Ou De saberes
Em água fria e vinagre refocilavam as cenouras, os brócolis e o pimentão, vez por outra olhando de soslaio a enigmática vagem desconfiada. Aguardavam cada um a sua vez de, durante a ducha que leva os resíduos, serem tocados suavemente por mãos carinhosas e delicadas. Eram inúmeros e multicolores, todos eles dispostos sobre a bancada que a terna luz solar do prenúncio de primavera iluminava.
Sorriam as batatas já sem casca, experimentando a nudez desconhecida, deslizando graciosamente entre os corpos umas das outras. Tomates brilhavam pequenas bolas escarlate; e picados, miudinhos, repousavam um só, amorfo, na grande tigela de vidro azul-celeste.
O cheiro-verde, sentindo a água que tocava seus joelhos, farfalhava salsas e cebolinhas aos pares, bailando como encantado a valsa conduzida pela leve brisa úmida que, depois de acariciar as violetas brancas e roxas no parapeito, perpassava a grande janela sob o vitral.
Às quase onze de inverno, o azeite era calor sonoro enquanto a cebola recém-transparente preparava-se para dourar.
A cutela ainda virgem descansa solitária, em paz eterna, na última gaveta, sob a sombra poeirenta que alcança o chão. Condenada ao esquecimento, não inspira piedade.
Aqui não matamos porcos.
23 de setembro de 2008, no meu falecido blogue Rango na Madrugada.
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21 de ago. de 2013
17 de jul. de 2013
Quinta-feira, Abril 02, 2009
A dor que não doía nos ossos, músculos ou pele; a dor que excedia a carne amanheceu desperta pela atípica luz quase fria do verão: realidade. Tortuosa estrada de rumos incertos e sem retorno, margeada por sombrios bosques de abandono e pelo podre oceano além-abismo do desespero. Consciente, dissolve-se no absurdo a que se acorrenta. Contando inúmeros e resistentes elos inquebráveis, mergulha no profundo azul insípido, frágil e sem beleza. Aperta com força cacos pontiagudos entre as mãos. Se esvai carmim com a brisa pouca, quase ridícula. Brilho líquido, entorna o cálice. Olhos cerrados, exige de volta a ignorância. Desconhece. Tateia a brasa que logo cede flamejante. Em chamas, deseja o nada - quer agora a confortável escuridão.
3 de jul. de 2013
Inúteis
A Metamorfose
Sim, Gregor Samsa, somos nada. Depois de nos julgarmos o ponto central, o eixo sobre o qual circunda o universo infinito e o além, somos nada. Somos menos que o pó. Para os desesperados, preguiçosos, vagabundos e parasitas, somos nada. E só nos percebemos desnecessários quando, tarde demais, vimos suas costas. Já longe. A uma distância inalcançável. Tarde demais.
No princípio da transformação, o assombro, o asco, o desamor e a ignorância. O medo da diferença. O pavor e a discriminação. Nojo daquilo que é familiar. Nojo do que, por semelhança e identificação interna, torna repugnante o que foi belo. Desamor, Gregor Samsa. Indiferença.
Descobrimo-nos não o centro, a base ou o botão de liga-e-desliga. Não somos o suporte ou sequer a consciência. Somos nada. Terminamos sozinhos, Gregor.
Juntaram nossos restos mortais e deles se livraram. As peças restantes se sobrepõem. Sem nós, a engrenagem continua a funcionar.
Escrito por mim e originalmente publicado no falecido blogue Rango na Madrugada, no dia 03 de outubro de 2007.
Sim, Gregor Samsa, somos nada. Depois de nos julgarmos o ponto central, o eixo sobre o qual circunda o universo infinito e o além, somos nada. Somos menos que o pó. Para os desesperados, preguiçosos, vagabundos e parasitas, somos nada. E só nos percebemos desnecessários quando, tarde demais, vimos suas costas. Já longe. A uma distância inalcançável. Tarde demais.
No princípio da transformação, o assombro, o asco, o desamor e a ignorância. O medo da diferença. O pavor e a discriminação. Nojo daquilo que é familiar. Nojo do que, por semelhança e identificação interna, torna repugnante o que foi belo. Desamor, Gregor Samsa. Indiferença.
Descobrimo-nos não o centro, a base ou o botão de liga-e-desliga. Não somos o suporte ou sequer a consciência. Somos nada. Terminamos sozinhos, Gregor.
Juntaram nossos restos mortais e deles se livraram. As peças restantes se sobrepõem. Sem nós, a engrenagem continua a funcionar.
Escrito por mim e originalmente publicado no falecido blogue Rango na Madrugada, no dia 03 de outubro de 2007.
