11 de ago de 2013

Para o pai da assassina do meu avô


Há monstros que não têm nome.



As primeiras palavras que o ouvi falar, quando ainda não sabia quem era, foram os argumentos que usou para justificar sua ausência durante todos os muitos dias em que seu sobrinho esteve hospitalizado. O senhor não sabia quem eu era, mas eu e seu sobrinho, de quem sou amiga e a quem fiz companhia desde o primeiro dia de internação, sabíamos que sua filha havia sido a assassina do meu avô. O senhor não sabia quem eu era e insistiu em saber sobre a minha família, porque é assim que acontece entre seus iguais. O senhor não sabia quem eu era e continuou sem saber, porque eu não disse nenhuma palavra além dos nomes e profissões dos Vieiras e Ribeiros que me antecedem.
O senhor não sabe, mas, na tentativa explicar o inexplicável, esclareceu as dúvidas que me acompanharam durante anos. Era-me incompreensível o fato de a minha avó não ter sido procurada por vocês senão para assinar o documento em que abriria mão da indenização determinada pela justiça; permanecer indiferente e não se arrepender do fato de ter sido responsável pela morte uma pessoa sempre me pareceu demasiadamente cruel. Também não entendia como, condenada a prisão domiciliar, que impunha reclusão a partir das 20h, sua filha frequentou todos os anos do curso universitário no período noturno. Naquela tarde, ouvindo-o argumentar colericamente ao lado de um leito de hospital, como se não estivéssemos em um ambiente que exige alguma delicadeza e existissem argumentos que amenizassem o fato de sua filha ser uma assassina, compreendi quão deprimente alguém pode ser.
Não sei durante quantos minutos ouvi os absurdos que dizia, mas não lembro de, algum dia, ter sentido tanto nojo quanto naquele momento. Na sua presença, eu senti, pela primeira vez, uma vontade quase incontrolável de acabar com a vida de uma pessoa. O senhor deveria agradecer por eu ser neta daquele que foi morto pela sua filha, daquele que me ensinou muito sobre justiça e que foi um dos meus exemplos de caráter. Tenho me tornado quem sou graças a ele, por isso foi também graças a ele que o senhor, que já é idoso, não foi sequer agredido verbalmente, porque eu emudeci.
Hoje sei que o senhor tinha razão quando disse que sua filha foi vítima. Ela é uma vítima, sim. Mas não foi vítima dos amigos maus que a induziram a consumir álcool em excesso durante a tarde de domingo ou do amigo de má índole que emprestou o carro que ela dirigia quando matou o meu avô. Sua filha é vítima de um péssimo exemplo paterno, vítima de má educação. Sua filha é a vítima assassina de uma família que, graças a ela, foi devastada. Sua filha é vítima e, ao contrário do que o senhor sugeriu quando tentou encontrar similaridades entre nós duas, porque temos quase a mesma idade, tem raízes que me são completamente estranhas e vive sob princípios e valores que a tornam muitíssimo diferente de mim.