:através da assobiada maneira de existir, ele permitia que alguma tristeza se esvaísse, deixando o espaço rigorosamente necessário para a próxima dose de tristeza. Através do que era belo para os outros, a solidão fazia-se circular nele, permitindo que se não sufocasse, mas impedindo-o de conhecer a paz.
O Assobiador sonhou que a intensidade bélica do seu assobio encantava o mundo porque ele era nem mais nem menos do que o distribuidor enganoso e exclusivo que a tristeza arranjara para mostrar à Humanidade apenas a sua face bela.
Ondjaki, no livro O Assobiador.
13 de jul. de 2013
11 de jul. de 2013
Dez bons conselhos de meu pai
Só muito recentemente, depois de muitos livros e amor pelo escritor, conheci os livros que o João Ubaldo Ribeiro "escreveu para crianças" - uso aspas porque estou entre as pessoas que não costumam classificar boa literatura segundo a faixa etária dos leitores para os quais supostamente se destinam os livros.
Hoje comecei o dia muito bem impressionada com a leitura de mais um livro do autor de Viva o Povo Brasileiro, que considero um dos grandes livros da minha vida. Dez bons conselhos de meu pai é, como mostra a imagem acima, um livro bonito. Dos livros bonitos todo mundo gosta, os livros bonitos todo mundo quer. E se o conteúdo dos livros bonitos for interessante, o passeio através das palavras será ainda mais prazeroso.
As notas das orelhas e da quarta capa contam um pouco sobre a infância do autor, sobre a vida do pai, Manuel Ribeiro, e sobre a relação entre eles, que foi marcada pela valorização da cultura e pela presença dos livros. As sentenças que determinam os dez bons conselhos enumerados começam todas com um enorme não: não seja burro, não seja amargo, não seja ignorante... mas a todas elas sobrevêm grandes sins feitos de pequenas frases que encorajam o aprendizado, a boa auto-estima, a auto-suficiência e a felicidade cultivada a partir do constante questionamento das nossas atitudes e dos gestos daqueles que nos rodeiam.
Sinto vontade de transcrever integralmente o texto do livro, porque ele merece ser lido. Não devo fazê-lo porque talvez a experiência seja empobrecida sem as ilustrações feitas pela Bruna Assis Brasil. E também porque, apesar de João Ubaldo supor que seu pai "não se incomodaria por eu passá-los (os conselhos) adiante, pois ele também tinha muita consciência política", penso que quem comercializa o livro - que merece todas as boas vendas - talvez não pense assim.
Dez bons conselhos de meu pai - João Ubaldo Ribeiro - 56 páginas - Editora Objetiva
10 de jul. de 2013
9 de jul. de 2013
Libertem a Mulher Forte
Conheci a escrita da Clarissa Pinkola Estés através do seu livro mais famoso, Mulheres que correm com os lobos, que procurei porque alguém disse que é um livro que todas as mulheres interessantes leram ou deveriam ler. Concordo e acrescento que todas as pessoas - e não só mulheres - interessadas pelo conhecimento de si e do outro, e por isso interessantes, deveriam imergir no conteúdo daquelas muitas páginas capazes de transformar o olhar.
Entre o primeiro contato com a escrita da psicanalista, há anos, e o reencontro, a partir da publicação mais recente, passei por todos os outros livros escritos pela autora e recorri aos textos de alguns deles quando escrevi o artigo Mulheres que Desaparecem, que assino com a Maira Begalli e a Flávia Cremonesi.
Para quem não conhece os outros livros escritos pela Clarissa Pinkola Estés, Libertem a Mulher Forte pode parecer, à primeira vista (e à segunda, terceira e quarta), excessivamente religioso; no sentido ruim comumente atribuído ao adjetivo.
A autora utiliza a figura da mãe como representante da força que vive em nós e é manifestada a partir de nós; que, para aqueles que crêem, é a mãe que está também acima de nós.
Como pretendemos que façam todos os bons livros, Libertem a Mulher Forte questiona e perturba, mas pode ser também consolador. Gosto quando a leitura possibilita que a compreensão aconteça sob diferentes pontos de vista, por isso sinto que a leitura de Libertem a Mulher Forte me atingiu de maneira muito particular. Estive na livraria e vi o livro vendido como sendo de religião/cristianismo, mas não foi esse o registro feito pela editora na ficha catalográfica e nem o que encontrei durante a leitura.
Para mim, que sou atéia, o livro trata de um arquétipo - não de um ícone, como pode parecer para outros que o leiam - e fica muito mais interessante quando a autora relata suas experiências como educadora, entre outras bonitas e emocionantes vivências pessoais que aconteceram no decorrer dos anos em que ela percorreu lugares difíceis das almas e dos traumas de muitas mulheres e comunidades.
Depois de anos sem publicar livros inéditos, Clarissa Pinkola Estés continua excelente e tem muito para nos contar.
