7 de mai. de 2012

Vírgula


Enquanto agonizo, você dorme. A claridade da lua que atravessa as frestas janela é mais consistente que todas as minhas certezas. Estou exausta do que sou. Fui condenada a pesadelos despertos porque parte de mim, talvez entre a pele e os ossos, ou sob as vísceras, se recusa a sonhar.
Não quero desistir dos nomes absurdos que inventamos para os filhos que não teremos e nem dos passeios imaginários por praias abarrotadas que, juntos, abominamos. Não desejo que nossas afirmações sejam submetidas a um único sim - mesmo que, para você, seja sempre e infinitamente sim. Sim.
Não sei como tocar com meus dedos gelados o calor da mão que pousa sobre o meu ombro. Preciso da pele para sabê-lo, de poros e pelos que indiquem o sabor dos descaminhos nossos. Quero o abraço do futuro interminável, estou cansada de recuar. Quero somar nossos livros para dividirmos as bibliotecas e compartilharmos todas as idéias possíveis e sonhos irrealizáveis. Quero dançar descalça sobre as linhas que escreve e decorar as frases, olhares, expressões e gestos que te compõem. Quero me apropriar de tudo aquilo que me oferece, para torná-lo também meu.
Quando você despertar, morta e ressurreta ao terceiro minuto, serei outra. Durante as primeiras horas da segunda-feira de um outono que é quase inverno, saberá que me descobri alguém que deseja que você seja mais que uma mala que, depois da viagem, passa alguns dias decorando minha sala, embaixo do sofá.

29 de abr. de 2012

Biblioteca: livros e histórias

Dublinesca

Além de contar a estória de um homem em conflito com as próprias escolhas e de suas relações com a família que parece não compreendê-lo, com os amigos escritores, com o mercado editorial e com os livros, Dublinesca é, como o título insinua, um breve passeio por Dublin, por autores que lá viveram e por livros ambientados na cidade.
Embora Ulysses, de James Joyce - que ainda não li - seja a referência mais mencionada em Dublinesca - a estória do livro tem profunda relação com o 16 de junho joyceano -, o livro é, para mim, aquele que me levou a Beckett, a quem, não sei por que, oferecia resistência, e que, depois de Dublinesca me conquistou para sempre através do maravilhoso Primeiro Amor.
Passei muito tempo questionando a menção a Vila-Matas como um autor que escreve para escritores e talvez só agora tenha compreendido o real sentido do título atribuído ao autor. Não me senti mais ou menos escritora enquanto lia os livros que Vila-Matas escreveu mas, depois deles, foi impossível conter o desejo de conhecer os autores que ele menciona.
Vila-Matas não escreve para colecionadores de livros, escreve para os leitores. Escreve para que os livros dos bons autores vivam mais.

Dublinesca; Enrique Vila-Matas - 320 páginas - Cosac Naify



A Casa, a escuridão

Encontrei A Casa, a Escuridão em um sebo. Quando me ofereceu o livro, que finalmente "constava no sistema", a livreira disse que o exemplar havia sido assinado pelo autor. Essa informação soou como a descoberta de um tesouro no qual eu só acreditaria quando estivesse ao alcance dos meus olhos.
Ao abrir o livro, me deparei não com uma assinatura, mas com uma dedicatória do José Luís Peixoto a uma artista portuguesa bastante conhecida e reconhecida, que provavelmente foi professora do autor na universidade. Não sei que caminhos trouxeram o livro até mim, mas, embora tenha pago por ele, recebi como um presente.
A história da chegada do livro às minhas mãos está relacionada com os temas que o autor aborda nos poemas de A Casa, a Escuridão. José Luís Peixoto escreve sobre, e com, afeto. São poemas sobre inquietudes, família, amores de toda a sorte e aflições. A Casa, a Escuridão é feito de poesias com sabor e corpo, de poemas que, mais que convidar à contemplação, evocam gestos.
Gosto do modo como os poemas me tocaram, de ter me sentido lida através deles. Em muitas páginas senti o beijo da poesia, que José Luís Peixoto propõe, em um dos poemas mais saborosos, porque é quase físico, na quarta capa: "pousa os lábios sobre a página. pousa os lábios sobre/ o papel. devagar, muito devagar. vamos beijar-nos."

