submetidas a um único sim - mesmo que, para você, seja sempre e infinitamente sim. Sim.
Não sei como tocar com meus dedos gelados o calor da mão que pousa sobre o meu ombro. Preciso da pele para sabê-lo, de poros e pelos que indiquem o sabor dos descaminhos nossos. Quero o abraço do futuro interminável, estou cansada de recuar. Quero somar nossos livros para dividirmos as bibliotecas e compartilharmos todas as idéias possíveis e sonhos irrealizáveis. Quero dançar descalça sobre as linhas que escreve e decorar as frases, olhares, expressões e gestos que te compõem. Quero me apropriar de tudo aquilo que me oferece, para torná-lo também meu.
Quando você despertar, morta e ressurreta ao terceiro minuto, serei outra. Durante as primeiras horas da segunda-feira de um outono que é quase inverno, saberá que me descobri alguém que deseja que você seja mais que uma mala que, depois da viagem, passa alguns dias decorando minha sala, embaixo do sofá.

28 de mar. de 2010

Sereia

Piracemando multiplicavam-se entre as distantes margens do límpido rio fartamente iluminado mesmo nas mais nubladas estações. Porque eram peixes, nadavam. Acardumavam-se de acordo com as afinidades pela biologia explicáveis e aceitavam em seus cardumes outros não-afins talvez explicados pela sempre misteriosa natureza.
Porque nadavam, sobreviviam. Venciam em pequenos ou grandes grupos os não raros trechos de águas caudalosas. Fugiam do perigo das iscas e da ameaçadora facilidade das grandes redes; em dias chuvosos, refocilavam. Das espinhas às escamas, guelras e nadadeiras, eram plural felicidade. Ainda assim, alguns deles, frequentemente deslumbrados, acreditando ousar, se desgarravam.
Debatendo-se em uma quase-poça, restante da última cheia, Sereia foi encontrada pelos pescadores com a cabeça ainda imersa nas águas turvas que seus inexpressivos olhos de peixe tomavam como profundidade. Foi levada, louvada, lavada e limpa. Em postas, jaz despedaçada, já fria e assada, sobre a amanhecida mesa do jantar.