Libertem a Mulher Forte: O amor da mãe abençoada pela alma selvagem - Clarissa Pinkola Estés - 408 páginas - Rocco
8 de jul. de 2013
incinerados
é sempre mais difícil do que parece, e eles, porque não sabem, não têm culpa. não alimentaram o ódio porque estavam privados da plenitude das capacidades mentais. donos de afetos inconsistentes, imergiram no inverno que alimenta o vazio e, movidos pelo medo do ressentimento, que não é deles porque me pertence, refocilaram no tempo presente. o passado pertence à melancolia que a longa distância acentua, não é lugar para entregar os corpos à diversão. a vida transporta e transfere o peso que nos reúne no entorno da fogueira em que somos queimados. talvez sejamos condenados pelos momentos em que não soubemos entrelaçar nossos dedos aos dedos de outras mãos. e nós nunca soubemos. não sabemos. eu também não sei o que eles não sabem. eles não têm culpa e eu também não.
7 de jul. de 2013
es.bór.ni:a sf.
esbórnia é palavra que enche a boca, amacia o por dentro das bochechas, sensibiliza os lábios e foi feita para ser gritada na plenitude dos lobos de ambos os pulmões: esbórnia! para rasgar o verbo e transgredir todos os versos que deságuam no topo inútil da cabeça racionalizante, para entorpecer a linha reta que vacila e também para desorganizar a imensa repressão explicitada. saboreio os sons da esbórnia para desatravancar caminhos e destravar todas as fechaduras. para ter mais força, arrombar portas, conquistar a delicadeza das janelas e romper a aparente solidez de que é feito o chão. grito esbórnia para sair de dentro, para dar a conhecer o meu esquerdo, que vive e respira do lado de lá.
6 de jul. de 2013
Dos amores silentes
Creio que deveríamos, por vezes, abandonar os autores que consideramos nossos e deixar os livros escritos por eles misturados a outras histórias, de modo que as idéias vindas através da música das palavras sejam postas em movimento e, no transbordamento das páginas, tornem-se parte das nossas ações. Despertar do sono um autor muito querido é mais que ressuscitar parte da memória ou colocar-se em permanente estado de encanto - e, embora menos festivo aos olhos dos outros, é mais surpreendente que qualquer efeito de mágica, porque é real. Conhecer novas palavras vindas dos que escreveram nossos livros favoritos é resgatar parte da beleza que atravessa nossas vidas e desejar novas boas vindas àquilo que nos constitui. Reencontrar as palavras de um autor amado é renovar os votos eternos que nos comprometem com o amor próprio. É um modo de, retornando ao vocabulário e às formas admiradas, recuperarmos e trazermos à luz a melhor parte de nós.
5 de jul. de 2013
Sublinhamento
Há nas minhas recordações estranhos hiatos. Fixaram-se coisas insignificantes. Depois um esquecimento quase completo. As minhas ações surgem baralhadas e esmorecidas, como se fossem de outra pessoa. Penso nelas com indiferença. Certos atos aparecem inexplicáveis. Até as feições das pessoas e os lugares por onde transitei perdem a nitidez. Tudo aquilo era uma confusão...
No livro Angústia, do Graciliano Ramos da Tati.
No livro Angústia, do Graciliano Ramos da Tati.
3 de jul. de 2013
Inúteis
A Metamorfose
Sim, Gregor Samsa, somos nada. Depois de nos julgarmos o ponto central, o eixo sobre o qual circunda o universo infinito e o além, somos nada. Somos menos que o pó. Para os desesperados, preguiçosos, vagabundos e parasitas, somos nada. E só nos percebemos desnecessários quando, tarde demais, vimos suas costas. Já longe. A uma distância inalcançável. Tarde demais.
No princípio da transformação, o assombro, o asco, o desamor e a ignorância. O medo da diferença. O pavor e a discriminação. Nojo daquilo que é familiar. Nojo do que, por semelhança e identificação interna, torna repugnante o que foi belo. Desamor, Gregor Samsa. Indiferença.
Descobrimo-nos não o centro, a base ou o botão de liga-e-desliga. Não somos o suporte ou sequer a consciência. Somos nada. Terminamos sozinhos, Gregor.
Juntaram nossos restos mortais e deles se livraram. As peças restantes se sobrepõem. Sem nós, a engrenagem continua a funcionar.
Escrito por mim e originalmente publicado no falecido blogue Rango na Madrugada, no dia 03 de outubro de 2007.
Sim, Gregor Samsa, somos nada. Depois de nos julgarmos o ponto central, o eixo sobre o qual circunda o universo infinito e o além, somos nada. Somos menos que o pó. Para os desesperados, preguiçosos, vagabundos e parasitas, somos nada. E só nos percebemos desnecessários quando, tarde demais, vimos suas costas. Já longe. A uma distância inalcançável. Tarde demais.
No princípio da transformação, o assombro, o asco, o desamor e a ignorância. O medo da diferença. O pavor e a discriminação. Nojo daquilo que é familiar. Nojo do que, por semelhança e identificação interna, torna repugnante o que foi belo. Desamor, Gregor Samsa. Indiferença.
Descobrimo-nos não o centro, a base ou o botão de liga-e-desliga. Não somos o suporte ou sequer a consciência. Somos nada. Terminamos sozinhos, Gregor.