A casa, a Escuridão; José Luís Peixoto - 77 páginas - Temas e Debates



Luto e Melancolia

Nutro profundo desprezo pela atual glamurização e banalização das patologias psicológicas/psiquiátricas, mas, porque sou humana e porque trabalho com e para outros seres humanos, me interesso por elas. Por isso, e também porque o único prêmio que Freud recebeu em vida foi graças ao seu desempenho como escritor, e não como criador da psicanálise, decidi que a belíssima e recém-lançada edição de Luto e Melancolia seria um bom modo de conhecê-lo além das breves citações em artigos dispersos.
O texto introdutório e o posfácio foram ótimos auxiliares para a compreensão do texto do Freud - que, apesar de dar título ao livro, ocupa poucas páginas -, bastante acessível para leigos ou quase.
Diz-se que esta é a melhor tradução de Luto e Melancolia, porque foi vertida a partir do alemão, e não do inglês, como as anteriores. Não posso contestar a informação ou criticar a tradução, mas penso que talvez tenha sido desnecessário mencionar supostos equívocos cometidos em traduções anteriores no livro que é também uma homenagem a Marilene Carone, a "tradutora de Freud" - que foi companheira do "tradutor de Kafka" - que faleceu antes de traduzir, como tencionava, a obra completa de Freud.
Além de fonte de inspiração, de conhecimento e de auto-conhecimento, Luto e Melancolia tornou-se o primeiro encontro de um longo romance, a certeza de que Freud é possível para mim.

Luto e Melancolia; Sigmund Freud - 144 páginas - Cosac Naify



Uma criatura dócil

Não sei se pelo número de páginas do livro ou pela raiva que senti de mais um anti-herói (com acento, porque é meu) do Dostoiévski, lembrei muito de "Noites Brancas", do mesmo autor, durante a leitura de Uma criatura dócil, obra que, em uma edição caprichada, vem acompanhada por ilustrações do Lasar Segall.
Me atraio por estórias que acontecem também nas entrelinhas, além das obviedades. Uma criatura dócil é feito, sobretudo, de silêncios, de ausências a serem preenchidas pelo leitor - que dará ao livro a profundidade e a extensão que a própria experiência permitirem. Por isso, embora não tenha sido o meu caso, porque já li outros livros do Dostoiévski, penso que Uma criatura dócil pode ser um ótimo modo de conhecer e gostar do autor que é ótima companhia - e, também por isso, eterno.

Uma criatura dócil; F. M. Dostoiévski - 96 páginas - Cosac Naify



Livro

É difícil hesitar em trazer para a casa um livro do José Luís Peixoto mas, com Livro, apesar da capa belíssima, que remete a azulejos portugueses nos quais ocultam-se letras e sinais, isso aconteceu.
Durante a pré-venda, em lugares nos quais eu procurava, muito se dizia sobre Livro ser um livro que abordava a emigração portuguesa. O fundo histórico me remetia imediatamente a qualquer obra do Saramago, mas fazia destoar da idéia (com acento) que faço de um romance do meu não menos amado José Luís Peixoto.
Preferi o empirismo ao pré-conceito e não me arrependi.
Livro, de fato, conta a história de emigrantes, mas é um livro sobre o tempo, como escreveu José Castello no belo texto da orelha do livro, e também, talvez principalmente, um livro sobre o amor. E é mesmo um livro diferente dos demais escritos por José Luís Peixoto, mas tão bom quanto qualquer um deles.
A primeira parte do livro soa estranha para o leitor que julga estar acostumado com a escrita do José Luís Peixoto, mas ela se justifica posteriormente. Experimentei essa mesma sensação de transformação a partir da justificativa posterior recentemente, enquanto lia O Som e a Fúria, do Faulkner.
Se no começo do livro, apesar de confusa por pensar que José Luís não estava ali, me encantei com as personagens e situações, com as passagens fantásticas e poéticas que permeavam os acontecimentos, nas páginas finais não era capaz de nada além de, a cada linha, pensar em quão genial é o autor que, exercendo seu amor ao ofício, reiventou-se a de maneira brilhante através das palavras, alimentando "a ânsia insaciável e inúmera de ser sempre o mesmo e outro", como escreveu Pessoa, outro gênio português.

