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19 de set. de 2013

O Apanhador de Desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios. 
Não gosto das palavras 
fatigadas de informar. 
Dou mais respeito 
às que vivem de barriga no chão 
tipo água pedra sapo. 
Entendo bem o sotaque das águas. 
Dou respeito às coisas desimportantes 
e aos seres desimportantes. 
Prezo insetos mais que aviões. 
Prezo a velocidade 
das tartarugas mais que as dos mísseis. 
Tenho em mim esse atraso de nascença. 
Eu fui aparelhado 
para gostar de passarinhos. 
Tenho abundância de ser feliz por isso. 
Meu quintal é maior do que o mundo. 
Sou um apanhador de desperdícios: 
Amo os restos 
como as boas moscas. 
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto. 
Porque eu não sou da informática: 
eu sou da invencionática. 
Só uso a palavra para compor os meus silêncios.


Do Manoel de Barros, na página 15 do bonito livro Memórias Inventadas Para Crianças, publicado pela Editora Planeta Jovem

12 de dez. de 2012

Atualizando a Biblioteca: Promessas


Sou uma daquelas muitas pessoas que costumam cumprir o prometido - desde que prometa para os outros. Eu te darei o céu, meu bem... Mas comigo não vou além. Me faço pelo menos cinco promessas diárias e fico satisfeitíssima quando consigo cumprir uma delas.
É raro, quase impossível, cumprir as metas estabelecidas. Por algum motivo incognoscível (pausa para o Aurélio!), preciso caminhar por muitos mundos antes de ceder aos meus desejos e sucumbir às prioridades quase desimportantes; para chegar até mim.
Prometi escrever, neste blogue, sobre todos os livros lidos durante 2012 e, embora registre em caderninhos, que apelidei de livrários, todas as minhas impressões e opiniões sobre leituras, ainda não cumpri um terço da promessa.
Eu nunca havia estabelecido uma meta de leitura, mas, em janeiro passado, o fiz pela primeira vez. Prometi ler a Poesia Completa do Manoel de Barros durante os doze meses do ano e agora celebro o cumprimento de uma promessa e a despedida de um livro repleto de paisagens transformáveis e palavras com sabor de descoberta maravilhante.
Manoel de Barros me causou estranhamento durante a primeira leitura - dO Livro das Ignoranças -, há alguns anos. Depois da experiência frustrada, passei algum tempo flertando, durante mergulhos na internet e idas à livraria, com a poesia do autor. Como Clarice, Virgínia e alguns outros, o poeta foi um caso de amor às segundas vistas, um prêmio pela minha insistência.
Foi bom ler Manoel de Barros durante o ano em que li muitos outros poetas. Eu poderia dizer que escrevo melhor quando leio mais poesia, ou que vejo e sinto melhor quando imersa nas palavras dos fazedores de beleza poética, mas minha relação com a poesia não pode ser descrita, ela é sentível e, apesar de farfalhante, quase enclausurada, só acontece dentro.
A poesia engrandece o olhar. Me torno imensadora de universos distintos quando sinto que as palavras de um poeta me habitam e ganham novas formas e significados a partir do meu ângulo de visão - que sei transformável, sempre efêmero.
Há períodos em que preciso de doses cavalares de poesia e outros em que a prefiro em doses homeopáticas. Os encontros com Manoel de Barros respeitaram meu ritmo e compreenderam minhas disposições e disponibilidades. Poesia Completa foi uma ótima companhia e repousará na estante até chamar pelos meus olhos mais uma vez. Sei que vai acontecer sempre que a poesia de que ele é feito souber que precisa estar mais presente em parte de tudo aquilo que me torna eu.

Poesia Completa - Manoel de Barros - 496 páginas - Leya

27 de abr. de 2012

Sublinhamento


... E aquele
Que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado. Não será marcado. Nunca será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.


Excerto de ZONA HERMÉTICA, Manoel de Barros.

