7 de mai de 2012

Vírgula


Enquanto agonizo, você dorme. A claridade da lua que atravessa as frestas janela é mais consistente que todas as minhas certezas. Estou exausta do que sou. Fui condenada a pesadelos despertos porque parte de mim, talvez entre a pele e os ossos, ou sob as vísceras, se recusa a sonhar.
Não quero desistir dos nomes absurdos que inventamos para os filhos que não teremos e nem dos passeios imaginários por praias abarrotadas que, juntos, abominamos. Não desejo que nossas afirmações sejam submetidas a um único sim - mesmo que, para você, seja sempre e infinitamente sim. Sim.
Não sei como tocar com meus dedos gelados o calor da mão que pousa sobre o meu ombro. Preciso da pele para sabê-lo, de poros e pelos que indiquem o sabor dos descaminhos nossos. Quero o abraço do futuro interminável, estou cansada de recuar. Quero somar nossos livros para dividirmos as bibliotecas e compartilharmos todas as idéias possíveis e sonhos irrealizáveis. Quero dançar descalça sobre as linhas que escreve e decorar as frases, olhares, expressões e gestos que te compõem. Quero me apropriar de tudo aquilo que me oferece, para torná-lo também meu.
Quando você despertar, morta e ressurreta ao terceiro minuto, serei outra. Durante as primeiras horas da segunda-feira de um outono que é quase inverno, saberá que me descobri alguém que deseja que você seja mais que uma mala que, depois da viagem, passa alguns dias decorando minha sala, embaixo do sofá.