Livro; José Luís Peixoto - 288 páginas - Companhia das Letras



Meu filho, meu besouro

Meu filho, meu besouro foi um dos primeiros exemplares da ainda germinante biblioteca da vovó Clélia que, aos 81, apaixonou-se por livros infantis - ou tornou-se um ótimo pretexto para que eu possa ter mais deles em nossa casa.
É um livro de poesias para crianças, que soam como estórias divertidas daquelas que minha mãe e meus avós contavam. A intimidade do Cadão Volpato, que dedica o livro aos filhos, que o inspiraram, com a linguagem e o universo infantis é percebida a cada linha e também nas ilustrações que, ao contrário do que pode esperar-se, não são coloridas.
Meu filho, meu besouro é um livro para as crianças de hoje, para as crianças que, em nós ou no nosso entorno, queremos - ou deveríamos - alcançar.

Meu filho, meu besouro; Cadão Volpato - 40 páginas - Cosac Naify

27 de abr. de 2012

Sublinhamento


... E aquele
Que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado. Não será marcado. Nunca será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.


Excerto de ZONA HERMÉTICA, Manoel de Barros.

23 de abr. de 2012

Dia Mundial do Livro: Cosac Naify e amor

Tenho uma relação de amor e amor com os livros desde que, aos três anos (gosto de enfatizar a idade, para reafirmar o orgulho do papai), aprendi a ler. Sou apaixonada por palavras faladas, cantadas, ditas aos berros, sussuradas, digitadas e postas na tela ou barulhentamente vertidas por lindas e antigas máquinas de escrever. Gosto de gramática, me deixo encantar por imagens poéticas e reverencio parágrafos bem escritos.
Sou também uma leitora taurina. Gosto de edições tratadas com cuidado, de livros bonitos e de traduções bem feitas. Gosto de prefácios e posfácios tão bem escritos quanto o texto do autor principal. Gosto de capas duras e de bons projetos gráficos. Gosto do cheiro dos livros novos tanto quanto gosto do aroma de raridade dos livros pelos quais sou encontrada nos sebos. Gosto de grifar meus livros, de olhar para as minhas estantes como partes da minha história, de ter nos meus livros uma extensão de mim.
Embora goste muito das edições da Cia. das Letras, que publica grande parte dos meus autores favoritos, confesso que, entre as editoras brasileiras, minha favorita é a Cosac Naify.
A Cosac, além de publicar belíssimos livros de Arte - até de Dança, tão raros no Brasil - que sempre me foram muito úteis, faz com que eu me sinta uma leitora respeitada porque executa uma seleção impecável dos autores que publica e porque trata os livros - e as pessoas - com a gentileza que merecem.
Tenho comprado muitos livros nas promoções da loja virtual da Cosac Naify. Em uma dessas compras, um livro que custa R$35, pelo qual paguei R$17, veio com um pingo de cola no meio de uma das páginas. Era um livro de poemas e a cola fez com que algumas palavras se perdessem.
Liguei para a editora e um rapaz gentilíssimo solicitou que eu enviasse um e-mail para que meus dados fossem localizados, mas, mesmo antes de saber a que livro me referia ou quanto tinha custado, disse que enviaria um novo exemplar e que o carteiro viria à minha casa para coletar o livro danificado. Rápido e sem problemas, má vontade ou maiores questionamentos, assim aconteceu. O modo como fui tratada reforçou a ótima imagem da editora e engrandeceu minha admiração por ela.
Hoje, Dia Mundial do Livro, a loja virtual da Cosac Naify disponibiliza 300 títulos pela metade do preço. Já escrevi - aqui, no Skoob e nos outros blogs - sobre muitos dos livros que estão em promoção.
Aproveitem por vocês e por mim, que já excedi a cota mensal.