Juntaram nossos restos mortais e deles se livraram. As peças restantes se sobrepõem. Sem nós, a engrenagem continua a funcionar.
Escrito por mim e originalmente publicado no falecido blogue Rango na Madrugada, no dia 03 de outubro de 2007.
2 de jul. de 2013
muito pouco
tem muita gente achando que é muito, com muito tudo, cega da imensidão do outro. tem muito circo, muitas caras e posses, muito farelo se pensando pão. tem muita alegria estampada nos sacos vazios de felicidade. muita angústia calada e pouca simplicidade. tem pouca respiração e suspiro. tem muito vento de nada para pouco ar. tem muito pouco olhar para fora. muito pouco amor no mar de mágoas. temos muito pouco tempo. muito poucos encontros. temos ainda muitos caminhos e muito poucos companheiros durante o caminhar.
1 de jul. de 2013
...
Suponho que hoje seja uma segunda-feira ensolarada em todo o país-continente verde, amarelo, branco e azul anil. Imagino que todos tenham ido sentados para o trabalho, pelo qual são muitíssimo bem remunerados, utilizando o excelente sistema de transporte público com o qual podemos contar. Suponho que os filhos daqueles que têm filhos tenham passado o dia em ótimas escolas públicas e que as crianças e os adolescentes, ao final do período, estarão satisfeitos com as experiências vivenciadas. Suponho que as famílias se reunirão à farta mesa do jantar para compartilhar os acontecimentos do dia. Imagino que, durante a noite, todos dormirão tranquilos durante oito horas ou mais. Suponho também que os brasileiros tenham suas contas bancárias com saldo positivo - ainda que nelas não esteja o salário do mês recém-começado - e que ótimos hospitais repletos de bons médicos continuem à espera de bem assistir gratuitamente os poucos que deles precisem.
Sobre a minha casa chove há dias. Aqui não há ganhadores de títulos mundiais.
Sobre a minha casa chove há dias. Aqui não há ganhadores de títulos mundiais.
17 de jun. de 2013
Llansol diz que a vida é uma investigação espiritual. Sou incapaz de raciocinar além da terra ou tatear aquilo que não pertence aos corpos. A pele que me envolve solicita diferentes texturas e só encontra espelho nas asperezas do não-etéreo. O sangue me conduz ao toque daqueles que, porque vivem, pulsam. No corpo abrigo todas as dores e problemas. Liberta, faço do corpo o princípio de todas as soluções. A existência que me foi designada é uma sucessão de combates entre o ser e a aceitação da carne que, diariamente, caminha para o fim.
13 de jun. de 2013
A PM e as agulhas de tricô
Sim, eu sou filha de militares e, feliz ou infelizmente, nasci em uma família de muitos militares.
Cresci sabendo que policiais militares são pessoas e que a instituição, como qualquer outra instituição, reúne pessoas que trabalham por diferentes objetivos e que muitas delas não têm caráter ou cultivam ideais que beneficiem a sociedade.
Nasci da união de dois seres bastante diferentes, profissionalmente opostos, por isso conheço diferentes lados da mesma moeda.
Uma das imagens mais marcantes da minha vida é a da minha mãe, que por poucos meses não foi promovida a tenente-coronel, fardada, sentada no sofá da sala, fazendo tricô enquanto esperava a viatura que viria buscá-la.
Guardo na memória afetiva os olhares admirados dos meus colegas de escola quando viam aquela mulher linda - que, por algum motivo (para mim) sobrenatural, decidiu usar a farda e servir ao Estado - que ia às reuniões de pais, às quais meu pai nunca compareceu, ou precisava me levar das aulas antes que elas terminassem, porque queria estar comigo antes de ir trabalhar. Guardo os recortes de jornal e as histórias bonitas do tempo em que ela, como outras policiais militares, trabalhou no Amparo Maternal. Guardo também as histórias tristes que ela presenciou nos momentos em que mulheres, quase sempre miseráveis, foram detidas em flagrante e só puderam ser revistadas por outras mulheres. Tenho aqui inúmeras páginas escritas por ela, que dedicou muitos anos de trabalho (mesmo depois de debilitada pelo câncer que viria a matá-la) a projetos que visavam a melhoria do trânsito e do policiamento ao redor das escolas - quando as escolas ainda não eram nem a sombra do problema que hoje são.
Por tudo isso, antes de me acusarem de hipócrita quando me valho da internet para compartilhar mensagens consideradas subversivas (eu diria "de esquerda", como me disseram, se ainda houvesse esquerda no Brasil), estejam cientes de que eu aprendi o mundo a partir de um olhar de doçura, que leva o outro em consideração para ponderar o que é justo.
O que a PM está fazendo em São Paulo é errado. E, por mais que eu guarde belas lembranças da farda da mulher que mais admiro e respeito, não compactuo com a violência absurda e com o circo que os policiais - que também são cidadãos, embora pareçam ter esquecido disso - estão armando em torno de um dos movimentos mais significativos que vejo acontecer.
Se me mantivesse calada seria conivente com eles. E eu não sou.
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