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20 de fev. de 2014

"Dançar ultrapassa qualquer obstáculo da vida"


sou naturalmente desesperançosa (ou realista?) em relação ao que a maioria das pessoas faz da dança, sobretudo nas chamadas academias de dança, onde perpetuam-se ideais inatingíveis via caminhos mal executados - que acabam por gerar insatisfação - e transmitem-se sequências de movimentos sem nenhum propósito, muitas vezes nem sequer o prazer estético proposto pela técnica. dançar é humano. como diz Klauss Vianna, "enquanto você não tem um ser humano você não tem um bailarino", e o professor de dança "é um parteiro que tira de dentro do aluno aquilo que ele tem para dar". somos todos corpos dançantes. pensar o corpo e a dança não deve ser privilégio daqueles que almejam as luzes do palco ou o mais alto grand jeté.

abaixo, um vídeo lindo, com depoimentos de gentes lindas - tem até a Renée Gumiel, um dos meus grandes amores - com um tributo a um grande bailarino que nos convida a (re)pensar a dança.
agradeço ao Vitor Daneu por compartilhar o presente.







11 de mar. de 2012

Biblioteca: declarações de amor

Assim Falou Zaratustra

Faz mais de dez anos que encontrei Nietzsche pela primeira vez, a partir de Zaratustra. Entre a primeira leitura, de uma edição publicada por uma editora reconhecida pelas péssimas traduções, e o presente reencontro (através da minha amada Cia. das Letras), há uma infinidade de transformações.
Se durante a primeira leitura mal comprrendi a caminhada que faz de Zaratustra o Zaratustra, a releitura serviu para, além de compreender a história, reafirmar o que percebi na primeira leitura, praticamente toda limitada a excertos citáveis, capazes de estimular a reflexão.
Nietzsche me ensinou a pensar a dança. Através de Zaratustra, já na primeira leitura, passei a perceber a dança não só como prática diária e profissão, mas também como metáfora para absolutamente todos os acontecimentos vividos. Viver é dançar. Existir é movimentar-se e dedicar dias e noites ao deus bailarino.
Deus está morto. Eu danço.

Assim Falou Zaratustra; Friedrich Nietzsche - 360 páginas - Companhia das Letras


Saramago - Biografia

Antes de começar a ler o Saramago visitado por João Marques Lopes li uma crítica - negativa - ao livro, em um site dedicado a resenhas. Confesso que isso me desanimou no passeio pelas primeiras páginas que, como dizia a crítica, pareciam enfadonhas.
Fiquei feliz em constatar que o escritor da resenha - como eu, no princípio - estava incrivelmente equivocado em relação ao livro.
Aos poucos a leitura se torna prazerosa, repleta de histórias e impregnada pela História acontecida durante o período em que Saramago viveu. É como se a cronobiografia dedicada ao autor (José Saramago: a consistência dos sonhos, escrita por Frenando Goméz Aguilera), que foi uma das muitas fontes de pesquisa do João Marques Lopes, tivesse sido amplificada através das palavras.
Em Saramago estão, além das história de vida do grande autor, suas inspirações e aspirações, com destaque para os períodos de concepção dos livros que viríamos a amar.
É certo que muitas outras biografias e estudos virão, mas Saramago: Biografia cumpre, com louvor e beleza, seu papel.

Saramago - Biografia; João Marques Lopes - 248 páginas - Leya


Memórias inventadas para crianças

Ganhei o livro pouco depois de ter visto o belíssimo documentário Só dez por cento é mentira, dedicado a Manoel de Barros. Foi como se Memórias Inventadas Para Crianças tivesse sido escrito com a intenção de transpor para as páginas toda a poesia transbordante que permeia o filme, e a vida, do autor.
Memórias inventadas para crianças, como outros livros do Manoel de Barros, tem ilustrações feitas por Martha Barros, sua filha. É um livro-vida. Um livro-família. Um livro-abraço. Um delicioso passeio em prosa em companhia do menino que tem olhar-poeta.
Minha avó também leu. Como eu, terminou apaixonada.

Memórias inventadas para crianças; Manoel de Barros - 24 páginas - Planeta Jovem


Raiz de Orvalho e outros poemas

Mia Couto diz ter hesitado até aceitar a republicação do livro Raiz de Orvalho e outros poemas, argumentando que já não se vê em parte daquilo que nele está escrito.
Embora pareça diferente dos outros livros de poemas do autor, Raiz de Orvalho está impregnado por imagens e metáforas que Mia Couto evoca ao escrever em prosa.
Tenho a impressão de que, independente da forma em que seja moldada a escrita, o mundo observado por Mia Couto será todo e sempre poesia.
Amém.