Esta postagem não foi paga. Comprei todos livros da Cosac Naify para os quais declarei amor e os (muitos) amores cosacnaifyanos que virão nas próximas postagens. Recentemente tive uma declaração de amor rejeitada por um concurso de resenhas realizado pelo site da editora mas, como amor verdadeiro é também incondicional, continuo amando-os mesmo assim.

12 de abr. de 2012

Amanheceu mais tarde


Amanheceu mais tarde. Não foi pela ausência da sempre magnífica luz solar que pouco depois das seis já atravessa nossas janelas, tampouco em decorrência da perda física que o passar dos segundos transforma em horas intermináveis - como se, condensada, a passagem do tempo pudesse tornar-se um único dia composto por meses e anos que só a controladora maldição humana dos calendários e relógios pôde registrar.
Foi a angústia, manifestada pela ansiedade imobilizadora em confronto com a dança do pensamento, quem me cegou. Ainda tinha os cílios, toda a pele da face e os lábios maquiados no momento em que nos separamos. Usava minha máscara resistente à água quando as pálpebras que cobriam os olhos cansados deixaram de se mover.
Durante a separação, exilamo-nos naquilo que nos unia. Do exterior, apenas a invisível felicidade luminosa dos sons; as nossas músicas, a minha voz que também é sua, a tua voz que descobri ser minha. As similaridades repetidas à exaustão.
Espalhamos papéis, sensações e cores. Tateamos palavras para descobrir novas delícias do inconstante, mas sempre perseguido, estar - que, para nós, sempre pareceu mais divertido que o engessamento do ser. Descobrimos que a frieza congelante que nos envolve seria sempre pouca e pequena para aplacar a calorosa chama que nos une. Convertemos a triste condição de abandono em solidão, musa amada.
Ao fim do menos longo dos dias mais longos, nos reconhecemos ao compartilhar o mesmo espelho. Sob o pôr-do-sol, que torna visível a reciprocidade dos nossos amores, somos eu.

10 de abr. de 2012

Amanhã


Somam-se à pilha de livros ainda não lidos, a de filmes não vistos e a de textos imaginados ou rascunhados, ainda por escrever. As descrições impossíveis e os quase-amores risíveis. A busca pela voz não encontrada e o indesejável eco que, ao resplandecer, [re]dimensiona o vazio que multiplica-se desordenadamente e não tem fim.
Há ainda os abraços não dados e olhos que, enxergando, tornaram-se, por força do tempo e fraqueza poética, incapazes de ver. Misturados às receitas não testadas, as idéias acentuadas e os afagos em desuso. Os braços inúteis no corpo inerte. A maciez da pele abandonada que envolve também as artérias em que circulam os desejos.
Novos modos, velhos medos. Alheia aos temores, abundâncias e períodos escassos: a vida.
Uma saborosa sucessão de clichês.

2 de abr. de 2012

Casa nova!


Ainda organizando os objetos e arrastando-os por todos os cantos, até que a decoração fique ainda mais parecida comigo.
Minha gratidão a arquiteta Fabiana Borges, pela generosidade e pela paciência.
Uma semana de dias luminosos para todos nós!

