Aviso:
Os textos que seguem não têm a pretensão de serem críticas ou resenhas. São apenas impressões de quem está habituada a declarar (des)amor aos livros.
Cal, que é um livro que reúne contos, poemas e uma peça, foi meu primeiro contato com a literatura produzida por José Luís Peixoto. Gosto de quem gosta das palavras; por isso, já nas primeiras páginas, sabia que terminaria o livro apaixonada.
Tanto a poesia quanto a prosa, que é também poética, de José Luís, encantam pela simplicidade. O autor brinca com as palavras e com o tempo, exigindo, assim, a atenção do leitor. Não é difícil mantermo-nos atentos aos temas deliciosamente humanos abordados por José Luís - cada um dos textos, mesmo os mais curtos, abre-se diante de nós como um infinito de possibilidades e recordações.
Tudo indica que José Luís Peixoto seja um daqueles cada vez mais raros autores capazes de tocar-nos a alma, ou a essência. É inevitável pensar que em cada uma daquelas linhas também nós vivemos, que todas as histórias têm, inevitavelmente, um pouco de nós.
Um bom espelho, que mostre, além da realidade, parte do passado, é muito - senão tudo - do que podemos esperar de um bom autor.
Cal; José Luís Peixoto - 264 páginas - Bertrand Portugal
O Livro da Dança é um livro de poemas escritos por Gonçalo M. Tavares, autor de quem serei eterna admiradora; que escreveu também o livro de poemas “ 1”, onde está o “Livro dos Ossos”, que é uma série de poemas que me levaram às lágrimas durante a primeira leitura e que me emociona a cada reencontro. Por isso encontrei o livro sabendo que a poesia de Gonçalo M. Tavares, como a de todos os bons poetas, não perde a validade.
Um amigo havia dito que o Livro da Dança é, talvez, o livro mais hermético escrito pelo autor. Depois de ter lido o livro, não só discordo como acredito que seja precisamente o contrário.
Para as pessoas que não dançam, que não vivem a dança como profissão e não têm ou terão a experiência de se expressarem pelo movimento e/ou sobre o palco, o livro trata, sim, da metáfora dos movimentos da vida, da dança da existência através da qual podemos esconder-nos e selecionar o que queremos transmitir ou revelar. Já aqueles que, como eu, vivem a dança, da dança e para a dança, deveriam firmar consigo o compromisso de, vez por outra, retornar a cada um dos poemas para encontrar neles as muitas razões pelas quais escolhemos a arte – ou a arte nos escolheu.
O Livro da Dança poderia ser também o Livro do Corpo ou do Movimento, porque o autor compreende-os – corpo e movimento – como poucos. Ler os poemas que o compõem é pensar a vida em movimento e o corpo como centro e propagador de sensações. Gonçalo M. Tavares faz poesia para ser posta em prática, para reverberar.
Vale dizer que a edição brasileira do Livro da Dança é belíssima e (ainda bem!) preserva a ortografia portuguesa. Livro com sotaque é sempre mais interessante.
Livro da Dança; Gonçalo M. Tavares - 120 páginas - Editora da Casa
O Fio das Missangas é Mia Couto em doses homeopáticas e, embora não tenha sido o modo pelo qual encontrei o autor, talvez seja uma boa maneira de conhecê-lo.
Os contos curtos que o compõem são, todos eles, incrivelmente mágicos e, apesar de aparentemente leves, densos, como os romances escritos por Mia Couto. É impossível não nos envolvermos com o universo e com a cultura que, embora pareçam distantes, estão também arraigados no imaginário e na história de boa parte do povo brasileiro.
As missangas do fio são todas de afeto, de família, da delicadeza das relações humanas... de todos os temas e situações que nos são caros. São pedaços de existências intensas e efêmeras, mas não por isso menos valorosas ou menos poéticas. São pequenas histórias grandiosas - como, se assim o quisermos, pode ser a vida de todos nós.
O Fio das Missangas; Mia Couto - 148 páginas - Editorial Caminho (mas há também uma edição brasileira, pela Cia. das Letras)
A Perna Esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil é Gonçalo M. Tavares em seu estado mais puro – e caótico. Esqueça o que diz a apresentação do livro encontrada em sites ou os trechos, disponibilizados como resenha, que fazem parecer que a paixão é o tema central do livro. O livro trata, sobretudo, das convergências e divergências entre a ordem e o caos, da linguagem com que expressamos nossos afetos, e de como refletimos nossas relações com o outro e com o mundo. 
A primeira parte do livro conta, sim, sobre uma paixão, mas desdobra-se em reflexões que, se à primeira vista, parecem obscuras, não chegam a tornarem-se claras, mas ampliam-se e desdobram-se em “tópicos” na segunda parte do livro, que, a princípio, intriga pela forma. Roland Barthes e Robert Musil são escritos (descritos?) não como uma narrativa, mas em pequenos tópicos inseridos em tabelas que inevitavelmente dialogam com a primeira parte do livro.