11 de abr. de 2013
Tato
na febre o fio do ócio queima. fita. mira com olhos míopes a irônica realidade. reata com absurdez todos os nós. cegos. escorados na expectativa abortada, absortos, esperam. criam raízes caule e folhas. frutos. arvoredos e se, mentes. do difuso dilacerante inexato o irrevogável: estorvo.
29 de dez. de 2012
Positivo
Bateu a porta.
Espalhados pelo chão, rastros e restos. Papéis e letras despedaçados, cacos dos vasos jamais floridos, respingos alcoólicos, marcas de passos leves e brevidades; fragmentos de amanhãs em estilhaços de ilusão.
Sobre a mesa ainda posta, duas taças com vinho. A da esquerda, intacta.
Espalhados pelo chão, rastros e restos. Papéis e letras despedaçados, cacos dos vasos jamais floridos, respingos alcoólicos, marcas de passos leves e brevidades; fragmentos de amanhãs em estilhaços de ilusão.
Sobre a mesa ainda posta, duas taças com vinho. A da esquerda, intacta.
17 de ago. de 2012
Quinta-feira, Março 05, 2009
Os bons-dias
ou Um presente
Herdeiros do vento, despidos de todos os preconceitos, preceitos e de todas as inúteis vaidades, há muito renderam-se ao tempo e suas intempéries. Exploradores da realidade pétrea, idealizam com luminosidade radiante as inúmeras possibilidades do porvir que inevitavelmente os alcança segundos após a conclusão do pensamento tornado pretérito ao transformar-se em palavras.
Satisfazem-se ao desvelar cada um dos secretos anseios compartilhados. Alegram-se nas doces pequenezas em que convergem as existências paralelas sulcadas pelas distinções. Olhares e tato contemplam, contentes, a inteireza da realidade. Sorriem diante de mais um alvorecer e, ao entrelaçar os dedos das mãos, adormecem.
Sobre a íntegra brancura das açucenas, como sob a ensolarada e límpida margem fértil do rio, amanhece azul.
ou Um presente
Herdeiros do vento, despidos de todos os preconceitos, preceitos e de todas as inúteis vaidades, há muito renderam-se ao tempo e suas intempéries. Exploradores da realidade pétrea, idealizam com luminosidade radiante as inúmeras possibilidades do porvir que inevitavelmente os alcança segundos após a conclusão do pensamento tornado pretérito ao transformar-se em palavras.
Satisfazem-se ao desvelar cada um dos secretos anseios compartilhados. Alegram-se nas doces pequenezas em que convergem as existências paralelas sulcadas pelas distinções. Olhares e tato contemplam, contentes, a inteireza da realidade. Sorriem diante de mais um alvorecer e, ao entrelaçar os dedos das mãos, adormecem.
Sobre a íntegra brancura das açucenas, como sob a ensolarada e límpida margem fértil do rio, amanhece azul.
10 de jan. de 2012
Quinta-feira, Julho 09, 2009
É quando faz mais frio que, nua, corro contra o vento gelado. Me agrada a sensação de ter brisa cortando a carne enquanto congela os ossos que, frágeis, preparam-se para as mais graves fraturas. Míope, sigo em frente às cegas. Os ressecados globos oculares e suas pupilas dilatadas tornam-se tão inúteis quanto os pulmões já exauridos em ares irrespiráveis.
Vou às baixas temperaturas como quem precisa sentir os pés descalços enquanto caminha não sobre brasas, mas sobre as chamas incandescentes nas quais acumula-se a malcheirosa carne queimada.
Submeto-me ao amoral sacrifício indecoroso de ser como aqueles que, despidos, têm ainda menos que o nada anterior. Mergulho no abismo não porque a fuga me conforta, mas porque a iminência do fim, ao me fazer plena, me distancia da morte.
Ao doer, me exponho para não adoecer.
Vou às baixas temperaturas como quem precisa sentir os pés descalços enquanto caminha não sobre brasas, mas sobre as chamas incandescentes nas quais acumula-se a malcheirosa carne queimada.
Submeto-me ao amoral sacrifício indecoroso de ser como aqueles que, despidos, têm ainda menos que o nada anterior. Mergulho no abismo não porque a fuga me conforta, mas porque a iminência do fim, ao me fazer plena, me distancia da morte.
Ao doer, me exponho para não adoecer.
15 de set. de 2010
18 de jun. de 2010
Primeira Impressão
Escrito por mim e publicado no meu antigo blog, Rango na Madrugada, em 29 de novembro de 2005, logo depois do primeiro contato com um dos livros daquele com quem descobri um novo amar.