26 de mar. de 2012

Primeiro Amor - Beckett e a primeira vez

O projeto gráfico do livro, apesar de aparentemente simples, é dos mais bonitos que conheço - faz lembrar dos livros-arte que os aficcionados desejam ter em suas estantes. Some-se à beleza do objeto (o livro) o nome de peso do autor, Samuel Beckett, e o resultado pode parecer grandioso o suficiente para inibir o leitor que ainda não conhece a obra do escritor dublinense que foi um dos fundadores do teatro do absurdo e amigo de James Joyce.
O título, Primeiro Amor, empresta doçura a toda a imponência e convida o leitor a um passeio pelas páginas costuradas em que as palavras, à excessão do início da frase de abertura, posicionam-se sempre à esquerda de quem lê.
Em um texto quase sempre irônico, sarcástico e deliciosamente bem escrito, permeado por sentimentos humanos - legítimos, embora nem sempre socialmente aceitáveis- , Beckett conta uma história de amor que acontece através do silêncio - ou apesar dele.
Primeiro Amor não é um livro de respostas, mas deixa o leitor - que devora suas poucas páginas em minutos - repleto de perguntas sobre as personagens que não são definidas como vítimas ou herois de uma sucessão de encontros marcados pelo incômodo e também pela inevitável dureza da sinceridade. É o retrato da reverberação de um desconforto transformada em beleza literária - aquele tipo de beleza que os grandes autores são capazes de conceber.

Primeiro Amor; Samuel Beckett - 32 páginas - Cosac Naify

Viver não é preciso

Um dos grandes assombramentos da vida é a constante exposição às intempéries. Viver não é preciso. Estar sujeita a tempestades é um prazer assustador.
É certo que os ventos dissipam os males, mas também deixam um rastro de desordem em tudo aquilo - e entre todos aqueles - que, com o passar dos anos e o aflorar da utilidade, tornou-se essencial.
Ao pobre hábito de sobreviver ao sabor das marés, em uma embarcação silenciosa cada vez mais reduzida, denominou-se amadurecimento.
Os outros, portadores do inferno ambulante que, no passado, lançava-se como luz e tormenta, já não são sequer levados em consideração.
Somos poucos e únicos. Reduzimo-nos a efemeridades.
Somos nenhuns.

16 de mar. de 2012

ombro contra ombro em violência desmedida. absurdez do gesto.
a desproporção do corpo cansado que cambaleia sobre o ego. a outra. o outro. a nossa senhora desatadora dos nós.
nós.
lamento: você.

12 de mar. de 2012

Vazante

Estou habituada a enviar cartas de papel, mas também envio cartas virtuais. Em uma delas escrevi:

"Há uma grande diferença entre o modo como as pessoas precisam se sentir amadas e a maneira que escolhemos para demonstrar amor. Para encontrar a sincronia precisamos de tempo e sensibilidade, mas nem todo mundo está disposto a isso."
...
"Eu queria muito que o Bauman estivesse errado e que tivesse escrito todos os livros sobre afetos e relações líquidas à toa, mas sei que essa ausência de laços afetivos sólidos (inclusive nas famílias) é uma marca do nosso tempo."
...
"É bem verdade que somos todos sozinhos. Só nós sabemos sobre absolutamente tudo que vivenciamos e somos a única companhia certa pra nós mesmos até o último dos nossos dias. Parece cruel ou negativo, mas é assim."

A carta foi recebida no dia 12 de dezembro e, ainda que fizesse parte de uma troca relativamente recente, mas constante, não foi respondida.

Bauman venceu.

11 de mar. de 2012

Biblioteca: declarações de amor

Assim Falou Zaratustra

Faz mais de dez anos que encontrei Nietzsche pela primeira vez, a partir de Zaratustra. Entre a primeira leitura, de uma edição publicada por uma editora reconhecida pelas péssimas traduções, e o presente reencontro (através da minha amada Cia. das Letras), há uma infinidade de transformações.
Se durante a primeira leitura mal comprrendi a caminhada que faz de Zaratustra o Zaratustra, a releitura serviu para, além de compreender a história, reafirmar o que percebi na primeira leitura, praticamente toda limitada a excertos citáveis, capazes de estimular a reflexão.
Nietzsche me ensinou a pensar a dança. Através de Zaratustra, já na primeira leitura, passei a perceber a dança não só como prática diária e profissão, mas também como metáfora para absolutamente todos os acontecimentos vividos. Viver é dançar. Existir é movimentar-se e dedicar dias e noites ao deus bailarino.
Deus está morto. Eu danço.

