É quando faz mais frio que, nua, corro contra o vento gelado. Me agrada a sensação de ter brisa cortando a carne enquanto congela os ossos que, frágeis, preparam-se para as mais graves fraturas. Míope, sigo em frente às cegas. Os ressecados globos oculares e suas pupilas dilatadas tornam-se tão inúteis quanto os pulmões já exauridos em ares irrespiráveis.
Vou às baixas temperaturas como quem precisa sentir os pés descalços enquanto caminha não sobre brasas, mas sobre as chamas incandescentes nas quais acumula-se a malcheirosa carne queimada.
Submeto-me ao amoral sacrifício indecoroso de ser como aqueles que, despidos, têm ainda menos que o nada anterior. Mergulho no abismo não porque a fuga me conforta, mas porque a iminência do fim, ao me fazer plena, me distancia da morte.
Ao doer, me exponho para não adoecer.
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10 de jan. de 2012
18 de jul. de 2011
Admiração
Das muitas atitudes humanamente imperfeitas, poucas são mais belas que a sinceridade. Bendito seja o sim absoluto e inquestionável, acompanhado pela troca de olhares e pela proximidade dos lábios que não admitem o detestável sabor do talvez. Louvado seja o não, ainda que passageiro, dito com alguma graça e toda a leveza possível, explorando o toque suave da brevidade da negativa.
Que, apesar das discrepâncias e acima dos pré-conceitos, aconteçam os encontros. Que possamos ser melhores aos nossos olhos para não sofrer ao contemplar o espelho revelado a partir do olhar alheio. Que a capacidade de acolher sobreponha a urgência dos julgamentos quase sempre equivocados.
Para que possamos ser maiores a ponto de nos virmos infinitamente pequenos quando descobrirmos que somos todos um só; que, através de nós, revele-se e reverbere do outro tudo aquilo que é digno de admiração.
Que, apesar das discrepâncias e acima dos pré-conceitos, aconteçam os encontros. Que possamos ser melhores aos nossos olhos para não sofrer ao contemplar o espelho revelado a partir do olhar alheio. Que a capacidade de acolher sobreponha a urgência dos julgamentos quase sempre equivocados.
Para que possamos ser maiores a ponto de nos virmos infinitamente pequenos quando descobrirmos que somos todos um só; que, através de nós, revele-se e reverbere do outro tudo aquilo que é digno de admiração.
11 de mai. de 2010
Fratura Exposta
Um erro conduz a outro erro e este, inevitavelmente, conduz a uma infinita cadeia crescente, repleta de erros sem fim.
Trabalho como quem suporta o peso de muitas pedras sobre a fragilidade do dorso; também por isso preciso habituar-me ao erro. Para correr riscos e acumular oportunidades conquistadas preciso estar disposta a assimilar o convívio com os erros que, à maneira de todas as outras sombras e aflições, encontrarei pelo caminho que desejo longo e pedregoso.
Seria fácil conviver com os erros se eles não fossem julgados; se eu não fosse julgada a partir deles. Seria simples se os incapazes de correr os riscos e os infelizes não estivessem à espreita, aguardando o anúncio de mais um erro para descarregar em mim as frustrações que mantêm em suas armas sempre engatilhadas. Sou um alvo dócil, quase receptivo. Talvez errar fosse mais fácil se eu não me soubesse tanto, se não conhecesse cada uma das dores de estar em mim. Sei, por exemplo, que não sou uma ilha. E saber-me percebida de modo equivocado é uma das maneiras mais fáceis de paralisar.
Mesmo que Sartre tenha razão e sejam eles o inferno, não há outra fuga que não a arte. Não há em mim outro caminho possível além das palavras e do movimento. Logo eles, tão singulares, meios em que não existem probabilidades matemáticas que subtraiam os riscos da incompreensão.
Aprendi, durante os últimos trinta anos, alguma coisa sobre [falta de] talento e idiossincrasias. Aprendi também sobre o trabalho e a persistência. Sobre amor e dedicação. Sobre a alegria da dedicação quando há amor ao trabalho.
Talvez consiga dedicar os próximos trinta a correr riscos enquanto, em vão, procuro compreender a multiplicidade dos erros sem explicação, que são todos. Errando mais, talvez aprenda a me divertir com eles, depois que a tristeza – inevitável – passar.
Trabalho como quem suporta o peso de muitas pedras sobre a fragilidade do dorso; também por isso preciso habituar-me ao erro. Para correr riscos e acumular oportunidades conquistadas preciso estar disposta a assimilar o convívio com os erros que, à maneira de todas as outras sombras e aflições, encontrarei pelo caminho que desejo longo e pedregoso.
Seria fácil conviver com os erros se eles não fossem julgados; se eu não fosse julgada a partir deles. Seria simples se os incapazes de correr os riscos e os infelizes não estivessem à espreita, aguardando o anúncio de mais um erro para descarregar em mim as frustrações que mantêm em suas armas sempre engatilhadas. Sou um alvo dócil, quase receptivo. Talvez errar fosse mais fácil se eu não me soubesse tanto, se não conhecesse cada uma das dores de estar em mim. Sei, por exemplo, que não sou uma ilha. E saber-me percebida de modo equivocado é uma das maneiras mais fáceis de paralisar.
Mesmo que Sartre tenha razão e sejam eles o inferno, não há outra fuga que não a arte. Não há em mim outro caminho possível além das palavras e do movimento. Logo eles, tão singulares, meios em que não existem probabilidades matemáticas que subtraiam os riscos da incompreensão.
Aprendi, durante os últimos trinta anos, alguma coisa sobre [falta de] talento e idiossincrasias. Aprendi também sobre o trabalho e a persistência. Sobre amor e dedicação. Sobre a alegria da dedicação quando há amor ao trabalho.
Talvez consiga dedicar os próximos trinta a correr riscos enquanto, em vão, procuro compreender a multiplicidade dos erros sem explicação, que são todos. Errando mais, talvez aprenda a me divertir com eles, depois que a tristeza – inevitável – passar.
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