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25 de out. de 2013

24-10-2013


na televisão a mãe reclama seis mil e quinhentos reais gastos na festa de aniversário da filha, que não aconteceu porque o tio da menina morreu baleado na edgar facó. vejo no youtube o lançamento do single do Criolo, que fala sobre a realidade porque canta o mundo que, mesmo ignorado pela maioria, é real. lembro das crianças da periferia que me recebiam nas aulas de dança e das nossas impossibilidades. penso em como era difícil dizer aos pais que os filhos deveriam tomar banho e pentear os cabelos nos dias de festa. sim, nos dias de festa, que são aqueles dias em que nos queremos melhores que o habitual. volto a prestar atenção na tv, onde agora um homem quer a segunda metade do dinheiro da venda de uma lancha que custou mais de cem mil reais. hoje acordei amarga e logo cedo compartilhei com uma amiga o meu amargor. normalmente sou esperançosa, mas a humanidade é um experimento mal executado no qual é cada vez mais difícil acreditar.

1 de out. de 2013


você pintou as paredes e chamou de adorno o vaso com flores de plástico. você instalou as cortinas e,  para poupar minhas unhas recém-pintadas, limpou todos os cômodos da casa. você organizou meu caos e arrumou meus livros na estante. você tentou me ensinar física quântica enquanto aprendia a cozinhar. você me olhava enquanto eu dormia e me acordava com um sorriso. você não combinava com os lençóis da minha cama e não estava no ventre crescente. quando você foi embora já era tarde. você foi embora tarde demais.

28 de set. de 2013

Carpe Diem

Chegou apressado à rodoviária. Perdeu a passagem. Perdeu o primeiro dos dois ônibus daquele dia. Perdeu o ônibus das dez. Dia quente. Uma cerveja e um pão de queijo. Uma água de coco. Cinco horas de espera. A garota de vestido azul sentada à sua frente. O vestido azul e os olhos verdes. Os olhos verdes e cabelos negros encaracolados. Palavras tatuadas no tornozelo direito. Os sorrisos. A troca de olhares. Não queria ser devorado, por isso procurou o celular. Dez segundos. Um minuto, talvez. A garota já não estava.
Faltavam quinze minutos para a saída do segundo ônibus quando os televisores do saguão de espera mostraram o acidente. O ferro retorcido da cabine do ônibus daquela manhã. Pedras, um caminhão e um barranco. Vidros quebrados. Motorista morto. Silêncio. Nenhum passageiro havia sobrevivido. Close na sapatilha brilhante. "Carpe Diem". A barra do vestido azul.

17 de set. de 2013


tocar a pedra do amor e nela afundar, um por um, todos os dedos. permitir que o amor atravesse poros e peles. que atinja os músculos e envolva os ossos e órgãos frágeis. ser forte e firme. tornar-se estável. sentir-se amado para construir um novo corpo: ser indolor.

28 de ago. de 2013

quero e sei que devo, mas não posso. em respeito às ordens do corpo, multiplico nãos quando preciso dizer sim. tenho órgãos e ossos que, me pertencendo, me anulam enquanto dividida entre desejo e possibilidade. tenho estado impossível. se fosse fiel aos sinais do universo, estaria lá. ou teria estado tanto lá a ponto de ter me perdido. ou perdido a minha graça. ou de ter sido descoberta uma farsa, daquelas que decepcionam ao milésimo olhar, na primeira palavra dita durante os três primeiros segundos do quarto mês.

17 de ago. de 2013

dançamos como se, ao som da cítara, nossos corpos se manifestassem em uníssono. como se os movimentos ocultassem o que as palavras não ditas e expressões malditas revelam sobre as relações esquartejadas. cerramos nossos olhos para obedecer ao ritmo, como se a melodia sobreposta à ausência do essencial e a música envolvente, aguçando os sentidos, apurassem o olhar. encenamos a alegria como se, diferentes dos outros, já não fôssemos transparentes. teatralizamos a felicidade para ocultar a dor de estarmos solitários entre nós.

5 de ago. de 2013

Das notícias

Ser negro ainda é notícia. Ser mulher ainda é notícia. Ser mulher bonita é notícia. Ser mulher feia é notícia. Ser muito jovem é notícia. Ser velho demais (quem é velho demais?) é notícia também. Talvez SER seja a maior notícia no mundo que considera que o ideal é ESTARMOS todos iguais.

Resposta a um desabafo escrito pela Cláudia, no blogue Mau Feitio, que é sempre ótimo.