Assim Falou Zaratustra; Friedrich Nietzsche - 360 páginas - Companhia das Letras


Saramago - Biografia

Antes de começar a ler o Saramago visitado por João Marques Lopes li uma crítica - negativa - ao livro, em um site dedicado a resenhas. Confesso que isso me desanimou no passeio pelas primeiras páginas que, como dizia a crítica, pareciam enfadonhas.
Fiquei feliz em constatar que o escritor da resenha - como eu, no princípio - estava incrivelmente equivocado em relação ao livro.
Aos poucos a leitura se torna prazerosa, repleta de histórias e impregnada pela História acontecida durante o período em que Saramago viveu. É como se a cronobiografia dedicada ao autor (José Saramago: a consistência dos sonhos, escrita por Frenando Goméz Aguilera), que foi uma das muitas fontes de pesquisa do João Marques Lopes, tivesse sido amplificada através das palavras.
Em Saramago estão, além das história de vida do grande autor, suas inspirações e aspirações, com destaque para os períodos de concepção dos livros que viríamos a amar.
É certo que muitas outras biografias e estudos virão, mas Saramago: Biografia cumpre, com louvor e beleza, seu papel.

Saramago - Biografia; João Marques Lopes - 248 páginas - Leya


Memórias inventadas para crianças

Ganhei o livro pouco depois de ter visto o belíssimo documentário Só dez por cento é mentira, dedicado a Manoel de Barros. Foi como se Memórias Inventadas Para Crianças tivesse sido escrito com a intenção de transpor para as páginas toda a poesia transbordante que permeia o filme, e a vida, do autor.
Memórias inventadas para crianças, como outros livros do Manoel de Barros, tem ilustrações feitas por Martha Barros, sua filha. É um livro-vida. Um livro-família. Um livro-abraço. Um delicioso passeio em prosa em companhia do menino que tem olhar-poeta.
Minha avó também leu. Como eu, terminou apaixonada.

Memórias inventadas para crianças; Manoel de Barros - 24 páginas - Planeta Jovem


Raiz de Orvalho e outros poemas

Mia Couto diz ter hesitado até aceitar a republicação do livro Raiz de Orvalho e outros poemas, argumentando que já não se vê em parte daquilo que nele está escrito.
Embora pareça diferente dos outros livros de poemas do autor, Raiz de Orvalho está impregnado por imagens e metáforas que Mia Couto evoca ao escrever em prosa.
Tenho a impressão de que, independente da forma em que seja moldada a escrita, o mundo observado por Mia Couto será todo e sempre poesia.
Amém.

Raiz de Orvalho e outros poemas; Mia Couto - 234 páginas - Caminho


Memorial do Convento


Apesar de ser um dos livros mais famosos do José Saramago, Memorial do Convento está entre os últimos lidos por mim.
No livro que conta a história de Baltazar e Blimunda estão também um pouco da história das relações humanas, das instituições e práticas religiosas e também de monumentos e acontecimentos históricos de Portugal.
Baltazar, que tem a força que muitas vezes nos falta, é persistente, idealista, quase ingênuo, mas também amante apaixonado e companheiro de Blimunda, mulher fiel e inteligente, sensível, poderosa e quase inacreditavelmente forte.
Memorial do Convento é um pouco da história de cada um de nós. Dos ideais humanos e absurdos da humanidade. Do mundo abundante em guerras silenciosas. Da civilização individualista e pouco inteligente que, em busca de falsas grandiosidades, insiste em ruir.

Memorial do Convento; José Saramago - 352 páginas - Bertrand Brasil

2 de mar. de 2012

Marcadores

"O essencial da arte é exprimir; o que se exprime não interessa."

Fernando Pessoa



"O olho do homem serve de fotografia ao invisível, como o ouvido serve de eco ao silêncio."

Marchado de Assis





Recordações do templo dos livros, ou da hospedaria provisória, que é ponto de passagem e praça de encontro dos amores.