11 de mar. de 2012

Biblioteca: declarações de amor

Assim Falou Zaratustra

Faz mais de dez anos que encontrei Nietzsche pela primeira vez, a partir de Zaratustra. Entre a primeira leitura, de uma edição publicada por uma editora reconhecida pelas péssimas traduções, e o presente reencontro (através da minha amada Cia. das Letras), há uma infinidade de transformações.
Se durante a primeira leitura mal comprrendi a caminhada que faz de Zaratustra o Zaratustra, a releitura serviu para, além de compreender a história, reafirmar o que percebi na primeira leitura, praticamente toda limitada a excertos citáveis, capazes de estimular a reflexão.
Nietzsche me ensinou a pensar a dança. Através de Zaratustra, já na primeira leitura, passei a perceber a dança não só como prática diária e profissão, mas também como metáfora para absolutamente todos os acontecimentos vividos. Viver é dançar. Existir é movimentar-se e dedicar dias e noites ao deus bailarino.
Deus está morto. Eu danço.

Assim Falou Zaratustra; Friedrich Nietzsche - 360 páginas - Companhia das Letras


Saramago - Biografia

Antes de começar a ler o Saramago visitado por João Marques Lopes li uma crítica - negativa - ao livro, em um site dedicado a resenhas. Confesso que isso me desanimou no passeio pelas primeiras páginas que, como dizia a crítica, pareciam enfadonhas.
Fiquei feliz em constatar que o escritor da resenha - como eu, no princípio - estava incrivelmente equivocado em relação ao livro.
Aos poucos a leitura se torna prazerosa, repleta de histórias e impregnada pela História acontecida durante o período em que Saramago viveu. É como se a cronobiografia dedicada ao autor (José Saramago: a consistência dos sonhos, escrita por Frenando Goméz Aguilera), que foi uma das muitas fontes de pesquisa do João Marques Lopes, tivesse sido amplificada através das palavras.
Em Saramago estão, além das história de vida do grande autor, suas inspirações e aspirações, com destaque para os períodos de concepção dos livros que viríamos a amar.
É certo que muitas outras biografias e estudos virão, mas Saramago: Biografia cumpre, com louvor e beleza, seu papel.

Saramago - Biografia; João Marques Lopes - 248 páginas - Leya


Memórias inventadas para crianças

Ganhei o livro pouco depois de ter visto o belíssimo documentário Só dez por cento é mentira, dedicado a Manoel de Barros. Foi como se Memórias Inventadas Para Crianças tivesse sido escrito com a intenção de transpor para as páginas toda a poesia transbordante que permeia o filme, e a vida, do autor.
Memórias inventadas para crianças, como outros livros do Manoel de Barros, tem ilustrações feitas por Martha Barros, sua filha. É um livro-vida. Um livro-família. Um livro-abraço. Um delicioso passeio em prosa em companhia do menino que tem olhar-poeta.
Minha avó também leu. Como eu, terminou apaixonada.

Memórias inventadas para crianças; Manoel de Barros - 24 páginas - Planeta Jovem


Raiz de Orvalho e outros poemas

Mia Couto diz ter hesitado até aceitar a republicação do livro Raiz de Orvalho e outros poemas, argumentando que já não se vê em parte daquilo que nele está escrito.
Embora pareça diferente dos outros livros de poemas do autor, Raiz de Orvalho está impregnado por imagens e metáforas que Mia Couto evoca ao escrever em prosa.
Tenho a impressão de que, independente da forma em que seja moldada a escrita, o mundo observado por Mia Couto será todo e sempre poesia.
Amém.

Raiz de Orvalho e outros poemas; Mia Couto - 234 páginas - Caminho


Memorial do Convento


Apesar de ser um dos livros mais famosos do José Saramago, Memorial do Convento está entre os últimos lidos por mim.
No livro que conta a história de Baltazar e Blimunda estão também um pouco da história das relações humanas, das instituições e práticas religiosas e também de monumentos e acontecimentos históricos de Portugal.
Baltazar, que tem a força que muitas vezes nos falta, é persistente, idealista, quase ingênuo, mas também amante apaixonado e companheiro de Blimunda, mulher fiel e inteligente, sensível, poderosa e quase inacreditavelmente forte.
Memorial do Convento é um pouco da história de cada um de nós. Dos ideais humanos e absurdos da humanidade. Do mundo abundante em guerras silenciosas. Da civilização individualista e pouco inteligente que, em busca de falsas grandiosidades, insiste em ruir.

Memorial do Convento; José Saramago - 352 páginas - Bertrand Brasil