A Perna Esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil é um livro para ser lido em três ou quatro horas, mas precisaria de outra vida para digeri-lo ou compreender metade do seu significado. Terminei-o desejando conhecer Roland Barthes e Robert Musil, que sob a ótica de Gonçalo M. Tavares parecem mesmo interessantíssimos. Começarei por Barthes, com quem imagino que terei mais afinidades, mas “O Homem sem Qualidades”, de Musil, já está na lista dos livros pelos quais desejo ser alcançada.
A Perna Esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil; Gonçalo M. Tavares - 172 páginas - Relógio d'Água
É uma pena, mas o livro Dança Universal, assinado por Sérgio Rodrigo Reis, é um dos piores livros que li em toda a minha vida.
A edição da Imprensa Oficial torna o pequeno livro muito atraente. As muitas fotos que ilustram algumas páginas são bonitas, mas a escrita não convence.
Conheço a história do Grupo Corpo e por isso posso afirmar: o livro poderia ser interessante – mas não é. Falta inspiração.
Tive a impressão de estar lendo anotações escritas às pressas para serem transformadas em emoção ao serem transferidas para um diário que não existe. Em princípio, pensei que poderia se rabugice, ou o hábito de ler as biografias tão bem escritas pelo Ruy Castro, mas não era. A escrita do livro é mal cuidada, tem erros grotescos de revisão, como um capítulo intitulado “Porque (sic.) Minas?”.
Se a intenção da Coleção Aplauso é documentar a arte brasileira, penso que deveria fazê-lo por meio de uma escrita atraente, para que também a arte fosse engrandecida e valorizada a partir de tais documentos. O Grupo Corpo e a bibliografia da dança mereciam um retrato melhor executado – ou que, pelo menos, não os fizessem parecer menores.
Dança Universal - Rodrigo Pederneiras e o Grupo Corpo; Sérgio Rodrigo Reis - 212 páginas - Imprensa Oficial
07/02/2010
Biblioteca: Janeiro de 2010
Postado por Déa Paulino às 1:13 PM Links para esta postagem
Marcadores: Biblioteca, Contos, Gonçalo M. Tavares, Grupo Corpo, José Luís Peixoto, Literatura Portuguesa, Livros, Mia Couto, Poesia
18/01/2010
Sobre Paredes e Pedras
Observo atônita a parede azul que agoniza. Ainda ontem as paredes azuis eram, todas elas, a parede diante da qual velamos o corpo da minha mãe. As paredes distinguem universos e delimitam mundos. Há paredes que não suportam o peso das horas que passam cada vez mais rápidas pelo relógio de frios ponteiros metálicos. Mudas, as paredes testemunham e envelhecem.
Na parede azul há buracos preenchidos por pregos e imensos oceanos de ausência. Há paredes em todas as casas, entre as famílias. Dissimuladas, há paredes de aparência frágil que são intransponíveis. Algumas paredes descascam em chagas profundas e apodrecem quando banhadas pelas lágrimas da infiltração. Outras paredes, mais felizes, têm janelas por onde recebem, além do calor e da luz, a brisa dos dias teimosos que insistem em amanhecer.
No centro da mesa de jantar, antes do tilintar dos copos, ergueu-se uma parede alta. Nossa última oportunidade, sabíamos. Sobre o aparador, refletida no espelho, a marreta permaneceu intocada. Nenhum de nós sujou as mãos.
Postado por Déa Paulino às 9:42 AM Links para esta postagem
07/10/2009
Muletas
Não escrever deveria ser libertador, mas é um fardo tão pesado quanto fazê-lo. É como perder um membro; logo depois da amputação você sabe e vê que ele já não existe, mas ainda sente como se ele estivesse no mesmo lugar - por isso acontecem tantas quedas entre aqueles que por vezes esquecem que já não têm uma das pernas e procuram apoio no vazio.
Adaptamo-nos a tudo, inclusive às mais dolorosas ausências. Há inúmeras outras maneiras de caminhar.
Postado por Déa Paulino às 1:17 AM Links para esta postagem
30/09/2009
Triste fim da realidade inventada
Fui privada do contato com a alma no instante em que o sangue do sonho deixou de fluir pelas mãos. Optei instintivamente pelas amarras às quais estou atada, por isso padeço do mal dos males: existo. Já não sou.
Perdi o gosto pelo abismo que, sendo todo vazio, preenchia com possibilidades. Sólida e pesada, disforme, não posso voar.
Recebo, com o conformismo, a mediocridade livre e desesperançada; uma nova liberdade descompromissada e leve.
Sendo menor, talvez flutue. Talvez as ondas me levem à aridez, distante das águas em que habituei-me a mergulhar.
Postado por Déa Paulino às 9:29 PM Links para esta postagem