6 de mai de 2010

Sobre a separação dos corpos

A desordem que excede os poucos caracteres avança pelas páginas em branco e assim permanece. As palavras agora encontraram o vinho, flertam com o corpo, a divindade e as sensações de Baco, mas continuam em busca da coerência e da concisão. Embriagamo-nos e sorrimos, mas não nos compreendemos. Incapaz de enxergar através delas, sinto-me opaca e densa, intransponível. Incompleta, já não espelho. Demasiadamente tristes, também a elas falta coragem para entreolharem-se quando libertas das mãos frias, quase mortas, que um dia consistiram a sólida ponte sobre o abismo de que somos margens complementares. Seres distintos em existências equivocadamente aproximadas, frouxidão de nós. Amores não correspondidos e, por isso, inadequados. Páginas e esforços em vão. Os dias e suas horas mal empregados em encontros estéreis. Investimentos esperançosos em signos e símbolos frágeis, condenados ao fracasso outonal.
Cientes da inutilidade mútua seremos livres, talvez.