2 de ago. de 2013

Muletas

Não escrever deveria ser libertador, mas é um fardo tão pesado quanto fazê-lo. É como perder um membro; logo depois da amputação você sabe e vê que ele já não existe, mas ainda sente como se ele estivesse no mesmo lugar - por isso acontecem tantas quedas entre aqueles que por vezes esquecem que já não têm uma das pernas e procuram apoio no vazio.
Adaptamo-nos a tudo, inclusive às mais dolorosas ausências. Há inúmeras outras maneiras de caminhar.

30 de jul. de 2013

: derrelição

há pessoas que dizem fazer o que não fazem. que assinam o que não escrevem. pessoas quebrando promessas vazias e as caras umas das outras. há pessoas quebrando a cara. pessoas imundas e nocivamente vaidosas. pessoas imersas num oceano de mentiras. há mentiras terríveis, faltas graves. muitos caminhos áridos para as mãos. não temos a força das raízes e nem a grandeza das copas das menores árvores. respiramos mal em um mundo indigesto. um mundo de crueldade em que só os piores podem triunfar.

24 de jul. de 2013

(In)capacidades

Sou capaz de compreender os que têm fé e os que cultuam os próprios demônios. Compreendo que quase todos os que alimentam demônios acreditem que os tormentos sejam produzidos pelo entorno, sempre no exterior de si. Compreendo até mesmo as pessoas que fazem da ostentação uma cultura e do acúmulo de posses a única possibilidade. Procuro ser compreensiva com aqueles que preferem o entretenimento em detrimento da arte. Sou capaz de compreender os que preferem se abster de arte, sobretudo os que têm bons argumentos para justificar tal abstenção - porque são, inconscientemente, artistas. Mas não há nada no mundo que me torne capaz de compreender a imobilidade mantida diante do sofrimento alheio; não consigo sequer imaginar qual é a parte da matéria humana que, endurecida, transforma pessoas em seres incapazes de manifestar compaixão.
Entristecida, lamento por aquele que, ainda que não perceba - porque nunca percebe -, se sentiu diminuído. Lamento ainda mais por quem, tendo em si todos os sentidos, tornou-se portador de uma sensibilidade débil, incapaz do gesto e cego pela frieza do olhar.

15 de jul. de 2013

Dia do Homem

Hoje li muitas páginas de um romance da Virginia W., no qual a leitura parecia ter empacado, e terminei de ler um livro de poemas da Marina Colasanti, que escreve lindamente e eu só conhecia de um texto na oficina do Becê. Li muitas páginas de palavras bonitas muito bem postas em histórias bem escritas. Ainda assim, confesso que foram os textos que li no fundo do poço de lama que são as redes sociais que me fizeram sentir vontade chorar. De desgosto.
Não consigo acreditar que o dia do homem seja levado a sério por eles!
Li textos ridiculamente pobres, escritos por homens que têm entre vinte e trinta e poucos anos, repetindo o discurso do patriarcado, sobre os homens serem os protetores, os provedores, os guardiões... e serem, segundo as palavras deles, tudo que uma mulher quer. Sim, eles parecem acreditar que um homem é tudo que uma mulher quer. É desnecessário mencionar que há mulheres que, mais que a um homem, desejam outras mulheres. Não é o meu caso, mas, por acaso, tudo o que eu queria hoje, especialmente hoje, era um par de botas azuis com fivelas e spikes dourados. Não são botas para uma heroína e nem foram trazidas por um herói salvador de mocinhas frágeis e incapazes - eu, como muitas outras mulheres, não espero que meus desejos de consumo sejam atendidos por alguém do sexo oposto. São botas azuis nas quais eu investi o dinheiro que é fruto do meu trabalho. São botas azuis que eu desejei e que foram compradas por mim.
Botas à parte, li também que alguns rapazes se sentiram ofendidos com a pouca sensibilidade das mulheres a um dia tão importante. Alguns deles, dois ou três, mencionaram que a data deveria ser tão comemorada quanto o dia da mulher. O que eles esperavam? Uma cerveja? Uma mesa com bolo e outros doces? Uma medalha ou um certificado de melhor macho do mundo? Se queriam o apoio das mulheres machistas - para vergonha de muitas de nós -, eles conseguiram. Muitas gostaram das declarações feitas pelos candidatos a príncipe encantado. Pelo alto nível de desinformação, todos os envolvidos estão de parabéns.
Eu não celebro o dia da mulher e não espero receber, nesta ou em outra data, um prêmio de consolação por sobreviver calada sob o manto do machismo, porque não me calo e não me submeto a ele. Mas espero, sinceramente, que aqueles que se sentem ofendidos com a irrelevância do dia do homem saibam fazer bom uso das ferramentas de pesquisa para descobrir quais foram os acontecimentos que, em 1917, registraram a importância histórica do dia 8 de abril. Sugiro que procurem informações sobre o dia 25 de março de 1911 ou sobre a história das mulheres que tiveram suas vidas ceifadas por uma sociedade dominada por pessoas tão pouco esclarecidas quanto vocês.
Posto isto, conversaremos no ano que vem.
Não sei se minhas botas azuis resistirão até 2014, mas estou certa de que continuarei dispensando as rosas e os chocolates no oitavo dia de abril.
Prefiro lírios brancos sem data marcada, todos os dias e sempre.