VÍRGULA
Ele fala vírgula Ela responde vírgula Surge então um pensamento dele vírgula O narrador interrompe vírgula ambos dão início à ação vírgula Ele fala novamente vírgula Ela pensa em falar, mas não fala vírgula O narrador conclui a frase ponto final
Assim, em meio às vírgulas que separam diálogos, idéias, pensamentos e atos, me vejo imersa pela primeira vez no universo de Saramago. A Língua Portuguesa de Portugal é encantadora, a narrativa é genial, mas a ousadia das vírgulas me encantou. Elas imprimem ritmo ao texto, aguçam minha curiosidade, tornam a leitura instigante e a viagem ainda mais prazerosa.
A vírgula, encantador elemento sintático que poucos sabem usar e muitos acreditam ser uma simples indicação de pausa, pode mudar o sentido de uma frase, de uma oração, de toda uma narrativa. Por muitos é usada com parcimônia, mas baila com inteligência e sabedoria pelo livro Ensaio Sobre a Cegueira, de Saramago.
A vírgula enfatiza, prepara, ameniza, separa. E talvez agora exprima a distância que existe entre mim e você, que está a ler este breve devaneio; apenas uma vírgula.
Entre tantos outros marcos, parte significativa da minha vida pode ser dividida em antes e depois dele.
Obrigada, José Saramago.
VÍRGULA
Ele fala vírgula Ela responde vírgula Surge então um pensamento dele vírgula O narrador interrompe vírgula ambos dão início à ação vírgula Ele fala novamente vírgula Ela pensa em falar, mas não fala vírgula O narrador conclui a frase ponto final
Assim, em meio às vírgulas que separam diálogos, idéias, pensamentos e atos, me vejo imersa pela primeira vez no universo de Saramago. A Língua Portuguesa de Portugal é encantadora, a narrativa é genial, mas a ousadia das vírgulas me encantou. Elas imprimem ritmo ao texto, aguçam minha curiosidade, tornam a leitura instigante e a viagem ainda mais prazerosa.
A vírgula, encantador elemento sintático que poucos sabem usar e muitos acreditam ser uma simples indicação de pausa, pode mudar o sentido de uma frase, de uma oração, de toda uma narrativa. Por muitos é usada com parcimônia, mas baila com inteligência e sabedoria pelo livro Ensaio Sobre a Cegueira, de Saramago.
A vírgula enfatiza, prepara, ameniza, separa. E talvez agora exprima a distância que existe entre mim e você, que está a ler este breve devaneio; apenas uma vírgula.
Entre tantos outros marcos, parte significativa da minha vida pode ser dividida em antes e depois dele.
Obrigada, José Saramago.
28 de mar. de 2010
Sereia
Piracemando multiplicavam-se entre as distantes margens do límpido rio fartamente iluminado mesmo nas mais nubladas estações. Porque eram peixes, nadavam. Acardumavam-se de acordo com as afinidades pela biologia explicáveis e aceitavam em seus cardumes outros não-afins talvez explicados pela sempre misteriosa natureza.
Porque nadavam, sobreviviam. Venciam em pequenos ou grandes grupos os não raros trechos de águas caudalosas. Fugiam do perigo das iscas e da ameaçadora facilidade das grandes redes; em dias chuvosos, refocilavam. Das espinhas às escamas, guelras e nadadeiras, eram plural felicidade. Ainda assim, alguns deles, frequentemente deslumbrados, acreditando ousar, se desgarravam.
Debatendo-se em uma quase-poça, restante da última cheia, Sereia foi encontrada pelos pescadores com a cabeça ainda imersa nas águas turvas que seus inexpressivos olhos de peixe tomavam como profundidade. Foi levada, louvada, lavada e limpa. Em postas, jaz despedaçada, já fria e assada, sobre a amanhecida mesa do jantar.
Porque nadavam, sobreviviam. Venciam em pequenos ou grandes grupos os não raros trechos de águas caudalosas. Fugiam do perigo das iscas e da ameaçadora facilidade das grandes redes; em dias chuvosos, refocilavam. Das espinhas às escamas, guelras e nadadeiras, eram plural felicidade. Ainda assim, alguns deles, frequentemente deslumbrados, acreditando ousar, se desgarravam.
Debatendo-se em uma quase-poça, restante da última cheia, Sereia foi encontrada pelos pescadores com a cabeça ainda imersa nas águas turvas que seus inexpressivos olhos de peixe tomavam como profundidade. Foi levada, louvada, lavada e limpa. Em postas, jaz despedaçada, já fria e assada, sobre a amanhecida mesa do jantar.
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