Raiz de Orvalho e outros poemas; Mia Couto - 234 páginas - Caminho


Memorial do Convento


Apesar de ser um dos livros mais famosos do José Saramago, Memorial do Convento está entre os últimos lidos por mim.
No livro que conta a história de Baltazar e Blimunda estão também um pouco da história das relações humanas, das instituições e práticas religiosas e também de monumentos e acontecimentos históricos de Portugal.
Baltazar, que tem a força que muitas vezes nos falta, é persistente, idealista, quase ingênuo, mas também amante apaixonado e companheiro de Blimunda, mulher fiel e inteligente, sensível, poderosa e quase inacreditavelmente forte.
Memorial do Convento é um pouco da história de cada um de nós. Dos ideais humanos e absurdos da humanidade. Do mundo abundante em guerras silenciosas. Da civilização individualista e pouco inteligente que, em busca de falsas grandiosidades, insiste em ruir.

Memorial do Convento; José Saramago - 352 páginas - Bertrand Brasil

11 de fev. de 2012

Sobre: viver

Constrói a exatidão do movimento com a delicadeza do gesto. Iluminasce a partir dos ossos até que, através dos músculos, seja tornado alma, âmago, ânima... ar.
Dançar é sentir o solo sob os pés e afastar-se dele a partir dos joelhos.
Existir é impulso. Ser é possuir no corpo toda música percebida pelas pontas dos dedos das mãos.
Tateia os dias como o desabrochar das orquídeas que lentamente devolvem ao mundo a infinita beleza das cores.
Enxerga e aceita a imprecisão do tempo:
a isso denomina [sobre]viver.

7 de mai. de 2010

Biblioteca: Primeira Estação



Os livros dedicados à dança me afligem porque quase todos os que li me decepcionaram. O fato de alguns livros tratarem de assuntos extra-literários não os dispensa de serem escritos para que o leitor encontre também nas palavras e na forma do texto, e não só em seu conteúdo, algum prazer.
Com Primeira Estação vivi uma experiência diferente de todas as anteriores.
Confesso que, a princípio, o livro me assustou a ponto de parecer repulsivo. Durante alguns meses o vi como mais um livro belíssimo para ser deixado na estante, para ser usado em consultas esporádicas ou como fonte de inspiração. Senti muito medo do que encontraria nas páginas absurdamente lindas e bem encadernadas em que textos intercalam-se com imagens divinas dos espetáculos da São Paulo Companhia de Dança.
Vencida pela combinação irresistível entre tempo e curiosidade, decidi me dedicar à leitura, há um ou dois meses. Se os textos fossem ruins, teria o consolo das imagens que poderia admirar, com as quais poderia me entreter durante horas.
No índice, a primeira surpresa: Modesto Carone, também conhecido como “O” tradutor do meu amado Franz Kafka, é autor de um dos ensaios que compõem o livro. Livro esse que, para minha satisfação e deleite, além de ser um dos mais bonitos que habitam a minha estante – preciso escrever mil vezes que a edição é primorosa – é um passeio saborosíssimo por universos paralelos que, por motivos diversos, convergiram nas irresistíveis páginas que devorei em apenas dois dias.
Primeira Estação, como diz o subtítulo, reúne ensaios sobre a São Paulo Companhia de Dança. Os autores dos ensaios observaram a Companhia sob ângulos diversos, desde a concepção da Companhia e os testes com bailarinos até a estréia e os espetáculos que a seguem, e o resultado, irretocável, não poderia ser melhor.
O fato de nem todos os autores serem bailarinos ou “pessoas do palco” dá ao livro um tempero diferente – embora os textos dos artistas da dança não sejam menos brilhantes do que os dos autores não-dançantes. O livro é para ser lido por quem deseja conhecer o princípio da história de uma companhia recém-nascida ou para quem deseja aprimorar o olhar sobre a arte que dizem ser pouco valorizada em nosso país. A diversidade entre os autores que observam e descrevem o dançar é o que torna os textos de que é composto o livro, que poderia ser apenas belo, mais atraentes.
O leitor de Primeira Estação pode não conhecer nenhum balé de repertório e nem sequer saber em que consiste um plié, mas, se não terminar o livro transformado – como provavelmente acontece com os que, como eu, são, por ofício, dançantes - , certamente guardará a experiência enriquecedora para, quando solicitado, lançar sobre a dança – ou qualquer outra manifestação do corpo – um olhar mais apurado e generoso; de quem, no decorrer de algumas páginas, conheceu parte do que a dança tem de melhor.


Primeira Estação: Ensaios Sobre a São Paulo Companhia de Dança - edição bilíngüe (português/inglês); Inês Bogéa (Org.) - 336 páginas - Imprensa Oficial