8 de jul. de 2013

incinerados

é sempre mais difícil do que parece, e eles, porque não sabem, não têm culpa. não alimentaram o ódio porque estavam privados da plenitude das capacidades mentais. donos de afetos inconsistentes, imergiram no inverno que alimenta o vazio e, movidos pelo medo do ressentimento, que não é deles porque me pertence, refocilaram no tempo presente. o passado pertence à melancolia que a longa distância acentua, não é lugar para entregar os corpos à diversão. a vida transporta e transfere o peso que nos reúne no entorno da fogueira em que somos queimados. talvez sejamos condenados pelos momentos em que não soubemos entrelaçar nossos dedos aos dedos de outras mãos. e nós nunca soubemos. não sabemos. eu também não sei o que eles não sabem. eles não têm culpa e eu também não.

7 de jul. de 2013

es.bór.ni:a sf.

esbórnia é palavra que enche a boca, amacia o por dentro das bochechas, sensibiliza os lábios e foi feita para ser gritada na plenitude dos lobos de ambos os pulmões: esbórnia! para rasgar o verbo e transgredir todos os versos que deságuam no topo inútil da cabeça racionalizante, para entorpecer a linha reta que vacila e também para desorganizar a imensa repressão explicitada. saboreio os sons da esbórnia para desatravancar caminhos e destravar todas as fechaduras. para ter mais força, arrombar portas, conquistar a delicadeza das janelas e romper a aparente solidez de que é feito o chão. grito esbórnia para sair de dentro, para dar a conhecer o meu esquerdo, que vive e respira do lado de lá.

24 de mar. de 2013

Nós temos bananas?

De 2012, para uma brincadeira que, um dia desses, pode aparecer por aí.

A banana é ouro do Brasil português, tesouro asiático introduzido no Brasil índio - aquele que já existia antes do samba do crioulo doido. A banana é prata, é penta e é tetra. As mais amassadas são as bananas maçã e a missouri, que dizem light. Nanica, é adorno para Carmens Mirandas, ingrediente de geléias e do bolo com canela feito pela vovó. A banana é radioativa, plurimineral e partenocárpica. É doce de energia frugal. Macia, a banana se esconde, envolve de verde ou amarelo toda a polpa, encasca. Também nós, humanos, somos metade bananas, dizem as pequisas genéticas e as covardias imobilizantes. Banana, meninxs, tem vitamina. Banana engorda e faz clichê.

16 de jan. de 2013

Colheita bendita

Tudo posso, desde que minhas atitudes reverberem minhas crenças e (à) vontades, desde que cada um dos meu gestos seja uma extensão da minha presença.
Acredito no amor e continuarei a semeá-lo, a despeito de todos os pesares. Existem terrenos férteis e possibilidades imensas.
Semearei amor ainda que a baixa vileza humana se apresente cada vez mais próxima. Semearei amor mesmo que a crueldade se manifeste consanguínea. Semearei amor porque tenho me alimentado dos amores que nutrem a minha lucidez. Porque amar liberta. Porque o amor destrói e movimenta. O amor cria.
Semearei amor porque o amor vive em mim.

29 de dez. de 2012

Positivo

Bateu a porta.
Espalhados pelo chão, rastros e restos. Papéis e letras despedaçados, cacos dos vasos jamais floridos, respingos alcoólicos, marcas de passos leves e brevidades; fragmentos de amanhãs em estilhaços de ilusão.
Sobre a mesa ainda posta, duas taças com vinho. A da esquerda, intacta.

21 de dez. de 2012

Alguns conselhos


esteja disponível para os que ama e aprenda com aqueles que magoam acorde cedo acorde tarde acorde na hora em que o corpo pedir acorde na hora que quiser sorria quando sentir vontade e não contenha as lágrimas segure o choro para parecer forte seja fraco seja resiliente seja altivo ajude aqueles que estão longe e também os que são próximos mantenha-se distante abrace olhe nos olhos e quando for mentir desvie o olhar quando mentirem desanuvie ignore os olhos acaricie abrace passe os dias sozinho debruçado sobre os livros anestesiado pela televisão imbecilizado pelo futebol saia de baixo da cama assuste maravilhe-se ria em boa companhia sorria só use roupas novas apegue-se às roupas velhas molde-se ao seu corpo construa um corpo seu se desfaça do que já não serve doe-se seja de verdade minta quando precisar de proteção não espere bênçãos vindas do céu não espere nada do outro mexa-se faça sexo sem compromisso faça sexo com amor faça sexo faça por merecer enxágue as mágoas passageiras mantenha as antigas tristezas no congelador armazene sentimentos saudáveis consuma o ódio antes que ele o consuma use roupas de cama limpas rejeite a lavagem ame os porcos não coma os animais raciocine leia bons livros e livros ruins assista aos filmes sozinho abrace quem ama na fila do cinema até que um dos dois se sinta desconfortável beije erre mais erre diferente felicite-se pelos acertos presenteie aqueles de quem lembra presenteie-se não gaste seu dinheiro gaste tudo com aquilo que te faz bem não se desgaste em vão abrace causas falidas batalhe por ideais não se deixe corromper vá ao teatro sinta-se livre para dizer que não gosta de teatro assista novas peças reveja peças nas quais não se viu peça perdão perdoe-se afaste-se de pessoas nocivas não sucumba às idéias corrosivas ande de bicicleta vá à academia orgulhe-se do sedentarismo respeite os que são dignos de respeito e os indignos também respeite as leis subverta-as respeite-se grite com aqueles de quem sente raiva exprima-se odeie sussurante e ame baixinho declare-se admire o pôr-do-sol durma durante o pôr-do-sol aceite-se dance se tiver vontade sinta-se feliz por não dançar deixe-se escravizar pelo celular e pela internet desprenda-se das falsas conexões alimente ilusões conviva com amigos imaginários sofra cante na chuva siga as pistas e os conselhos siga a estrada de tijolos amarelos ignore conselhos e listas faça listas amasse papéis delete arquivos salve-se salve-os aconteça o que acontecer não coma animais.

6 de dez. de 2012

Borboletantes

Você fica por aí, feito borboleta daltônica pousando nas flores que não poliniza; enquanto eu me sinto eternamente crisálida, me debatendo no casulo que fiz bonito, mas que, além de aprisionar, descobri repleto de infiltrações. Qual é o problema com a plenitude? Precisa ser sempre difícil, mesmo quando desejamos simplificar?

30 de set. de 2012

Pas de deux

Depois de décadadas de encantamento com os sóis, o céu, os vôos dos pássaros e outras deliciosas grandezas naturais, arredondei-me em uma leve curvatura cervical e, menos ereta - por isso consciente do desejo e da necessidade da prática da pequeneza -, tornei-me atenta, quase obcecada, ao constante movimento dos meus pés.
Passo após passo, caminhar revelou-se uma atividade potencialmente aflitiva. Já não via as pedras e ignorava os buracos e calçadas íngremes. Não sabia se caminhava sobre o asfalto ou se equilibrava o corpo, subitamente enlevecido, sobre o meio fio. Ganhei atenção nos dedos e uma saborosa ignorância no olhar. Passei a sentir a brisa sobre as unhas e a sujidade acumulada em camadas entre as cutículas crescentes e o esmalte vermelho. Descobri novos saltos reiventando velhas maneiras de impulsionar. Equlibrava todo o peso sobre os calcanhares e já não sentia as pedras pontiagudas que por vezes perfuravam a pele espessada pela fricção contra o tempo.
Durante a exploração dos pés descobri novos modos de tatear, de me sentir sólida e transbordante sobre um mundo contaminado pela aridez. Experimentei a sensação de estar menos pressionada pela atmosfera que muitas vezes oprime; de ser, também, e principalmente, fonte de expiração e de vida úmida, passagem de ar.
Reduzida a um par de pés caminhantes, aprendi coreografias para brincar com as possibilidades oferecidas pelo corpo de que sou parte, pela brevidade do meu corpo. Percebi novos eixos, ignorei retas e restos, passei a me relacionar melhor com os planos que me atravessam.
Dancei as limitações para experimentar novas maneiras de estar em mim.

17 de ago. de 2012

Quinta-feira, Março 05, 2009

Os bons-dias
ou Um presente

Herdeiros do vento, despidos de todos os preconceitos, preceitos e de todas as inúteis vaidades, há muito renderam-se ao tempo e suas intempéries. Exploradores da realidade pétrea, idealizam com luminosidade radiante as inúmeras possibilidades do porvir que inevitavelmente os alcança segundos após a conclusão do pensamento tornado pretérito ao transformar-se em palavras.
Satisfazem-se ao desvelar cada um dos secretos anseios compartilhados. Alegram-se nas doces pequenezas em que convergem as existências paralelas sulcadas pelas distinções. Olhares e tato contemplam, contentes, a inteireza da realidade. Sorriem diante de mais um alvorecer e, ao entrelaçar os dedos das mãos, adormecem.
Sobre a íntegra brancura das açucenas, como sob a ensolarada e límpida margem fértil do rio, amanhece azul.